Bob Da Rage Sense falou-nos sobre o novo álbum e fez uma análise pungente sobre a indústria musical portuguesa

Em 2015, vimos nascer Robbie Wan Kenobie para dar lugar a um Bob Da Rage Sense cansado da mesmice e que precisava oxigenar a sua arte. Agora, depois de Star WarsAs Aventuras de Robbie Wan Kenobie, Bob vai voltar a lançar novo álbum, que é um reencontro com “os seus” e uma exploração de novas sonoridades, incluindo o trap.

Divina Tragédia é uma obra de arte, cujo título é inspirado no famoso poema longo épico e teológico da literatura italiana, a Divina Comédia, de Dante, e que tem na sua génese sonora as mãos mágicas de mega produtores angolanos e portugueses: Mad Superstar, Madkutz, Syn e DH.

Apesar de conhecer todos estes produtores, só agora surgiu a oportunidade de colaborar com alguns, como Madkutz, Syn.

“O MadKutz, por exemplo, já o conheço há muito tempo e só há algum tempo é que ele tem estado a mandar-me beats e finalmente vamos fazer um trabalho juntos. É um produtor que admiro muito e finalmente vamos lançar algo juntos”, disse-nos, acrescentado que também conhece Syn há bastante tempo e que sempre gostou do seu trabalho. Sobre Mad Superstar, “reactivei o contacto, falei com ele, e ele disse que também sempre quis produzir para mim e curto bué da cena dele”.

“Não sou revu, sou artista”

Quanto a Mad Superstar, é um amigo de infância – dos tempos em que vivia em Luanda – com quem chegou a trabalhar em 2009. “Sempre quis trabalhar com o Mad. Quando nos reencontrámos foi uma cena incrível. Ele conhece muito bem os meus trabalhos, sabe do que sou capaz e sabe até onde sou capaz de chegar. Queria trabalhar com um produtor que soubesse reconhecer esse risco. Queria trabalhar com alguém que me puxasse, que me dissesse ‘bora fazer um trap’. Queria alguém que fosse capaz de fazer isso. Temos uma sintonia incrível”, explicou.

Este Divina Tragédia é o álbum onde Bob reinventa-se, sai do boom bap e deixa-se levar por novas sonoridades do rap, ao estilo de J. Cole, Kendrick Lamar e Joyner Lucas. E não foi apenas a melodia que evoluiu. “Depois de Ordem Depois do Caos, numa altura em que a minha mensagem sempre esteve direcionada para Angola, os meus conteúdos sempre estiveram num nível sócio-político e onde sempre marquei uma posição. Importo-me com questões políticas, revolucionárias e sociais e os seres humanos são seres evolutivos. A ideia que eu tinha há dez anos sobre um assunto não é a ideia que tenho hoje sobre o mesmo assunto. isso só mostra que somos seres constantemente a evoluir. Como criativo, continuo a preocupar-me com a sociedade, mas não quero prender-me a isso”, disse.

“Este novo álbum é um álbum lírico, com canções mais líricas, a tocar noutros temas. Não quero viver esteriotipado. Não sou revu, sou artista”, salienta.

Assim, vamos poder ouvir Bob falar sobre depressão, relações, interpessoais, relações amorosas e não só. “O álbum tem um fio condutor e o título está em sintonia perfeita com esse fio condutor. São outras coisas com que as pessoas vão identificar-se”.

Além das participações nas produções, em estúdio, Bob partilhou o mike com Phedilson, dos Ascensão, e num registo diferente daquilo a que o rapper angolano nos tem habituado. “Disse-lhe ‘não quero rimar contigo num registo que já estamos habituados a ouvir’. Quero fazer um clássico. Ele curtiu, o Mad [Superstar] também e desenvolvemos a cena”.

Na lista dos feats há ainda D3gv$, da B.Unik, que o artista conhece também de há vários anos. “Fui uma das primeiras pessoas que o ensinou a rimar. O Marcus Vitor, pai dele, é um dos meus melhores amigos. Em 2009, ele fez a tour do Diários de Marcos Robert, em 2009, ele era miúdo. Quando fiz o meu concerto em Luanda, 2011, chamei-o para o palco, ele é que fez os meus backs. Ele evoluiu bué e faço questão de o ter no palco. A cena que eu quero também fazer é elevar os meus”, explica.

