Joãozinho da Costa e o trabalho coletivo na ascensão de novas narrativas no teatro

Ator, autor e encenador, Joãozinho da Costa faz parte de uma nova camada de artistas portugueses que utiliza a arte como veículo propulsor das suas próprias narrativas, origens e experiências pessoais, permitindo ao setor refletir a multiplicidade de identidades que constituem o corpo social nacional.

Aos 11 anos, de partida para Portugal, na Guiné-Bissau Joãozinho deixou a mãe e um país acabado de sair de uma guerra civil. Entretanto, em Portugal, o artista – que até há pouco tempo não se via como tal – ingressou num curso de Arquitetura, que teve de abandonar por dificuldades financeiras. Contudo, afiança que as duas vertentes artísticas são semelhantes: “Precisas ter uma noção de perspetiva da realidade que te rodeia em ambas as artes antes de pôr em prática qualquer tipo de ação que tenhas concebido previamente.”

Em E Agora Nós, de Rui Catalão – com quem tem trabalhado na produção de várias peças, desde 2016 -, viu o seu talento ser apreciado pelo público – mesmo não tendo uma formação em teatro ou dança – e foi provavelmente esse reconhecimento que o fez querer dedicar-se à encenação e representação.

Por norma, a arte serve como forma de expressão de realidades e experiências pessoais mas, até há algum tempo, Joãozinho nunca sentiu essa necessidade de transpor para o seu trabalho os sentimentos e questinamentos mais profundos. Até que um acontecimento em específico mudou essa certeza.

As experiências pessoais não estavam no centro seu trabalho artístico, em Duas Peças de Xadrez, esse parâmetro mudou. “Nunca senti necessidade de escrever as minhas próprias histórias. No entanto, Duas Peças de Xadrez começa a ganhar vida quando vejo um familiar completamente transformado fisica e mentalmente”, explica-nos.

A essa mudança, Joãozinho refere-se a um período pré e pós encarceramento no sistema judicial. “Essa imagem dele a mancar pelas ruas e a babar enquanto falava marcou-me durante algum tempo, aliás, até hoje. Lembro-me de [antes] estarmos a correr na rua, atrás de uma bola. Ele não tinha aquele aspecto físico e isso fez com que quisesse saber o que originou aquela transformação. Comecei a fazer entrevistas a ele, às pessoas que lhe eram próximas e no desenrolar desse processo descobri que durante o tempo em que ele esteve preso foi-lhe dada uma dose excessiva de Largactil [fármaco antipsicótico utilizado no tratamento de pacientes esquizofrénicos]. Até então não tinha nenhuma intenção de fazer alguma coisa com o material. Só após apresentação da performance Não, Somos Daqui, de Welket Bungué, fui desafiado pelo Pedro Barreiros para desenvolver um projeto em que a autoria fosse minha. Ele foi generoso comigo, deixou o tema em aberto e o estilo, podia ser uma peça de dança ou teatro, mas a estreia tinha que ser na Rua das Gaivotas. Acabei por aceitar e foi assim que comecei a contar as histórias da realidade ao meu redor e penso que a de muitos também.”

Além de Duas Peças de Xadrez, no currículo, Joãozinho tem inscrita a peça A Rapariga Mandjako, co-criada com Rui Catalão, que “relata o despertar de Joãozinho para a consciência de si mesmo e das suas acções, a partir do momento em que o pai faz-lhe uma proposta de noivado com uma rapariga da sua etnia. A sua recusa leva-o a aproximar-se de outra rapariga que conhece no Vale da Amoreira, e que lhe é apresentada como “Jennifer Lopez”.
Essa rapariga vai encaminhá-lo por um labirinto de identidades e estados emocionais, em que ele se esquiva das tradições e superstições da cultura mandjako e procura integrar-se nos padrões de comportamento da vida moderna”, lemos na sinopse.

Entretanto, está também envolvido na Polón Arte, uma associação que tem como propósito criar novos projetos e que abrange quase todos os ramos artísticos, desde o teatro à fotografia. A principal função da associação é dar visibilidade aos novos talentos dentro do bairro e arredores. Esse trabalho leva a certeza de que o crescimento tem de ser coletivo, “porque sou uma pessoa que dá muita ênfase ao trabalho coletivo, em quase tudo que faço”.

Na calha, está a a preparação de uma apresentação: Fidjo di Tchon (filho do chão, traduzido do crioulo), da qual esperamos mais detalhes para breve.

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Vanessa Sanches
Vanessa Sanches
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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