Cabo-verdianos entregam petição para remover estátuas de exploradores esclavagistas

Gilson Varela é o promotor da petição “Remoção de monumentos pró-esclavagistas e coloniais em Cabo Verde”, entregue à Assembleia Nacional cabo-verdiana, e que já conta com mais de 1.900 assinaturas. O documento faz sobretudo referência à estátua de Diogo Gomes, estabelecida na praça do Plateau, na cidade da Praia, desde 1954.

“O encontro foi no sentido de entregar a petição a que dei entrada no ano passado, tendo em vista a remoção de estátuas de entidades esclavagistas ou que promoveram a escravatura, neste caso Diogo Gomes, que tem uma estátua do Plateau”, avançou Gilson Varela que falava à imprensa à saída da audiência, citado pela Inforpress.

De acordo com Gilson Varela, o objetivo desta petição não é apagar a história mas aprofundar, averiguar os fatos e fazer uma análise sobre os exploradores traficantes de escravos, cujos feitos são propagados como heróicos.

No documento podemos ler: “O monumento em ferro fundido do navegador português Diogo Gomes (1420-1500), obra do escultor português Joaquim Correia, erguido em 1956 – durante a ocupação colonial – está localizado no bonito e romântico miradouro, no planalto da capital do País. A maioria dos cabo-verdianos conhece e aprecia a obra, mas desconhece alguns dados históricos e feitos do homenageado. Enviado pelo Infante Dom Henrique,Diogo Gomes participou da invasão de 1445, liderada pelo comerciante de escravos Lançarote de Freitas, na ilha de Arguin, na costa da Mauritânia.Esta ilha era uma feitoria Portuguesa.Uma fortaleza de comércio e “exportação” de escravos, a partir de onde eram enviados cerca de 800 escravos por ano para Portugal (Lagos).”

O promotor da iniciativa cita ainda algumas frases de Diogo Gomes, que fez questão deixar para a posteridade escritos sobre as suas aventuras. “Apanhei vinte e duas pessoas que dormiam, conduzi-as como se fossem gado em direção aos barcos. E todos fizemos o mesmo, capturámos naquele dia quase seiscentas e cinquenta pessoas e voltámos para Portugal, para Lagos, no Algarve , onde estava o Infante D. Henrique que se alegrou connosco.” O trecho é de The Slave Trade: The Story of the Atlantic Slave Trade: 1440-1870, de Hugh Thomas. 

“Neste momento estamos na fase de contestação racial e de reclamação por justiça, porque a escravatura não fez só mal na altura, ceifou a vida de cerca de 8 milhões de pessoas e ainda hoje todos nós africanos sofremos com algum estigma e penso que faz todo sentido, pelo menos lançar o debate sobre descobridores que foram também esclavagistas”, explicou ainda Varela.

Para o promotor, é necessário separar as entidades, neste caso, Diogo Gomes, dos monumentos, e compara os símbolos referentes a Salazar, Franco ou Hitler, em Portugal, Espanha e Alemanha, respetivamente.

Para subscrever a petição basta aceder a este link: https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT100526

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