Budah, como uma voz autêntica conquistou a cena rap e R&B no Brasil

27 de Fevereiro de 2025
Budah rap Brasil

Partilhar

A relação de Brenda Rangel, nome verdadeiro de Budah, com a música começou antes mesmo do seu nascimento. Filha de um sambista e neta de um apaixonado por canções, cresceu entre melodias e vozes que ecoavam nas festas de família, muitas vezes acompanhadas de karaoke. Foi nesse ambiente que descobriu a sua voz e desenvolveu uma ligação intrínseca à expressão musical.


O rap surgiu mais tarde, na adolescência. O fenómeno da Cone Crew dominava as ruas e, em casa, o pai ouvia Racionais MC’s. Esse contacto levou-a a mergulhar na cultura hip-hop, envolvendo-se no graffiti e na cena underground do Espírito Santo, onde nasceu. As batalhas de rap tornaram-se um ponto de encontro e o primeiro palco da sua expressão artística. Foi nesse contexto que adotou o nome Budah.


A cena musical do Espírito Santo sempre foi periférica em relação a grandes polos como São Paulo e Rio de Janeiro. A falta de oportunidades fez com que Budah tivesse de se destacar de forma independente, aproveitando as batalhas de rima e os pequenos eventos para construir o seu nome. “Ninguém sabia que existia uma cena hip-hop no Espírito Santo, mas nós fazíamos acontecer”, recorda.


https://www.instagram.com/p/DGO2h6VvASb/?hl=fr&img_index=1


“Um dia disse ao pessoal que sabia cantar e pediram-me para mostrar”, recorda. O momento decisivo veio com um vídeo caseiro em que interpretava "Billionaire", de Travie McCoy e Bruno Mars. Publicado no Facebook, o impacto foi imediato, com milhares de partilhas e interações que a fizeram perceber que a música poderia ser mais do que um passatempo. Essa resposta do público impulsionou a sua confiança e motivou-a a explorar as suas capacidades vocais e criativas de forma mais séria.


A partir desse momento, começou a compor. A sua primeira canção, "Neguin", era uma dedicação a um amor da época, marcada por letras íntimas e influências do R&B, refletindo uma identidade musical assente em emoções e questões sociais. A autenticidade da sua abordagem conquistou audiências e chamou a atenção de outros artistas da cena hip-hop.


Depois de sete anos de carreira, Budah lançou, em outubro do ano passado, o seu álbum de estreia, Púrpura. O projeto levou-a até ao Mainstreet Festival Portugal, a extensão europeia do maior evento de hip-hop do Rio de Janeiro, realizado a 1 de fevereiro no MEO Arena, onde atuou ao lado de nomes como Orochi, Poze do Rodo, Borges, Oruam, Cabelinho e Soraia Ramos.


Por incompatibilidade de agendas, esta nossa entrevista aconteceu algumas semanas depois do festival. Entre reflexões sobre o seu percurso, Budah revelou como a música sempre fez parte da sua vida e como encontrou no rap a sua verdadeira expressão.


https://www.instagram.com/p/DGBv5NmPDTx/?hl=fr&img_index=1


"Nunca tive pressa com a minha carreira. Durante muito tempo fui artista independente e, quando entrei numa gravadora, percebi que tinha os recursos para lançar um álbum da melhor forma possível. A Universal ajudou-me a estruturar esse projeto e a potenciá-lo", explicou.


O seu som transita entre R&B, rap e elementos da música brasileira, construindo um repertório versátil que reflete as suas influências. Para Budah, Púrpura é um disco sobre amor em diferentes formas: amor próprio, paixão, traição e relações interpessoais. As suas composições abordam tanto as vivências individuais como questões universais, permitindo que um público alargado se identifique com as suas músicas.


A receção de Púrpura demonstrou o crescimento do R&B no Brasil, um género que, apesar de amplamente ouvido, ainda não tem o reconhecimento comercial do funk ou do sertanejo. Budah acredita que a evolução do mercado musical tem permitido mais espaço para artistas com sonoridades alternativas. “Vejo que cada vez mais gente se identifica com essa estética. O público está a ficar cansado de músicas descartáveis e busca algo mais profundo”, comenta.


"Nunca imaginei pisar em Las Vegas e ser a única mulher brasileira nomeada"


A artista destaca a crescente presença feminina no rap brasileiro, sublinhando a importância da música como ferramenta de empoderamento. "Hoje vemos cada vez mais mulheres a conquistar espaço, a trabalhar bem e a estabelecer-se na cena", afirma. Esta mudança gradual tem permitido a muitas artistas expandirem as suas carreiras e serem reconhecidas pelo seu talento, algo que nem sempre foi comum no panorama do rap brasileiro.


A sua ascensão levou-a até aos BET Hip Hop Awards, onde foi nomeada na categoria "Best International Flow". "Era uma premiação que assistia quando era pequena. Nunca imaginei pisar em Las Vegas e ser a única mulher brasileira nomeada", reflete. Este reconhecimento abriu novas portas e reforçou a sua posição no mercado internacional. Outra conquista significativa foi a sua atuação no Colors, plataforma digital que destaca talentos globais. "Quando fui para o Colors, percebi que já tinha vencido. Sempre acompanhei os artistas que passaram por lá, e estar naquele palco foi surreal", partilhou.


Budah também reconhece o impacto internacional do seu trabalho e a receptividade da sua música em Portugal. "Grande parte do público português conheceu-me através do Poesia Acústica. A conexão que senti no Mainstreet Festival foi incrível", diz. Com colaborações de peso no Brasil, como Djonga, MC Luana, Delacruz e Duda Beat, Budah está a preparar novos lançamentos. Um dos mais aguardados é o seu primeiro feat internacional, com Bispo. "Foi uma conexão incrível no estúdio. Nunca imaginei fazer parcerias fora do Brasil, e agora está a acontecer", revela.


Sobre o futuro, deixa apenas um aviso: "Projetos grandes estão a caminho, mas antes quero encerrar o ciclo de Púrpura com algo especial. Cheguei até aqui sendo autêntica, e é assim que quero continuar". A artista destaca ainda a importância de manter a sua identidade e explorar novas sonoridades sem comprometer a sua essência.


Olhando para o futuro do rap e do R&B no Brasil, Budah vê um crescimento contínuo, com mais artistas a trazerem novas sonoridades e a consolidarem espaços no mercado. “Se olharmos para trás, há dez anos seria impensável um rapper cobrar um cachê alto. Hoje, os números estão a mudar, e o respeito pelo género também”, conclui.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile