Paulo Flores

A História de Angola em direto que Paulo Flores nos vai contar no Coliseu

Demorei algum tempo a tirar esta crónica do meu computador porque a cada palavra, cada nota, cada som emocionava-me.

A última vez que vi o Paulo atuar, com público, foi na passagem de ano de 2020. Prometia ser a melhor entrada de década de sempre. Afinal, lá no fundo todas prometem. Escolheu o reportório que nos toca, mas faltava mais. O tempo era curto nessa madrugada, achava eu, que durante o ano o íamos ver, como sempre.

É por esta razão que o Coliseu esgotou. Estamos com saudades de escutar e dançar. Dessa consciência cantada cheia de melodia que faz de cada concerto do Paulo Flores uma celebração.

Vai ser assim hoje, com o lançamento do álbum IN Dependência, que me tem feito recordar, aos poucos, o orgulho da minha costela angolana. Enquanto tento escrever estas linhas – emociono-me – e ouço “Heróis da Foto” a música que inaugura a história. Lembro-me do meu avô, dos tios-avôs e de todos aqueles que iniciaram a nossa narrativa e, agora, são lembrados numa viagem pelo passado, presente e futuro da nossa Banda.

IN Dependência não é só um conjunto de músicas – com belos arranjos e a participação do Kota Botto Trindade, uma das lendas vivas do Semba – mas sim uma carta de amor a Angola que tantas vezes carrega um fado que ela própria não sabe como lhe foi destinado. Mas, e como nos ensinou o nosso poeta, o #amorcura e em “Bem Vindo” sentimos que a primeira intenção vem sempre com coração.

É difícil ouvir um álbum do TiPaulito sem chorar, sem xinguilar – agitar o corpo desenfreadamente – mesmo quando ouvimos o Semba Original e, no meu caso, sei que já não vou jantar mais com o Tio Waldemar Bastos no Cais do Sodré e ouvir as suas histórias, duras, sofridas e ao mesmo tempo transformadas numa sonoridade universal que nos representa até agora.

Dizer orgulhosa que sim, sou pertença do Tio Carlos Burity nesta que considero uma das maiores homenagens ao Semba. Até isso as Flores conseguiram converter em bandeira e também somos porta estandarte de “bodas de três dias”.

Ainda a ressacar do “Semba Original” entra o Manecas Costa e explica-nos que “Si Bu Sta Dianti na Luta – Xica Feia” – uma das músicas mais claras e com a qual me identifico, uma vez que, no reportório de Paulo Flores, as mulheres estão no centro e a nossa resiliência também.

Esta mistura crioula é África e é impossível ficar indiferente à mensagem que podia acontecer em qualquer parte do mundo, à sonoridade e ao nosso “Jeito Alegre de Chorar. Somos assim choramos e resistimos. Talvez seja esse o nosso lugar e a verdadeira Independência.

E é aí que chagamos ao 11 de Novembro neste 21 de maio. Sabes quando te contam um imaginário que nunca viste em lado nenhum? É esta música, este momento que traz o cheiro da terra vermelha e o Prodígio que faz essa ponte com o Paulo de uma forma tão poética que não tem explicação. Às vezes não precisamos de ser rebuscados para falar da vida e sentimentos, pois não?

Continua a explosão de amor com Njila Ya Dikanga – que sempre cantei mal– espero que o Paulo e o Yuri da Cunha não me estiguem (gozem) por eu não estar a interpretar mal a nossa língua local sempre que canto esta carta de amor a todas as nossas avós. Todas…

Independência, o propósito do álbum vem lembrar 75, em que éramos #nóstodos em Angola. Unidos por um sonho e pela sonoridade daquele tempo em que também fui crescendo vendo os mais velhos a bailar debaixo da mesa. No mesmo Oceano, mas com um continente a separar. Com o Paulo aprendi que a música é a nossa ponte e estas memórias são a nossa pertença.

Porque o país era bom e agora, através do humor e alegria, voltamos a reencontrar o “mais velho Finocas” que na música “Esse País” não dá para romantizar a realidade atual que os angolanos vão levando com o jargão “está tranquilo, está favorável”, esta passada não divide ninguém.

Termino esta viagem na “Roda da Despedida de Semba” a lembrar o Tio André Mingas, que trouxe o seu sorriso aberto à música angolana e já partiu.

Há muito para aprender e celebrar esta noite. No Coliseu. Chega cedo para termos esquebra – encores das mais pedidas e queridas deste regresso do Paulo Flores.

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Magda Burity
Magda Burity
Comunicadora nata, ativista e antiracista Magda Burity soube, desde cedo, que queria ser jornalista. Com carreira em Moçambique e Angola, é em Portugal que tem desenvolvido os mais recentes projetos dedicados ao Media Coach, digital e empreendedorismo. País onde nasceu e regressou há 4 anos depois de 15 anos em África.

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