Vado Más Ki Ás, o respeito, a persistência e a vontade de ser mais e melhor

Vado podia ser epíteto de humildade e força de vontade. O rapper que nasceu, enquanto artista, no Bairro 6 de Maio, na Damaia, região da Grande Lisboa, vive para o rap desde os 12 anos e esse é o seu actual e único sustento. O ritmo e organização que tenta imprimir no seu trabalho são os alicerces do seu talento.

“Mais que um às” é querer e fazer por ser o melhor entre os melhores. A motivação surge quando o rap permite viajar de norte a sul de Portugal, conhecer outros países, pisar a terra que viu nascer os seus pais como artista convidado e estar cara-a-cara com a sua avó pela primeira vez. “Cabo Verde foi a loucura. Nem consigo explicar. Eram cerca de cinco mil pessoas, nunca pensei que fosse conhecer Cabo Verde e graças à música estive lá e conheci a minha avó. Foi incrível.”

O seu local de culto é a traphouse da família Más Ki Ás, em Rio de Mouro, Linha de Sintra. É lá que se juntam para dar tudo o que têm em cima de cada beat. O objectivo é mostrar que o rap krioulo tem o seu lugar no hip hop luso e conquistar o maior número de seguidores possível. “É uma evolução. Já somos aceites. Nós conseguimos sair do gueto e estamos a curtir na cidade e sinto-me em casa, já não me sinto excluído. Porque no fundo, é preciso também ter outra mentalidade, saber estar e aproveitar as oportunidades. Tenho recebido grande feedback do público português, mesmo não percebendo algumas coisas, eles ouvem-nos dão-nos props e isso é muito bom”.

A organização mais uma vez é crucial nessa cruzada que é romper as barreiras omnipresentes do rap krioulo. É saber que é preciso ter outros canais de divulgação além das suas redes sociais, é saber que tem de ter uma biografia preparada para enviar a qualquer momento, é legendar todos os seus vídeos para que todos possam compreender as suas letras é saber que, pelo menos todos os meses, tem de ter uma novidade para continuar a poder viver da música. E Vado sabe isso tudo de cor. “Cada passo é um passo, temos de chegar lá, ir e acreditar e quando aparece é não negar, porque acima de tudo quero alimentar a minha família disto.” O mérito é todo seu e do Clan Fuzz,mas mesmo assim Vado agradece a “sorte” que tem. “Um gajo agradece porque há dez anos não eras convidado para dar concertos num espaço porreiro, com qualidade, onde o people pode entrar e sentir-se seguro. É um orgulho.”

Na entrevista vídeo que a BANTUMEN teve oportunidade de filmar na traphouse, percebemos melhor quem é o Vado e o respeito que quer que sintam por si e pelo seu trabalho, que acima de tudo é recíproco. ”Tanto eu oiço outro rappers como eles me ouvem a mim. A união não é falares de união, é sentires que tens apoio e eu sempre vou apoiar os músicos como eu, que se esforçam para fazer cada vez mais e melhor”.

Para quem está à espera de um próximo trabalho, em breve vamos ouvir coisas novas de Vado. Está na calha a afinação dos últimos detalhes de uma nova mixtape. O segredo é a alma do negócio, mas o artista adianta que vamos ouvir participações inéditas.

Vanessa Sanches
Vanessa Sanches
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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