Artistas negros

Artistas negros portugueses são os mais ouvidos no Spotify em… Portugal

Há alguns dias que, em Portugal, têm circulado declarações de profissionais com algum relevo na música nacional sobre a alegada falta de mérito e pobreza sonora do Hip Hop, um dos géneros musicais de maior popularidade e rentabilidade a nível mundial. Ora que, para esse nicho de profissionais contrariados, as notícias não são as melhores. Em Portugal, o hip hop é o estilo que domina as audições do Spotify – a maior plataforma mundial de streaming de música -, acaba de anunciar a própria plataforma.

Se só para alguns a notícia é novidade, para muitos o espanto deverá ser, provavelmente, maior quando evidencia-se que os artistas que encabeçam o ranking são quase todos negros. A julgar pela massa artística que, por norma, dá a cara ao popular estilo nos meios de comunicação mainstream portugueses, a estranheza não é mais do que natural.

Julinho KSD, Gson, Plutónio, Nenny, Slow J, Ivandro e Wet Bed Gang são os artistas e grupo que, desde o início do ano, recebem maior destaque nos diferentes tops de audições da plataforma, por terras lusas e não só. “O Rap Tuga também atravessa fronteiras, sendo que o Spotify concluiu que o género, fora de Portugal, é mais ouvido em países como França, Suíça, Reino Unido, Brasil e Luxemburgo. Nesses países, alguns dos artistas do género mais ouvidos são os Wet Bed Gang, Julinho Ksd ou a Nenny”, podemos ler no comunicado do Spotify enviado à BANTUMEN.

De janeiro a agosto de 2021, a plataforma detetou um aumento de 150% no interesse pelo hip hop, dados comparados com o período homólogo anterior. Dos dez estilos de música mais ouvidos no país, cinco são rap ou subgénero/fusão de rap. Nesse crescimento, tendo em conta o mesmo período, destacam-se “Julinho Ksd, que tem tido um crescimento impressionante com um enorme número de streams no Spotify, o grupo Wet Bed Gang, cujo projeto, “Ngana Zambi”, quebrou o recorde de álbum português mais ouvido no Spotify período de uma semana, ou a Nenny, que foi eleita a artista do mês de maio pelo programa EQUAL do Spotify.

Os dados revelados apuram ainda que as músicas maior número de plays são “Perseus”, dos Wet Bed Gang, “Lisabona”, de Plutónio, “3,14”, de Gson, Sam the Kid, Slow J, “Stunka”, de Julinho KSD, “Imagina”, de FRANKIEONTHEGUITAR, Ivandro, Slow J, e “Tequila”, da Nenny.

É importante referir que o Rap Tuga não é apenas um estilo que delimita-se com uma fronteira linguística ou geográfica. É necessário considerar a mixórdia de origens dos diferentes artistas, portugueses – com ou sem Cartão de Cidadão – e não portugueses; as diferentes expressões linguísticas que imprimem nas suas obras, seja em crioulo, inglês ou qualquer outro idioma, e, ainda, considerar todos os portugueses, e não portugueses que passaram por Portugal, adoptaram o estilo e que para ele continuam a contribuir a partir do estrangeiro.

E se, apesar do óbvio, for necessário fundamentar essa permeabilidade cultural, tal como o próprio Spotify escreveu: “O Rap Tuga sempre se baseou fortemente no conceito de exaltar as raízes de cada um, de forma abrangente e considerando toda a diversidade que é inerente à essência de um português. O próprio nome “Tuga” remete a uma gíria que – se anteriormente chegou a ter uma conotação principalmente pejorativa para com os portugueses – mais recentemente foi reapropriada e transformada em algo que inspira orgulho. E há muito a dizer sobre esta coletividade e heterogeneidade que constitui a raiz nacional, e que quando traduzida para a musicalidade, cria um resultado que engloba os mais diversos elementos e sub-géneros.”

Relembramos-te que a BANTUMEN disponibiliza todo o tipo de conteúdos multimédia, através de várias plataformas online. Podes ouvir os nossos podcasts através do Soundcloud, Itunes ou Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis através do nosso canal de YouTube.

Podes sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN através do email redacao@bantumen.com.

Vanessa Sanches
Vanessa Sanches
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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