Catchupa Factory, tempo e espaço criativo no Mindelo para artistas dos PALOP

Imagina estares numa ilha de Cabo Verde, com condições favoráveis para desenvolveres a tua arte, mentoria e curadoria de formadores experientes. É o que acontece no Catchupa Factory (CF), um programa de incentivo à criação artística em formato de residência artística.

Direcionado a fotógrafos e artistas emergentes dos PALOP, o programa fomenta a criação de uma rede de fotógrafos e artistas emergentes; estimula o reconhecimento e a visibilidade internacional do trabalho autoral em fotografia; incentiva a mobilidade de artistas e obras de arte; promove a formação avançada ao nível da concepção, desenvolvimento e edição de um projecto fotográfico; proporciona um espaço dedicado de criação, diálogo e partilha entre fotógrafos e artistas dos PALOP e de África, proporciona o contacto dos participantes com curadores e educadores internacionais de destaque no âmbito da fotografia contemporânea Africana e promove o emprego e a profissionalização do trabalho artístico em fotografia.

A Catchupa Factory tem organização da Associação Olho-de-Gente (AOJE), – membro da organização “Centres of Learning for Photography in Africa” que, desde 2013, dedica-se à promoção da Fotografia em Cabo Verde, contribuindo de forma decisiva na divulgação de autores cabo-verdianos e tendo percurso marcado por diversos workshops, residências, exposições e criação e organização do Festival Internacional de Fotografia de Cabo Verde (FIFCV).

A direção artística é de Diogo Bento, fotógrafo, formador, curador, graduado em Fotografia e Arte Contemporânea e membro fundador da Associação AOJE, que tem o apoio de duas excelentes profissionais, na produção Simone Rodrigues e na direção financeira Nadira Delgado.

A V edição, que decorreu entre o mês de junho e julho, contou com 11 fotógrafos participantes: Hélio Buite (AO), Magno Daniel (AO), Suekí (AO), Cleudir Rocha (CV), Janeth Tavares (CV/PT), Kimberly Dias (CV/NL), Stephanie Silva (CV), Samba Baldé (GW), Filomena Mairosse (MZ), Silasse Salomone (MZ), Tina Kruger (MZ/DE).

O educador principal foi Akinbode Akinbiyi (NG/DE), aclamado fotógrafo de origens nigerianas, nascido em Inglaterra, residente na Alemanha. A sua carreira começou em 1977 e tem o principal foco fotográfico nas megacidades em expansão, em vários países, e vagueia pelo seu tecido urbano e arquitectónico, numa tentativa de compreender e envolver-se profundamente com a metrópole moderna e no significado e subjetividade do quotidiano. Akinbiyi é também curador e formador internacional na Alemanha, Nigéria, Sudão, Suécia, Inglaterra, Estados Unidos, Grécia, entre outros. Expôs ainda os seus trabalhos em conceituadas casas e eventos e em 2019 foi curador convidado da XII edição da Bienal Africana de Fotografia, Bamako.

Eustáquio Neves foi o educador e curador convidado. O artista visual brasileiro destaca-se pelos seus trabalhos multidisciplinares, construídos por processos de experimentação com linguagem fotográfica, e também plástica/pintura, utilizando camadas, sobreposições de imagens e procedimentos químicos. Graduado em química, desde os anos ’90 as suas narrativas discutem a sociedade e o lugar histórico da população negra, abordam temáticas relativas à identidade e à memória da cultura afrodescendente com trabalhos de corte social e crítico. Venceu diversos prémios no Brasil e tem recebido a consagração do público e crítica brasileira.

A residência contou ainda com Alfredo Brant, também do Brasil, como curador convidado. O fotógrafo residente em Portugal, que está a fazer um doutoramento em Estudos de Cultura, na Universidade Católica Portuguesa, decidiu utilizar a residência Catchupa Factory como objeto de estudo e tese. Acompanhou toda a residência, entrevistou os participantes, promoveu uma conversa pública no Centro Cultural do Mindelo, entre os curadores com participação do público, tendo uma enorme relevância na compreensão sobre o trabalho desenvolvido na residência, de fora para dentro.

“A CF é antes de tudo uma iniciativa política. Dá visibilidade à produção fotográfica Africana. Pelas discussões que aconteceram durante a residência percebemos que há um posicionamento muito engajado, não só dos PALOP mas da fotografia Africana num todo. É genuinamente multicultural. Uma particularidade interessante que encontrei na residência é que os participantes utilizaram a fotografia para tratar questões pessoais, que acabaram por ter uma leitura universal do mundo contemporâneo. A escolha dos curadores foi muito coerente com o propósito da residência, não foram só curadores fazendo uma crítica artística, mas também educadores e conselheiros; evidenciaram a discussão sobre como a fotografia pode ser uma resposta para questões sociais em vez da fotografia para retratar algo apenas. Os dois curadores ampliaram o panorama da residência, com o seu largo conhecimento, seja do continenteafricano, ex-colónias portuguesas ou da diáspora e focaram num processo pedagógico relacionado ao país de cada fotógrafo e interligando com a cidade do Mindelo”, afirmou Alfredo Brant.

