Entre perdas e rimas, Anomalia Vol.2 traça o caminho de DBriga

2 de Abril de 2025

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Na Linha de Sintra, entre ruas que carregam histórias de migração, resistência e sobrevivência, há um nome que ganha forma no rap underground português: Dbriga. Filho de Angola e de raízes são-tomenses, Igor Vera Cruz encontrou na música uma forma de catarse, reconstrução e, sobretudo, afirmação de identidade.


"Nasci em Angola, Ingombotas, a 2 de março de 1988. Vim para Portugal com 5 anos", conta-nos Dbriga. A sua infância foi moldada por deslocações e rupturas: primeiro com a esperança de viver com o pai, depois com a realidade crua da Quinta Grande, um bairro já demolido, e mais tarde, com o refúgio encontrado no Cacém, na Linha de Sintra, onde foi criado pela mãe. "Foi um misto de várias situações, aprendizagens, momentos bons e maus... Cresci revoltado, falava pouco", confia-nos durante a entrevista.


O nome artístico Dbriga revela, sem rodeios, a sua natureza combativa e a prontidão para enfrentar qualquer batalha. "Comecei a praticar jiu-jitsu e diziam que eu era muito bruto, com muita força. Chamavam-me de cão, depois virou cão de briga, e mais tarde abreviou-se para Dbriga. Acabei por gostar." Hoje, a sua narrativa vai muito além de uma visão simplista dos factos. É uma construção densa e intencional, que revela uma reflexão profunda sobre a forma como devemos posicionar-nos no mundo, enquanto pessoas. DBriga assume uma postura frontal, sem máscaras, sem filtros. Soa a alguém que não se esconde, que caminha com a sua verdade mesmo quando ela desestabiliza, mesmo quando provoca desconforto.



Essa mesma frontalidade que marca a sua presença artística estende-se também à forma como se reconcilia com a própria identidade. O seu nome completo é Igor Vera Cruz, uma herança que carrega um reencontro emocional com as suas origens. "Cresci longe do meu pai e da família Vera Cruz, então sempre assinei Igor Cruz. Um dia, um enfermeiro, penso que meu tio, reconheceu-me pelo nome. Uma prima aconselhou-me a voltar a assinar corretamente, para reconhecerem a minha origem."


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“Já fiz apostas com gente que o conhecia e não acreditava que éramos irmãos”

Dbriga

Entre as surpresas da sua história está o vínculo familiar com outro nome conhecido do panorama urbano nacional, o empreendedor e produtor cultural Anyfa. "Porque crescemos sem nenhum contacto, quando cheguei a Portugal o meu pai levava-me para irmos brincar juntos. Nós temos uma diferença de cinco meses — mesmo pai, mas mães diferentes —, então acho que isso fez com que nos afastássemos. À medida que fomos crescendo, reencontrámo-nos, e na primeira vez que nos vimos íamos lutar, porque não nos estávamos a reconhecer. Foi num jogo de futebol da escola: eu representava uma escola do Cacém e ele uma da Amadora". Dbriga acredita que o destino tenha traçado o reencontro dos dois, visto que, naquela altura, manter o contacto era complicado, até porque os telemóveis ainda não faziam parte do dia a dia da maioria das pessoas.



"Só anos depois, já na juventude, voltámos a reencontrar-nos no [Centro Comercial] Colombo. Aí já existia a Bad Company, e numa brincadeira do Sanger - a gozar com ele, porque achava que éramos muito parecidos - voltámos a cruzar-nos pela segunda vez. Desta vez já tínhamos telemóveis, e nunca mais perdemos o contacto. Mas nem toda a gente conhece esta história, e na maior parte das vezes temos de nos apresentar às pessoas. Já fiz apostas com gente que o conhecia e não acreditava que éramos irmãos. Ganhei a aposta… mas não me pagaram", confidencia entre risos.

Ainda sobre as suas ligações pessoais, os Akaboyz surgem como uma família, uma irmandade que nasceu nos tempos de escola. Ele sublinha que a ligação entre os membros é profunda e antiga, desde os tempos da escola, e que a criação do nome surgiu como uma forma de identificar esse vínculo coletivo. O projeto "Planeta dos Macacos" marcou a sua entrada oficial na música, mas foi com a série Anomalia que consolidou o seu percurso. "Foi complicado. Ninguém me deu sangue para continuar. Achavam que eu estava a seguir a moda... Eu gravava quase todos os dias. Além de a mim mesmo, senti que tinha de provar aos meus que conseguia."


