Negritude | Arte de Jassira Andrade
Negritude | Arte de Jassira Andrade

Não sou cabrita, mulata ou mestiça. Sou negra

Arte de Jassira Andrade

Vamos falar da minha escassa, embora imensa, negritude. Depois de muita discussão, confusão e indecisão, decidi que sou Negra. 

Não sou cabrita, mulata ou mestiça, uma vez que, estas designações foram sempre usadas como uma tentativa de atenuar o infortúnio que é ser-se negro.

Decidi também que não sou preta. OK, preta até posso ser, para quem eu permitir que me trate assim e não o contrário. Não posso ignorar a carga negativa que foi dada a esta palavra e, se eu não te conheço, nem as tuas intenções, não me parece correto que a uses levianamente. 

A temática da raça é sempre complexa. Ao que parece já se chegou à conclusão que só existe uma raça, será esta a raça humana. E ainda bem. Mas depois caímos da cama, acordamos e percebemos que há sim raças.

Vamos então perceber por que é escassa e também imensa a minha negritude? Vamos que eu sei que vocês estão sedentos desta minha infinita sapiência.

Escassa pela quantidade de vezes que ouvi, por parte de brancos:

“Tu não és preta és mulatinha”

“Tu não és preta és tão gira”

“Tu não és preta és tão inteligente” (pumba duas bolas à trave)

 “O teu filho já é branco”

Escassa pela quantidade de vezes que ouvi, por parte de negros:

“ Tu não és preta, és bem clara”

“Tu não és preta com esse sotaque bem afinado”

“Tu não és preta, tens hábitos de branca”

“Deves ter a mania que és preta”

Ora ouvir tantas vezes que não somos algo, pode e deve fazer-nos questionar.

Vamos agora falar da minha imensa Negritude?

Pela quantidade de vezes que me disseram, tanto negros como brancos, não necessariamente pela mesma ordem (divirtam-se adivinhar quem disse o quê):

“Porque não esticas o cabelo e usas assim no ar”?

“Esticaste o cabelo porquê? Queres ser branca?”

“Tranças são mesmo à gueto”

“ Ah o teu namorado é branco? Não gostas de pretos?”

“Ahh vocês as pretas têm fama de serem muito quentes na cama”

 “Deves ter a mania que és branca”

Ufa! Ficaram confusos e exaustos? Também eu, durante algum tempo. Mas a necessidade de me entender e de me posicionar neste mundo, porque todos nós, ou pelo menos alguns de nós, temos necessidade de sentimento de pertença.

Escolho ser Negra pois, apesar de ter mistura de negros e brancos, não conheci, infelizmente os meus familiares brancos e fui criada pela parte negra. 

Escolho ser Negra pela quantidade de vezes que a minha mãe me chamava de pretinha ou negrinha em criança para que quando me chamassem de preta na escola, não me ofendesse em sê-lo.

Pela quantidade de vezes que a minha avó me disse, tens que te esforçar mais que os outros porque tu, tu não és branca.

E por último, mas não menos importante, pelo mufete, pela moamba, pelo  semba e kizomba que aprendi a dançar antes mesmo de aprender a escrever o meu nome.

Escolho ser Negra porque quando piso em África pela primeira vez entendo de onde vim. 

Escolho ser Negra pela falta de representatividade na televisão e publicidade, que fez com que odiasse o meu nariz grosso e o meu cabelo volumoso enquanto crescia.

Escolho ser Negra, porque quando ouço o discurso da Oprah nos Globos de Ouro o meu coração explode de orgulho.

Escolho ser Negra, porque se algum dia fizer alguma coisa de jeito nesta vida, quero que uma menina negra olhe para mim, encha os pulmões cheios de ar, através do seu nariz achatado, redondo e grande e coçando os seus cabelos emaranhados, pense: ‘Acho que quero ser como ela’.

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Andreia Coimbra
Andreia Coimbra
Na falta de representatividade, represento-me. Educadora de formação, humorista nos tempos livres e formanda em terapia familiar de coração.

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