Bruno Candé | Lusa
Manifestação contra morte de ator Bruno Candé e em defesa das vítimas do racismo, em Lisboa, 31 de julho de 2020. Bruno Candé, de 39 anos, foi baleado em 25 de julho por outro homem, de 76 anos, em Moscavide, no concelho de Loures, distrito de Lisboa. MIGUEL A. LOPES/LUSA

Ministério Público pede 22 anos de prisão para assassino de Bruno Candé

O Ministério Público (MP) pediu esta sexta-feira uma pena não inferior a 22 anos de prisão efetiva para o homem acusado por homicídio qualificado de Bruno Candé, baleado em julho do ano passado na Avenida de Moscavide, em Loures.

Nas alegações finais, realizadas no Tribunal de Loures, o MP considerou que Evaristo Marinho, reformado de 76 anos, “deverá ser condenado a uma pena não inferior a 22 anos de prisão”, ressalvando que “ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém”.

Em 13 de maio, na primeira audiência, o homem confessou o assassínio ao dizer ter disparado seis tiros contra o ator Bruno Candé, em 25 de julho de 2020, no concelho de Loures (distrito de Lisboa).

Acusando Evaristo Marinho de um crime de homicídio qualificado e outro de posse de arma proibida, o MP explicou que já “teria havido um desentendimento antes” entre as partes e que arguido “teve intenção de matar”.

“Tratou-se de premeditação. […] O senhor Evaristo já ia munido com uma arma de fogo. […] A arma já vinha com a munição na câmara”, referiu a Procuradora.

De acordo com o Ministério Público, os “factos são extremamente graves”, adiantando que o arguido terá tirado da vida de Bruno Candé “de uma forma fria”.

Para a Procuradora, ficou demonstrado que o crime aconteceu devido a motivos de caráter “fútil […] e de origem étnica”.

“A motivação é fútil e torpe. Não havia qualquer justificação para nenhuma discussão. O ódio racial resulta demonstrado pelas palavras que foram ditas a Bruno Candé”, disse, salientando que “foram corroborados pelas perícias”.

O MP alertou ainda para a postura do arguido que, durante as sessões de julgamento, demonstrou “indiferença” relativamente ao crime.

“Este crime de homicídio é extremamente condenado pela comunidade”, afirmou a Procuradora.

O MP explicou ainda que é pedida uma pena não inferior a 20 anos pelo crime de homicídio qualificado e uma pena intermédia consoante anos de posse arma ilegal, perfazendo os 22 anos totais.

Na sessão, a defesa de Bruno Candé concordou com as alegações finais do MP, reiterando que Evaristo Marinho deve ser julgado com “uma pena perto da máxima”.

Já a defesa do arguido considerou que Evaristo Marinho está “em estado de conformação”, reconhecendo que o crime foi “surpreendente” por não ter antecedentes criminais.

“Temos um arguido conformado e resignado com a sua vida e com o seu futuro”, disse a advogada de defesa.

No início da sessão, que começou às 10:15, o coletivo de juízas reforçou que não foi detetada “doença mental” ao arguido, depois de se terem realizado perícias psiquiátricas.

O coletivo de juízas determinou a leitura do acórdão para o dia 28 de junho, às 11:00.

Em janeiro, o Ministério Público (MP) acusou Evaristo Marinho por homicídio qualificado de Bruno Candé, baleado em Moscavide, no concelho de Loures, em 25 de julho de 2020, crime que é agravado por ter sido motivado por ódio racial.

Segundo o despacho do MP, a que a agência Lusa teve acesso, Evaristo Marinho, de 76 anos, afirmou durante uma discussão com a vítima, em 22 de julho de 2020, entre outros impropérios: “Vai para a tua terra, preto! Tens toda a família na senzala e devias também lá estar!”.

Durante a discussão, na via pública, o arguido levantou a bengala em direção ao ator Bruno Candé, ameaçando-o de morte e fazendo referência à cor do cidadão.

De seguida, refere o MP, Bruno Candé entrou num veículo, tendo o arguido ainda gritado “tenho lá armas em casa do Ultramar e vou-te matar”.

Nos dias seguintes, o arguido passou diversas vezes na mesma rua com uma pistola calibre 7,65 milímetros, esperando voltar a encontrar a vítima, que habitualmente passeava no local com a sua cadela.

No dia 25 do mesmo mês, por volta da hora do almoço, ao avistar Bruno Candé sentado no muro de um canteiro existente na rua, o arguido retirou a arma do coldre, empunhou-a e disparou contra a vítima que, de imediato, caiu ao chão.

À mesma hora do julgamento, algumas dezenas de pessoas juntaram-se, junto ao Tribunal de Loures, para exigir “justiça por Bruno Candé”.

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