Janice Silva

“Estamos na luta e espero que consigamos alcançar o patamar dos homens”, Janice Silva

Tem apenas 23 anos, no seu currículo conta com 49 internacionalizações, 1360 minutos jogados e 25 golos marcados. Está entre as dez melhores jogadoras do mundo, é internacional pela Seleção A de Portugal, detém 18 títulos nacionais (incluíndo a primeira Taça da Liga, cuja final foi disputada neste domingo, 28) e internacionais, cinco taças de Portugal e quatro super taças.

São muitos títulos para uma pessoa só, sobretudo com a idade que tem, e tudo indica que Janice Eloisa não vai ficar por aí. Fruto de muito trabalho, esforço e dedicação, a primeira vez que vestiu a camisola da Seleção foi em 2015, num jogo contra rapazes, na América do Norte. Fez parte das 14 selecionadas e desde então tem feito sempre parte das convocatórias.

Contudo, nem sempre foi assim. Numa conversa via Zoom, quisemos saber mais sobre a jogadora de Futsal do Sport Lisboa e Benfica considerada das melhores jogadoras do mundo.

A bola veio ao seu encontro por acaso, por intermédio de um tio, que era seu colega no sexto ano, no ensino preparatório. A equipa dos rapazes precisava de mais um elemento e, ainda sem qualquer noção do que fazer com uma bola nos pés, Janice aceitou jogar e como avançada. O apito de partida fez-se ouvir e o jogo começou. Aqueles pequenos toques, desencadearam algo diferente em Janice, foi aí que o sonho começou a dar os seus primeiros passos no que viria a ditar o percurso atual da sua vida.

Na altura, a mãe achava muito estranho a filha levar na mochila um par de ténis a mais e voltar com eles para casa rasgados. “Ela perguntou o que eu andava a fazer para chegar a casa todos os dias com os ténis assim, eu disse que comecei a jogar à bola com os meus amigos e a ideia não lhe caiu muito bem”, explicou-nos. E a mãe, a única pessoa que a podia levar ao treinos, acabou por apoiá-la.

Com 11/12 anos, Janice pôde escolher entre o futebol e o futsal e optou pelo futsal por ser a modalidade que podia treinar mais perto de casa, facilitando assim a tarefa da mãe. Foi assim que conheceu e integrou a equipa feminina do Clube Atlético São Brás, na Amadora, que hoje chama de casa.

O sonho já parecia mais real, e com o apoio da família, tinha tudo para correr bem. “Hoje em dia sou a única pessoa na família numa estrutura desportiva e é bom, primeiro por ser mulher, descendente de africanos, mais concretamente cabo-verdianos. É bom ter o meu nome lá em cima. É gratificante. Digo isto aqui com humildade porque cresci num bairro social, no Casal de são Brás, na Amadora. E estou a conseguir seguir um sonho, [o que significa que] todos o podem fazer”.

Mas o sonho parecia que podia ficar a meio, quando Janice começou a ter maus resultados na escola. Durante dois anos não pôde treinar ou competir, enquanto as notas não subissem. Após essa temporada, voltou ao ativo, mais focada, “porque sabia que em primeiro lugar estava a escola e depois o futsal”.

Na mesma altura a Fundação Benfica implementou um projeto na escola, “Para ti se não faltares!”, com o objectivo de ajudar os alunos a concretizar os seus sonhos. Contudo, havia uma condição: não faltarem às aulas. Janice mostrou-se interessada e integrou o projecto. “Se não fosse pelo projeto e pela Fundação, eu não estaria onde estou hoje. Pude vestir tanto a camisola do Benfica como a de Portugal. Foi também a luz verde para que tudo corresse bem e conseguisse alcançar os meus sonhos e objetivos até ao dia de hoje”, afirmou.

Apesar dos percalços escolares e de não conseguir conciliar muitas vezes o estudo com o futsal, conseguiu concluir o secundário. E agora está a tirar a licenciatura em Técnico de Apoio à Gestão Desportiva na Universidade Lusófona, em Lisboa.

Janice vê o seu percurso de vida como um exemplo e inspiração para todos os jovens, principalmente para as mulheres, e da sua zona. Sabe que a vêem como referência, por isso não pára de trabalhar e lutar pelo que quer. Sabe que só assim vai conseguir inspirar os outros, com trabalho e dedicação.

A jogadora sente que não existe uma grande valorização ou apoio às mulheres que jogam à bola, apesar de as coisas estarem a mudar, lentamente. “Hoje em dia, estamos ainda um bocado escondidas, mas temos lutado imenso para o nosso desenvolvimento. Por norma, dizem que as mulheres não têm jeito para a bola, para jogar. E isso é mentira: cada vez mais temos mostrado que estamos na luta e espero que, um dia, nós mulheres consigamos alcançar o patamar dos homens”.