Anomalia Volume 2 é o resultado desse percurso de persistência, mas sobretudo de dor. "Tive uns anos complicados. Perdi três pessoas num curto espaço de tempo - um ano, para ser exato: a minha mulher, o meu tio e o meu primo. Foi um desgaste muito grande, não só pelo meu próprio sofrimento, mas também pelo da minha família. Os amigos e a música foram o meu suporte. Alivia-me poder gravar, mesmo sem o objetivo de lançar - é uma boa terapia, e é aquilo que realmente gosto de fazer. Só quando me senti bem, emocional e mentalmente, é que consegui avançar com o projeto", disse.


O projeto foi todo gravado no seu quarto mas um cabo com problemas acabou por comprometer a qualidade das faixas. "Quando fui ao estúdio do OG, a minha intenção era apenas fazer a mixagem e masterização, até me deparar com esse problema. A única alternativa era regravar tudo, mesmo não sendo algo de que goste particularmente, acabou por ser a melhor decisão que podia ter tomado. O OG ajudou-me bastante, sobretudo na minha dicção. Senti que, com isso, as pessoas conseguiriam ouvir-me e sentir melhor aquilo que eu queria transmitir. Foi uma boa experiência e uma parceria que quero manter. É fácil trabalhar com ele".



dbriga entrevista

Dbriga | 📸 BANTUMEN/Eddie Pipocas

As colaborações, como com DJ Liu One, Lil Blood e Miz Trini, acrescentam camadas emocionais ao disco. "Eu e a Miz Trini temos uma filha em comum, fruto de uma relação que tivemos em 2013. Por termos tido uma relação um pouco conturbada, nunca conseguimos estar juntos em estúdio - não conseguíamos separar o trabalho dos nossos problemas pessoais. Doze anos depois, surgiu finalmente a nossa primeira faixa em conjunto, também graças ao OG, que é um grande amigo dela."


Apesar de manter a sua independência, DBriga não recusa trabalhar com produtores fora da Akaboyz. "Aprendi muita coisa. Estava muito fechado na minha maneira de trabalhar. Foi uma experiência que só me trouxe vantagens", sublinhou. Paralelamente, desenvolve a sua marca de roupa, equilibrando os desafios do e-commerce e da vida familiar. O seu percurso é, sobretudo, decido pela necessidade de ser um exemplo a seguir para os dois irmãos mais novos. "Além de uma filha de 12 anos, tenho dois irmãos mais novos. Sendo eu o mais velho, e depois do falecimento do pai deles, sou hoje a figura paterna que eles têm. Há situações que eu e a minha mãe vivemos e que eles nem chegaram a testemunhar, porque ainda nem eram nascidos. Por isso, sinto que é importante esclarecer esse percurso, seja numa conversa, numa entrevista ou através de um projeto musical, para que eles tenham noção do caminho até aqui, e não cometam os mesmos erros que eu cometi no passado. Erros que, muitas vezes, aconteceram por não ser o que os outros são, por não ter o que os outros têm, ou por não estar onde os outros estão."


Quanto ao futuro, Dbriga promete mais música. Está com fome de estúdio, sente-se inspirado e tem vontade de continuar a explorar e a crescer. Embora ainda esteja a saborear a recepção do Anomalia Volume 2, admite que o Volume 3 poderá acontecer, sem pensar ainda em datas.


Crítico do mainstream e das fórmulas que exigem encaixe perfeito, recusa moldar-se às tendências do momento. "Eu gosto de sentir as emoções na música. O autotune torna tudo muito robotizado", disse acrescentando que prefere manter-se fiel à sua essência, ainda que isso signifique estar à margem de certos circuitos mais comerciais.


Para quem o ouve, a mensagem é clara e direta: "Segue o que sentes, o resto é conversa. O sucesso é apenas uma consequência." E é nesta convicção que reside a força de Dbriga, na honestidade crua com que vive e escreve, na forma como transforma cada queda num impulso.

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