Bob já trabalhou com nomes distintos da música PALOP e portuguesa, como Dino d’Santiago, New Max, Virgul, entre outros. “Todos nomes grandes da música moderna portuguesa e podia ir buscar uma pessoa grande [para fazer este projeto], mas quero fazer um bom álbum dando espaço aos meus. Quero que o Mad Superstar seja visto não só na comunidade angolana. Quero que digam que ‘esse gajo é mau’. Quero abrir um espaço para ele cá no mercado tuga. Quero ir buscar os meus e não os que já estão por todo o lado”. Até porque o importante nunca foi a sua própria fama.

“Ninguém fala do Marvin Gaye que teve depressão e escreveu ‘What’s Going On’”

Bob Da Rage Sense é um nome amplamente conhecido entre a comunidade hip hop, e fora dela, mas a vida de celebridade parece nunca o ter iludido. “A minha música bateu por consequência natural. Nunca fiz muita promoção das cenas. Já há muito tempo afastei-me do hip hop tuga. Mantenho muito bons amigos mas afastei-me desde que mudei-me para Londres. Continuei a ser convidado todos os anos para participar num festival ou outro, portanto, o reconhecimento está lá e o meu nome e a cena que cimentei no hip hop tuga ninguém vai apagar isso. Não quero saber do mediatismo. Nos meus trabalhos faço questão de me dissociar de algumas pessoas. São pessoas com quem já não quero trabalhar. Eu não sou uma pessoa iludida. Já estive no topo e quando lá estive fui a mesma pessoa, não tive amigos novos. Hoje em dia, toda a gente é famosa e andam ali entre eles e eu não quero estar ali naquele meio. Okay, são famosos, têm bué de views, mas conversamos daqui a 20, 30 anos. Vamos ver quem é que vai ter clássicos e quem não vai ter. O “Conheço-te de Algum Lado” até hoje passa na rádio. Essas músicas dos famosos imediatistas passam na rádio cinco, 10, 15 anos depois? O meu objetivo é esse. Fazer músicas para ficarem. Apesar da fama, aliás eu não sou famoso, sou conhecido, nunca fiz esforço, foi uma consequência da minha música”.

A depressão é um dos temas base deste novo projeto e que, embora cada vez mais falado, continua a ser tabu no seio da comunidade negra. Sem papas na língua – não seria Bob se assim não fosse – o rapper explicou a necessidade e urgência de se relevar o assunto na esfera mediática.

Depois de passar um mês em casa de uns amigos que viviam em frente à ala psiquiátrica de um hospital, Bob deu de caras com uma evidência que devia ser óbvia: a saúde mental é um problema de todos. “Havia toda a gente ali. Pretos, brancos, indianos, árabes. No entanto, quando pensas em depressão, só pensas em Robin Williams, Kurt Cobain… ninguém fala de Donny Hathaway [nome de um artista negro que suicidou-se em 1979 e que dá nome a uma das músicas de Bob] ou Marvin Gaye. Ninguém fala das comunidades negras. Ninguém fala do Marvin Gaye que teve depressão e escreveu ‘What’s Going On’, em 1971. Então estamos aqui para fazer um wake up call.”

“A indústria musical portuguesa vive da música negra”

E falando em alertas, pedimos a Bob para fazer uma rápida análise do mercado da música urbana portuguesa nos últimos anos. O balanço é dado em duas palavras: apropriação cultural. O próprio explica:

“A indústria musical portuguesa vive da música negra. É tudo black music. Em mercados gigantes, em que os negros têm poder, a informação é passada dessa forma: é black music. Em Portugal os negros não têm poder. O Dino pode ganhar os prémios que ele quiser ganhar, mas o gajo que está lá em cima é que vai ditar se ele deve ganhar ou não. O aval final ainda não sai da boca de um black. Tirando o Vira [estilo musical português], o resto não é música portuguesa. Até o fado não é música portuguesa. Há muitas questões em volta do Fado que os historiadores nunca quiseram revelar. O Fado vem das cortes do Brasil. Eles estão a viver da música negra e estão a viver mais que os negros, porque os negros não têm poder. Há anos que no hip hop tug tenho vindo a falar sobre isso. Já tive artistas a virem pedir-me desculpas por não terem tido noção disso há muitos anos e pediram-me desculpas por eu ter estado sozinho a falar sobre isso. Os blacks não têm poder e quando têm ficam com medo de falar sobre esses assuntos, então, vão passar 15, 20 anos, um século, e vamos continuar sempre no mesmo sítio.”