Janice Silva já conta com dez anos de bola nos pés, com muito sangue, suor e lágrimas. Está num lugar onde muitas almejam chegar mas poucas acabam por conseguir. “Em mim, tudo é feito de muito trabalho, só assim cheguei aqui. São muitos títulos pelo Benfica e pela Seleção, falo de mim e das minhas colegas também. Quero dar os parabéns à estrutura do Benfica que tem apostado imenso no desporto feminino. Queremos conquistar mais títulos e recordes, estamos a trabalhar para isso. E também à UEFA por ter elaborado o primeiro europeu feminino em Portugal, em 2019, o que acaba por mudar um pouco o estigma de que a mulher não sabe ou não pode jogar à bola”.

Janice confessa que, aquando da sua estreia no Benfica, não tinha bem a noção do que era ser uma mulher no desporto. Só quando começou a dar os primeiros passos na equipa é que percebeu que sim, que as mulheres que lá estavam tinham qualidade para estar na equipa. “Dentro do futsal, mostramos cada vez mais a nossa qualidade e inteligência dentro do campo, e é de se dar os parabéns à Federação Portuguesa e outras estruturas que lutam pela imagem do futebol feminino e pelas transmissões dos jogos na televisão. Muita gente não sabe o que é o futsal e a partir dessas transmissões damos a conhecer o que é e que existem mulheres a dominar bem”. 

Sobre o valor de cada jogador, para Janice não faz sentido, nos dias de hoje, a remuneração masculina ser tão díspar da feminina. Percebe as complicações que essa mudança possa trazer ou que não seja algo fácil de se fazer no imediato, mas é um assunto que tem-se vindo a falar ao longo dos últimos anos. E as mudanças parecem já dar sinais de vida, porque como os homens, “nós mostramos o nosso talento dentro do campo. Temos basicamente os mesmos campeonatos e representamos o mesmo com garra e vontade. É inadmissível essas diferenças salariais tão díspares. Talvez a próxima geração já não tenha de lutar contra isso”.

Além das dificuldades ligadas ao género dentro da modalidade, há também o factor tom de pele. Na altura, era a única negra na equipa, o que tornou a sua integração mais lenta. Não tinha ninguém com quem se identificar, a não ser a sua treinadora que também era negra. Mas as coisas começaram a caminhar para bom porto e foi conseguindo conquistar o seu lugar. Pensou em desistir, mas não o fez porque tinha um propósito maior, o de concretizar um sonho.

Janice é determinada e faz constantes análises à sua performance. Vê o que falhou ou o que correu menos bem, com o objectivo de melhorar jogo após jogo. Acha que um dos motivos da sua nomeação em 2017, para Melhor Jogadora do Mundo, foi fruto desse trabalho que faz.

Quando surgiu a indicação, a jogadora não teve conhecimento. “Nessa altura, as pessoas davam-me os parabéns no Facebook e eu não percebia o porquê. Eu não fazia anos. Mas só depois é que percebi quando abri uma notícia e vi que fui nomeada para a Melhor Jogadora do Mundo. Fiquei muito feliz por saber que o meu trabalho está a ser reconhecido dentro e fora do país. Quando contei à minha família, ficaram muito felizes, principalmente a minha mãe que nunca pensou que fosse chegar a esse patamar. “A minha mãe é a minha inspiração. Nunca me virou as costas e sempre me ajudou”.

Em 2019, foi nomeada “Jogadora do Ano” pela Quinas de Ouro, que não ganhou mas teve a oportunidade de privar e conhecer alguns dos seus ídolos dentro do futebol masculino, como Cristiano Ronaldo, Renato Sanches, William Carvalho, Rui Patrício, entre outros. “Foi um momento único conhecer o Cristiano Ronaldo. Nunca o tinha visto tão perto de mim. É um ser humano fantástico e simpático. Tirámos uma foto juntos que vou guardar até ao fim da minha vida (risos)”. Entretanto, em 2020, foi nomeada como a sexta melhor jogadora pelo Futsal Planet Awards 2020.

Apesar da pandemia ter estagnado muita coisa, o trabalho não parou. Mesmo em casa continuou os treinos, com planos dados pelos Personal Trainers (PTs) para manter a boa postura física e a saúde. “Quando voltámos a jogar, foi chato não ter aquele apoio e calor dos adeptos. Sem eles, para mim, não é espetáculo”.

Para Janice, mais de que um mês sem jogar ou treinar, faz-lhe confusão. Entre risos, diz que respira futsal e adora desporto. Não se vê sem essas duas coisas.

Muitos são os convites que tem recebido de várias equipas mas sente que as coisas têm de ser feitas passo a passo. Sabe que tem evoluído bastante, mas que “quando for para ser será”.

Apesar de ainda não ter estruturado um plano para o futuro, algo é certo: quer ajudar a sua comunidade, quiçá abrir uma academia para os jovens. “Na minha zona temos vários jovens com talentos e sem oportunidades. E quero construir a minha história, passar para eles uma forma de inspiração apesar das várias quedas [que possam ter de enfrentar]”.

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Wilds Gomes
Wilds Gomes
Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.

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