“Cada branco tem uma desculpa para não fazer nada”, Graça Castanheira

Graça Castanheira é a realizadora por trás da curta-metragem Pele Escura – Da Periferia para o Centro, que estreia-se já no dia 4 de julho, no Centro Cultural de Belém em Lisboa.

É exatamente nesse espaço, na capital lisboeta, onde centra-se a narrativa do filme. Seis amigos negros, de locais diferentes da periferia, decidem deslocar-se ao Centro Cultural de Belém para assistir a um espetáculo. Alternando o olhar entre o percurso de uns e de outros, ficamos a saber o que pensam e sentem enquanto se dirigem à cidade – Lisa, como lhe chamam. Uma reflexão sobre centro e periferia, negros e brancos, racismo e inclusão.

Graça Castanheira nasceu em Angola, na Huíla, é filha de colonos e há algum tempo que tem sentido a necessidade de extrapolar as suas certezas de pessoa não racista. É desse questionamento que nasce o seu sentido de ação antirracista e este primeiro filme, que foge do registo de documentário pelo qual pontua o seu currículo.

“Eu nasci em Angola, filha de colonos, só que era uma família progressista, portanto antirracistas e, durante toda a minha vida adulta, tenho vindo a defender-me com a ideia que não sou racista e que até a minha família, mesmo sendo colonos, não são racistas, e eu acredito que cada branco tem uma desculpa para não fazer nada. A minha era esta ‘eu nasci em África, mas nós éramos bons e sempre lutámos contra o racismo’. Houve uma altura em que pensei que isto não está bem, não vai ficar bem tão cedo, há muitas forças contrárias, há muitos interesses que querem perpetuar o racismo, porque dá jeito, e de que não vale a pena esconder-me por trás desta desculpa. Acreditei que a partir de uma certa altura era preciso fazer alguma coisa. Aquilo que eu pudesse”, explicou-nos em entrevista vídeo.

Partindo de uma ideia original de Kalaf Epalanga, Pele Escura faz-nos cogitar sobre os conceitos de pertença, não pertença, exclusão e inclusão territorial.

Graça reforça que este filme foi feito, sobretudo, “para ajudar os brancos”. Durante a sua experiência como professora há 20 anos, indica que só este ano teve pela primeira vez um aluno negro, uma consequência deste enclausuramento mental provocado por sistema político e social profundamente racista.

“Eu fiz este filme para chamar a atenção porque há poucas pessoas a estudar realização, há poucas pessoas negras nas escolas de cinema. Sou professora há 20 anos e tive este ano pela primeira vez o Falcão Nhaga, que vocês já entrevistaram, e que tirou o curso de cinema. Eu faço isto nos limites da minha branquitude para chamar a atenção porque as coisas têm de ser corrigidas, têm que haver bolsas de estudo, vai ter que se fazer alguma coisa, vai ter que se mudar o sistema. Portanto, tive esta vontade e depois foi-me difícil ter uma ideia sobre como falar sobre isto [por ser branca]. Acompanho de muito perto as ideias do Kalaf, acompanho as crónicas dele, e danço Buraka [Som Sistema] e fui ter com ele e passámos uma tarde toda a pensar e ele disse que não haveria nada mais cinematográfico do que esta ideia da periferia e do centro. E combinámos que as duas grandes periferias, as duas grandes linhas seriam o outro lado do rio e a linha de Sintra. A partir daí, fiz a construção de três personagens, um grupo de cada lado que confluíam para o centro”, disse.

Wilson André, Ruben Rosário, Nayela Simões, Karina Silva, Nilsa Pires e Paulo Pascoal são os atores que dão vida à história e o facto de serem de origem angolana deriva da necessidade de “criar uma unidade de expressão”. A ideia principal foi estabelecer um “espaço onde os negros pudessem fazer um papel que não fosse de escravo, de criado, de confronto com os brancos” e onde não houvesse uma imposição “de uma linguagem dos brancos (…), de um apuramento do português e de uma linguagem dominante”.

Com estreia marcada para este domingo, 4 de julho, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Pele Escura – Da Periferia Para o Centro vai ser ainda o centro de várias conversas para que se reflita sob várias perspetivas e abordagens as temáticas que o filme aborda. Para tal, foram convidados oradores de áreas distintas do conhecimento: o investigador António Brito Guterres, o arquitecto Ricardo Bak Gordon, a atriz e encenadora Zia Soares, a cantora Selma Uamusse, a socióloga Karina Carvalho, a jornalistaPaula Cardoso, o sociólogo e fundador da plataforma de Reflexão Angola Manuel Dias dos Santos e o professor e historiador Diogo Ramada Curto, e a realizadora e diretor de atores deste filme, Graça Castanheira e Meirinho Mendes.

A primeira exibição do filme vai ter início às 15 horas e as conversas serão moderadas por Angella Graça, presidente da direção do INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal.

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Vanessa Sanches
Vanessa Sanches
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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