Para reforçar a sua linha de pensamento, Bob fala ainda da importância de plataformas que tratem da informação “de dentro para fora”. “É por isso que digo, a cena que a BANTUMEN está a fazer é uma cena bué fixe, porque não existia uma plataforma como a vossa. Os meus álbuns esgotavam, estavam nos tops e nunca me puseram na [revista] Blitz até eu abordar o diretor. Nós mandavamos press releases e nunca me tinham divulgado. Eram sempre os mesmos. Tive que bater o pé. Não tenho poder mas tenho balls. Sou capaz de ir a um [Manuel Luís] Goucha e dizer: isto é apropriação sócio-cultural. O kuduro bateu por apropriação cultural, a kizomba bateu por apropriação cultural. Porque vocês criam “música portuguesa”, mas aquilo é música que os negros que vocês excluíram nos bairros trouxeram para cá e fizeram. Hoje em dia, sempre que passo por um carro, aldeia ou cidade, é só kizomba e hip hop e ninguém fala nisso. Não foram os brancos que pegaram na kizomba ou no kururo e fizeram. Foram os negros. O tuga é o chico esperto que quer ficar com tudo. Substitui e diz que é dele.”

Apesar de Divina Tragédia não ser um álbum revu, vai também tocar neste tema da apropriação, porque, tal como diz Bob, “tudo o que se faz hoje em dia é música dos blacks. Antes era discriminado porque era música dos blacks, hoje os brancos já gostam e já é música de todos. Não, não é música de todos.”

E o artista lwvanta o véu sobre onde começa o problema: “Aqui em Portugal, conheço putos brancos que terminaram o conservatório e dizem que o jazz não é só negro, que é branco também. Os percursores do jazz eram o quê? É o que os professores lhes ensinam nos conservatórios para saírem de lá com esse mindset. É assustador. É uma cena sistémica. Eles nunca vão por os pontos nos is porque estão a comer e a viver à grande à conta disso. Porque, se eu tiver um negro na SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], obviamente que vai dar mais prioridade a um Julinho KSD ou a um Vado Más Ki Às porque conhece o struggle daquele gajo. Aquele que cresceu ali na Parede ou em Oeiras não percebe isso e acha que é tudo mania da perseguição. Não, não é, tu não cresceste no bairro 6 de maio. Tu não conheces a luta. Olha o que o Jay Z fez, ficou milionário começou e a monopolizar as cenas. O Kanye West a mesma coisa e começaram a chamá-lo de maluco. Mas o que é verdade é que ninguém chama o Elon Musk de maluco, é um génio. Ele diz todas as barbaridades, o Kanye diz uma barbaridade, que nem é uma barbaridade as pessoas é que não percebem, e é o que é. Um maluco chega a bilionário? Mais rico que o Michael Jordan, que o Jay Z? Isso é conversa de quem não quer ouvir a abordagem do Kanye West.”

Nestes rasgos de realidade submersa na impavidez branca e na [cada vez menor] passividade negra, Bob sublinha que estamos num ponto de viragem. “Se eu tiver esta abordagem no Goucha, vão dizer esse gajo é maluco. É medo do takeover, mas o takeover está a ser natural. O Dino está a fazer música a sério, a Nenny tem skills, Gson rima bué, Slow J tem um talento do caraças, Plutónio rima bué… Há muitas coisas que ainda estão muito enraizadas na sociedade portuguesa. Não querem mudar. Uma sociedade em que tens um gay a dar tempo de antena a um neonazi e homofóbico? Presidente da comissão de honra da campanha de uma pessoa racista? Está tão enraizado que as pessoas nem sequer se dão conta”, enfatizou.

Sobre a data de saída de Divina Tragédia, o artista prefere não adiantar ainda uma data, mas avança que será este ano e, para já, não tem uma label associada ao projeto.

“Quero ter o álbum, ter o material todo. Até porque as músicas ainda não estão feitas. Tenho tudo estruturado e agora é só chegar ao estúdio e gravar. Quero ter todo o material e só depois, quem sabe, se calhar, sento-me com uma label ou outra, mas estou muito confortável com a minha independência”, afiança.

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Eddie Pipocas
Eddie Pipocas
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