Miguel de Barros
Foto: Gabrielly Pereira

“A África sempre esteve na vanguarda do pensamento crítico, inovação e produção cultural”, diz Miguel de Barros

Neste dia 25 de Maio, celebrou-se o Dia da África, ou Dia da Libertação Africana. Para entender mais sobre a importância da data, conversamos com o sociólogo Miguel de Barros, natural da Guiné-Bissau e considerado pela Confederação da Juventude da África Ocidental (CWAY), a personalidade mais influente do ano de 2018.

“25 de maio continua a ser uma data muito importante no contexto africano e nas diásporas africanas, porque promove um debate de uma nova geração à procura dos ideais da libertação, emancipação. Também é algo que possibilita às diásporas um reencontro com as origens, para aqueles que não nasceram no continente e procuram um local de afeto e alguma possibilidade de ação política consciente e solidária com as causas com as quais a África se debate”, contextualiza Miguel.

Para Barros, ainda existe um longo caminho para que o Ocidente perceba as potencialidades do continente, que, de acordo com o pesquisador, “ainda é vista mais enquanto reserva, enquanto um espaço de exploração, enquanto um continente que precisa de ajuda exterior. Essas narrativas não só são falsas questões, mas alimentam também uma percepção da incapacidade da construção de uma agenda de transformação africana”, analisa.

Outro fator que chama a atenção, é a visão que se tem da capacidade econômica do continente e o êxodo de imigrantes de origem africana. “A contribuição dos migrantes africanos, que na sua maioria, estão no continente africano, é muito mais importante do que a ajuda pública ao desenvolvimento em África, com uma diferença de mais de 20 bilhões de dólares. Por outro lado, a economia colonial acaba por asfixiar a própria transformação da África, colocando o continente numa posição de reservatório de matérias primas que são exportadas para o ocidente e depois voltam como produtos”.

Para sociólogo, o que é mais importante hoje, é que o continente consiga usufruir das próprias riquezas que gera, rompendo com o jugo colonial, que segue rendendo riquezas para a Europa. “Uma das coisas que hoje é reivindicada é a África constituir-se como uma potência porque suas matérias primas poderiam ser transformadas para gerar em emprego, canais de distribuição no continente, zonas de livre circulação e comercialização dos produtos. Mas, também, trazer esse potencial natural em termos de investimento em capital humano, para que uma nova geração de africanos possam se beneficiar das vantagens que seus recursos naturais oferecem”, visualiza Miguel.

Celebrar o Dia da África passa também por desconstruir imaginários como os que se ensinam nas escolas no Brasil, de um continente africano apenas marcado por pobrezas, doenças, e falta de possibilidades. “A África sempre esteve na vanguarda da construção, quer do pensamento crítico, inovação científica e tecnológica, e da produção cultural. Infelizmente, a colonização ocidental escondeu e eliminou todos esses elementos que demonstram essa factibilidade”.

Para Miguel, as pesquisas têm grande contribuição a dar neste resgate. “As pesquisas no campo das Ciências Sociais e Humanas evoluíram bastante e têm encontrado vestígios, documentos, monumentos, espaços de patrimônio que confirmam que a contribuição da África para o mundo, como um território produtor de civilizações que influenciaram o modo de estar, de consumo, de produção e de construção de espaços plurais, que hoje lutamos para que se refiram como um espaço que merece ter sua paz para construir a sua própria transformação” finaliza.

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Bruno Dinis
Bruno Dinis
Carrego a cultura kimbundu nas minhas veias. Angolanidade está presente a cada palavra proferida por mim. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, por tanto, não seja recluso da ignorância.

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