“Não temos que ficar a lamentar e a pedir, vamos organizar e fazer”, Ruben Sanches

Quando saímos da bolha em que vivemos, o mundo ao qual estávamos habituados abre-se a novas possibilidades, a novas realidades e, sobretudo, a novas oportunidades. É de certa forma o que aconteceu a Ruben Sanches.

No caminho diário entre o Bairro do Casal da Boba, onde vive, e a faculdade, em Lisboa, o jovem de 24 anos apercebeu-se das diferenças da atuação do poder local nas duas zonas distintas.

Essa confrontação fê-lo perceber que o desenvolvimento social, cultural e até a requalificação do empreendimento social do seu bairro teria de ser impulsionada pelos próprios moradores, devido à falta de interesse político e às diretivas segregacionistas que comandam a essência destas zonas ditas “sensíveis” e problemáticas pela comunicação mainstream.

O Casal da Boba é um empreendimento construído no início dos anos 2000, com 700 fogos, dos quais 502 acolheram famílias ciganas e de imigrantes africanos – sobretudo cabo-verdianos – e seus descendentes, num programa de realojamento de vários bairros de lata da periferia lisboeta. O conjunto arquitetónico constituído por edifícios multifamiliares em banda de cinco e seis pisos, formando quarteirões abertos, é uma construção económica – portanto de baixo custo – e de promoção estatal.

Além de viverem na segregação completa, a população que ali vive acaba por ficar esquecida nas listas de prioridades da autarquia. A consequência é óbvia: exclusão, discriminação, reprodução de pobreza intergeracional, degradação da infraestrutura habitacional, entre outros problemas sociais. É exatamente esse paradigma que Ruben Sanches quer ajudar a mudar, porque “não temos que ficar a lamentar e a pedir, vamos organizar e fazer”.

Juntamente com amigos e colegas da faculdade, o licenciado em Ciência Política fundou a associação Efeito Dominó, que pretende servir de apoio para a comunidade de moradores da Boba, instigando também a sua participação ativa na vida social e política que os rodeia, não esquecendo as atividades culturais e educativas, para elucidar crianças, jovens e mais velhos sobre a história africana e os seus líderes.

Sinalização de famílias carenciadas – que muitas vezes por vergonha não contactam as entidades sociais -; requalificação de zonas degradadas, distribuição de bens alimentares e recolha e separação de lixo, são apenas algumas das atividades que a Associação Efeito Dominó tem desenvolvido. A mais recente, e urgente, é a recolha de material escolar, para oferecer às famílias que não conseguem suportar a despesa do regresso dos filhos à escola neste novo ano letivo a começar em setembro. Para saber como contribuir, basta clicar aqui.

Esta mudança social que Ruben quer estimular passa também por uma eventual candidatura à autarquia da Amadora, que tem sido capitaneada pela “falta de vontade” e de “aproveitamentos políticos”, numa referência à polémica candidatura do Partido Social Democrata às eleições de 26 de setembro.

Para conhecer melhor a organização sem fins lucrativos que Ruben ajudou a fundar e que tem feito um trabalho essencial junto da comunidade do Bairro do Casal da Boba, basta fazer play na entrevista vídeo abaixo, concedida via Zoom.

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Vanessa Sanches
Vanessa Sanches
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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