“O tchokwe virá sempre em primeiro lugar”, Kanawa Benga

Kanawa Benga é um novo artista angolano, que acaba de lançar o single “Quero”, com a participação de Francis MC Cabinda, um dos artistas mais consistentes no rap game em Angola. 

A música, que já se encontra disponível em streaming nas diferentes plataformas online, contou com a produção do reconhecido produtor Smash Midas.

Kanawa Benga é membro da editora EyooKsunoRecord e começou a aparecer no radar do rap angolano em 2019, com o lançamento da faixa “Bilo”.

Kanawa é peculiar, além do talento já reconhecido, tem ganhado notoriedade por cantar em tchokwe, uma das línguas nacionais de Angola, afirmando a representatividade do povo Côkwe – uUma etnia bantu que se concentra sobretudo no nordeste do país. Numa perspectiva etnológica, os Côkwe destacam-se pela sua tradição artística, particularmente pelas suas esculturas e máscaras.

Se para alguns, esse factor é uma barreira à expação da sua arte, para Kanawa os sonhos não têm limites. “Acredito muito que a minha música é extremamente original e o original tende a vincar na maioria das vezes”.

Que mensagem pretendes passar com a tua música?

Pretendo passar mensagens de afecto, felicidade, união entre as diferentes classes sociais, união familiar e, acima de tudo, o respeito mútuo.

Como é que tudo começou?

A ideia de eu começar a cantar deu-se quando conheci o Açucena e o Boy Mário, que eram meus colegas de escola e vivíamos no mesmo bairro [Rocha Pinto, Luanda]. Como tínhamos gostos em comum em relação à música, decidimos formar um grupo, os The brilhos, e foi com eles que tive os meus primeiros contactos com um estúdio e palco.

O que te inspira para compor?

 Existem muitas coisas que me inspiram, o bairro suburbano onde vivo; a alegria das pessoas; a tristeza; as lembranças da minha infância na minha terra natal [bairro Tchizainga em Saurimo)… Sou uma pessoa muito observadora e atenta aos detalhes, isto leva-me a ver as coisas num outro ângulo e isso ajuda-me a compor.

Qual é a base da sonoridade da tua música?

É a minha Africanidade. é o facto de ter nascido na terra onde nasci. Isso tudo me dá os imputes necessários para a minha sonoridade. 

Na sua opinião as views são reflexo da qualidade do artista ou é
relativo?

Acredito que é relativo. Existem muitos artistas que não possuem qualidade artística nenhuma mas no entanto são os que mais visibilidade têm. Tudo depende muito do marketing e do carisma do próprio artista.

De onde surgiu a ideia da música “Quero”, com o Francis Mc Cabinda?

Foi um trabalho em equipa. Já tínhamos 50% das músicas que farão parte do meu EP gravadas, e já tínhamos gravado o verso e o refrão da música “Quero”. Aí o Smash propôs a participação de Francis MC Cabinda e eu disse “sem mais demoras vamos a isso”.

Alguma vez sentiste que cantar em Tchokwe poderia ser uma entrave?

Tinha plena certeza que não seria fácil, visto que vivo em Luanda onde a língua predominante é o português, mas sabia que valeria a pena correr o risco porque, ao cantar em Tchokwe, estaria a enaltecer as minhas origens. Isso é muito gratificante para mim.

Há alguma data para o lançamento do EP?

Ainda não, mas posso adiantar que estamos a 80% da fase de conclusão.

Com o foco voltado para o mercado lusófono, vamos começar a ouvir-te mais vezes em português?

A minha cena é mesmo tchokwe. Posso talvez adicionar uns trechos em português, como sempre fiz, mas tchokwe virá sempre em primeiro lugar e quem gosta de arte, sempre gostará de arte, independentemente desta ser em português, inglês, kimbundu ou mandarim.

Como vês a nova escola do rap em Angola?

A nova escola trouxe uma dinâmica diferente na cultura hip Hop, só que uma boa parte dos fazedores tende a apostar mais nos flows, só cantam banalidades e não apostam muito no conteúdo, que é um dos elementos principais do rap. E, no que toca a lusofonia em geral, aí a história é outra. O rap feito no Brasil, por exemplo, é muito mais virado a assuntos sociais, Portugal também não foge muito disto, mas o mesmo não se pode dizer de Angola.

Mauro Aghuas
Mauro Aghuas
Pai de 2| Linux entusiasta| Fã de Cazuza | amante da cultura Hip-Hop e apaixonado por festivais de Rock em Angola

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