“A Noite dos Reis”, uma fição africana que se projeta nos problemas sociais e políticos de qualquer sociedade

A Noite dos Reis, filme do realizador costa-marfinense Philipe Lacôte, esteve em antestreia na noite de 13 de julho, nos cinemas UCI do El Corte Inglés de Lisboa.

Esta aposta da distribuidora Alambique, no âmbito da Universal French Cinema Fest, é uma longa metragem que conta a história de um jovem, que é enviado para MACA, uma prisão no meio da floresta da Costa do Marfim governada por reclusos. Há uma tradição que rege a prisão e sugere que, aquando do nascer de uma lua vermelha, o Chefe designe o novato como o novo “roman”, isto é, como o contador de histórias, encarregando-o de contar uma história aos outros prisioneiros. O mais recente recluso, sem alternativa, acaba por escolher narrar a vida mística do lendário bandido a quem chamam Zama King.

O que acaba por prender o espectador ao argumento é a curiosidade em saber se o jovem consegue aguentar-se a contar a sua história, até ao amanhecer e se assim, se poupa da morte.

No meio da anarquia que é MACA (a maior prisão da África Ocidental), a eminente morte do atual chefe do estabelecimento prisional, fomenta um caos ainda maior, ao que se vive diariamente. Dentro de sistemas subversivos, a ausência da lei é gritante, no entanto, existem códigos e regras próprias que regem esse mesmo sistema e um deles, para o seu bom funcionamento, é que haja um chefe. Violência, crime, usurpação do poder, são ações decorrentes de um “trono/reinado sem rei”.

Cinematograficamente, este filme penetra no espírito do espectador e arrebata-o. Cores fortes, personagens robustas e intensas, (na sua grande maioria homens, em idade adulta) cantos carregados de tradição e simbolismo. Não fosse o povo africano um povo tão melodioso e com uma fonética tão característica. É de caras a característica híbrida que a trama apresenta, o argumento é uma fusão de misticismo com as leis próprias da natureza.

Ao ver o filme, depreende-se que o realizador faz a analogia à alienação social. A sociedade precisa acreditar em alguma coisa, coletivamente, e o contador de histórias é aquele que alimenta o imaginário, é aquele que mantém as pessoas entretidas/entorpecidas (neste caso, com recurso a música, poesia e dança).

No fundo e na sociedade civil, o contador de histórias dá lugar aos governantes, muitos deles déspotas mas eloquentes e persuasivos o suficiente para dominar mentes. Esta é uma realidade a qualquer uma das nossas sociedades no mundo (como, aliás, é feita referência à realidade brasileira ao falarem do filme a “Cidade de Deus”).

Apesar dar restrições inerentes ao contexto pandémico que atravessamos, esta primeira exibição do filme contou com uma sala bem composta. Entre os espectadores, encontrámos o artista Tekillla que se denunciou como um orgulhoso cinéfilo. Tekilla deixou uma impressão muito positiva em relação ao filme que, considerou de contributo fundamental para a mudança dos paradigmas da indústria do cinema. Fica também, uma nota extremamente positiva, ao facto de o filme ter sido gravado na Costa do Marfim, com cenas filmadas, inclusivamente, no próprio estabelecimento prisional MACA.

Em Lisboa, continuarão a ser os cinemas UCI no El Corte Inglês a ter o filme em exibição e no Norte será no Arrábida Shopping, também nas salas dos cinemas UCI.

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Maria Barbosa
Maria Barbosa
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Roberto Moreno
2 meses atrás

“Era uma vez…” e, assim começa um dos melhores filmes, sociocultural e político, já vistos atualmente. A narrativa deste filme presta um tributo ao teatro, ao “cenocoriografar”, (acabei de criar este termo) com mão de obra local, os presos, a história que é contada. A cenografia nos leva a imagens criadas e ficcionadas, para dar suporte ao contador de história, improvisado, que, encima de um pequeno banco de madeira, cria o ambiente onde, os outros, “presos” à solta, coreografam através de movimentos corporais, a história que está a ser narrada, criando uma atmosfera que envolve os espectadores. Este filme também é um incentivo para levar, aos presídios, a 1ª arte – a palavra; a 2ª arte – o verbo (a princípio era o verbo); a 3ª arte – a gravura, o desenho, a pintura, a escultura; a 4ª arte – a coreografia e a cenografia; a 5ª arte – o teatro, a representação; a 6ª arte – a fotografia; e, a 7ª arte – a fotografia animada com som e todas as seis artes anteriores – o cinema. – E, neste âmbito, tendo como referencia o que aqui está descrito, mais o depoimento de Roberto Moreno, em vídeo, à saída da pré-estreia deste filme, maravilhoso, dos excluídos da sociedade – “A Noite dos Reis”, a nossa Fundação Geolíngua, em homenagem à África, berço da civilização, está à procura de atores para dar continuidade a este filme e, criar os alicerces do “Quinto Império”, imaginado por P. António Vieira e Fernando Pessoa, a partir de África, Brasil e Galiza do Norte ao Sul, terminando no Algarve.

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