Na cidade do Mindelo, São Vicente, durante três semanas de trabalho intensivo, os participantes foram orientados na concepção e criação de um projeto fotográfico, sendo privilegiada a construção de uma estrutura narrativa. O trabalho de campo, pesquisa e experimentação foram acompanhados por sessões teóricas em torno de questões críticas relacionadas com a fotografia contemporânea africana, de ordem social, cultural, económica e até espiritual.

Samba Baldé, o primeiro fotógrafo guineense a participar na residência, referiu que “Catchupa Factory é uma iniciativa que deve ser apoiada por organizações culturais de todos os países membros da CPLP, uma vez que o seu campo de atuação é para artistas emergentes desta comunidade. Em relação à residência, todos os momentos, seja sessões em sala ou atividades fora, foram importantes, o meio onde fomos inseridos, as pessoas escolhidas, as discussões e partilhas foi tudo crucial para o meu desenvolvimento e tudo muito bem estruturado pela organização”.

A Catchupa foi guarnecida de atividades outdoor, como uma tour em bicicleta pela cidade, subida ao ponto mais alto da ilha, o Monte Verde, caminhadas na região do Calhau, mergulhos junto ao vulcão extinto, ida à Baía das Gatas e outros convívios em grupo, que proporcionaram melhor interacção e elos de amizade. “A Catchupa foi um espaço para poder voar, ter tempo de criar, escutar, desacelerar, de experimentar novas formas e novos processos. Os longos debates sobre a fotografia, e o nosso convívio entre risadas e praias, foi o que deixou esta residência mais doce ainda. Uma verdadeira Catchupada de tudo que é bom”, comentou a artista multidisciplinar Tina Kruger.

Os diferentes backgrounds de cada participante e mentores/curadores tornaram uma residência rica em ideias, partilhas, conhecimentos e visão sobre o contexto africano em que estão inseridos.
 Suekí, também artista multidisciplinar, angolano residente em itália, partilhou: “Esta foi realmente uma Catchupa com nutrientes para o corpo, mente e alma. A interação e partilha de visões com dois grandes protagonistas da fotografia contemporânea foi simplesmente uma experiência de valor inestimável. Todo o conhecimento adquirido foi complementado por uma forte conexão ao Mindelo e reforçado pela cumplicidade e elos emocionais que se criaram entre os participantes/ formadores/ organização”

A residência culminou numa sessão pública de apresentação e mostra dos projetos resultantes. E os mesmos estão expostos no Centro Cultural do Mindelo, onde permanecerão durante o mês de agosto, num manifesto na rua, nas janelas do Centro Cultural, de forma a proporcionar um contacto directo entre a arte e o público que comumente não iria ao Centro Cultural. Incitando assim a uma paragem reflexiva a quem por ali passar, sobre os temas abordados pelos fotógrafos.

Outro ponto bastante interessante da Catchupa Factory é que o acompanhamento dado aos fotógrafos participantes não termina no fim da residência, há continuidade, sendo que os mesmos serão apoiados para a continuação ou exposição dos seus trabalhos e continuarão a ser partilhadas oportunidades para os artistas desenvolverem. Como disse orgulhosamente Diogo Bento, director artístico: “já somos uma família, a Catchupa Family.

Toda a iniciativa também foi possível devido à principal entidade financiadora, a Fundação Calouste Gulbenkian (PT); este ano com o adicional apoio do programa DIVERSIDADE – Instrumento de financiamento para a diversidade cultural, identidade e cidadania – lançado pela União Europeia gerido pelo Camões, Centro Cultural Português no Mindelo, e ainda o GOETHE – institut Angola (DE/AO). Além dos parceiros locais: Universidade M_EIA, Centro Cultural do Mindelo, Centro Nacional de Artesanato e Design, Universidade de Cabo Verde, Hotel Terra Lodge, Guesthouse Soncent, Ímpar Seguros, Djambai Tours. E os parceiros institucionais, o colectivo cultural e filantrópico PÉS DESCALÇOS (AO) e CI.CLO plataforma de fotografia (PT).

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Janeth Tavares
Janeth Tavares
Noiva da Palavra. Sou da moda antiga, escrevo-lhe cartas de amor com a luz: fotografo; para dar valor e fazer valer cada frame da minha vida. Da Medicina Chinesa fui para Jornalismo, tudo a ver. A ver com a mescla que me assiste ou não fosse eu uma criola. Faço muitas coisas, que extrapolam este limite de palavras, mas isso pouco interessa, se não para me indagar no meu propósito. Acredito que valemos mais pelo que somos do que pelo que fazemos. E sim, falo de nós. Amo nós de nós. E falando de nós, falo de mim.

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