July 30, 2020; Lake Buena Vista, USA; Members of the New Orleans Pelicans and Utah Jazz kneel together around the Black Lives Matter logo on the court during the national anthem before the start of an NBA basketball game. Mandatory Credit: Ashley Landis/Pool Photo via USA TODAY Sports TPX IMAGES OF THE DAY

Nos EUA, os atletas, finalmente, ganharam coragem e estão a boicotar o desporto profissional

Quando “a mudança” é anunciada por palavras fuscas e promessas vagas ou quando se pede “moderação” a um grupo de pessoas que tem sido, ao longo dos tempos, oprimido, negligenciado, discriminado e abusado em todos os aspectos sociais, políticos e económicos, a descrença no Estado e nos seus representantes passa a ser perigosa.

Nos Estados Unidos da América, vimos protestos pacíficos e nada aconteceu. Vimos protestos violentos e nada aconteceu. Pretos continuam a ser vistos num plano desumanizado e continuam a ser mortos selvaticamente por entidades públicas e em nome da segurança e da paz do Estado. Agora, o protesto chegou, finalmente, ao plano económico. A franja da sociedade que maior poder tem para forçar esse mesmo Estado a criar equidade para todos os seus cidadãos acaba de tomar uma atitude, há muito esperada por quem pouco ou nada pode fazer além de votar e ir para a rua manifestar.

Foto de Mike Ehrmann/Getty Images)

Os atletas profissionais negros são o motor de quase todos os desportos de massas que movimentam milhões. São milhões nos cofres do Estado e nos bolsos de um grupo de pessoas influentes e decisoras, que contribui diretamente para a interminável discriminação que a comunidade negra vive, seja nos EUA, Portugal ou qualquer outra geografia do mundo ocidental.

Em 2016, Colin Kaepernick teve a coragem de enfrentar toda uma indústria, praticamente, sozinho. Foi banido e enxovalhado. Hoje, o que vamos fazer a todo um clube que decidiu que “já chega”? Brancos e pretos uniram-se para dizer basta. Basta de inação. Se o bolso é o único meio de luta para empurrar políticos e atores sociais para uma discussão livre de hipocrisias e que apresente soluções, então, ataquemos o bolso. Não podemos ser apenas entretenimento. Não nos podemos esconder atrás do sucesso que temos para fechar os olhos ao que os nossos “anónimos” estão a passar.

A irmã de Jacob Blake, o homem alvejado sete vezes nas costas por um polícia, e que despoletou este novo nível de protestos, teve o discurso mais esmagador e sensato que alguém, pode ter sobre este assunto e que passo a citar: “Tantas pessoas entraram em contato comigo para me dizer que lamentam que isto esteja a acontecer com a minha família. Bem, não se desculpe porque isto acontece com minha família há muito tempo”. A família a que ela se refere é todo o cidadão negro oprimido, subjugado e assassinado pelo racismo. São precisas ações. As palavras já não chegam.

A Major League Baseball acordou. A NBA acordou. A WNBA acordou. Outros se seguirão. E aqui, onde somos todos irmãos e até toleramos bem os pretos, quando é que vamos acordar? Mesmo não tendo acontecido rigorosamente nada depois do caso que fez do futebol português manchetes internacionais pelas piores razões, o Marega foi, até agora, o único a ter o discernimento e a atitude necessária para mostrar que não basta ficar calado e fazer de conta que não se passa nada. Ah, o Marega não é português. Talvez seja essa a condição necessária para vermos o que está mesmo à nossa frente. Afinal, somos da terra dos brandos costumes, dos conformados e dos pacatos.

Vanessa Sanches
Vanessa Sanches
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

Deixa-nos a tua opinião

Artigos Relacionados
Foi há mais de um ano que a longa-metragem sobre o assassinato de Alcindo Monteiro, ocorrido há 26 anos, começou a ser rodada. A película estreia-se finalmente no próximo domingo, 24, às 19h, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. O filme faz parte da programação do DocLisboa.
Mas como interagir com alguém que fala um idioma que desconhecemos? Danny Manu, um britânico de origem ganesa, criou a solução. Os Clik by Mymanu são uns fones de ouvido, sem fios, que podem traduzir vários idiomas automaticamente.
Este ano, a artista celebra 25 anos de carreira e mostra a fibra de que é feita, eclética, surpreendente e a transbordar musicalidade. Para assinalar a data, temos "Bla Bla Bla", uma música que marca um ponto de viragem na sua carreira, seja a nível sonoro como visual.