"Ulume" de Leonardo Wawuti explora conexões entre Angola e Brasil

4 de Abril de 2025
Ulume Leonardo Wawuti

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Leonardo Wawuti, músico e produtor angolano, lançou nesta sexta-feira, 4, o EP Ulume, um projeto que cruza fronteiras históricas, culturais e emocionais. Na lista de participações inscrevem-se os nomes de Conductor, Keita Mayanda, Verbal Uzula e Damani Van Dunem.


Este trabalho nasce de uma ideia que, segundo o próprio artista, foi evoluindo naturalmente. "A primeira música que fiz, 'Ohossi', mergulhava na época da escravatura, e isso levou-me a refletir sobre a ligação histórica e cultural entre Angola e Brasil," conta. E foi esse fio condutor que levou à construção de uma narrativa que atravessa séculos e continentes, abordando a diáspora africana e as vivências do povo negro até aos dias de hoje.


A conceção de "Ulume" começou com uma troca criativa entre Leonardo e Henrique Jonas, produtor brasileiro com quem já tinha colaborado em outros projetos. Jonas enviou-lhe uma seleção de instrumentais, que acabaram por se tornar o ponto de partida para as primeiras ideias. Mas o caminho nem sempre foi linear. Apesar do entusiasmo inicial, questões de agenda dificultaram a colaboração entre os dois músicos. "A indisponibilidade do Henrique para continuar a produção acabou por nos travar," admite. Diante do desafio, Wawuti tomou a decisão de recriar os instrumentais, enfrentando um novo processo de adaptação.


A narrativa de "Ulume" gira em torno de um personagem simbólico que representa a experiência do povo negro ao longo dos séculos. Leonardo explica que inicialmente considerou outros conceitos, como a capoeira ou a conexão entre semba e samba, mas não encontrou uma forma orgânica de desenvolver essas ideias. Foi então que surgiu o conceito de personificar a negritude como uma entidade que atravessa o tempo, conectando passado, presente e futuro. "Foi a única maneira de dar vida a algo que, historicamente, é impossível," explica o artista.


A música Ohossi serviu de pilar para essa construção, com a sua narrativa estruturada em três momentos distintos. "Acabei por criar três instrumentais diferentes para acompanhar cada fase da música".


"Ulume" é também um testemunho da força criativa das colaborações que Leonardo valoriza no seu percurso artístico. Conductor, Keita Mayanda, Verbal Uzula e Damani Van Dunem são alguns dos artistas que deram forma ao projeto. "O Conductor, o Keita e eu estamos juntos desde o início. Eles são uma parte essencial daquilo que faço”. A ligação com outros músicos, como Verbal Uzula e Damani Van Dunem, foi-se consolidando com o tempo. "A ligação tornou-se natural e orgânica. Estamos juntos e misturados”.



"Não conhecer a nossa história faz-nos existir num vácuo, sem referências de quem veio antes de nós, sem exemplos para nos inspirar ou erros para evitar repetir"

Leonardo Wawuti


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Para Leonardo, trabalhar com Conductor foi particularmente especial, devido à relação de longa data entre os dois. "Trabalhar com o Conductor é sempre fácil e natural. Temos uma sintonia quase telepática quando se trata de música", partilha. A presença do produtor em Luanda coincidiu com a fase final de produção do EP, permitindo a sua contribuição na mistura, masterização e até num refrão.


Um dos maiores desafios de "Ulume" foi a substituição dos instrumentais. "Eu já estava habituado a ouvir as músicas daquela forma, com aquele feeling específico”, explica acrescentando que apesar de tudo, o momento serviu de aprendizagem. "De certa forma, ajudou-me a expandir o meu vocabulário musical e a refinar a minha abordagem à produção," conclui.


Ciente de que a sua produção aborda questões históricas e culturais complexas, Leonardo destaca a importância de conhecer e valorizar a história do povo negro: "Não conhecer a nossa história faz-nos existir num vácuo, sem referências de quem veio antes de nós, sem exemplos para nos inspirar ou erros para evitar repetir".


Para o artista, "Ulume" é uma oportunidade de diálogo e reflexão que pode inspirar os ouvintes a investigar mais sobre as suas próprias histórias e identidades. "Espero que, sobretudo os ouvintes negros, se sintam motivados a conhecer mais sobre a sua própria história”. E acrescenta: "talvez a verdadeira força da arte e cultura seja essa: uma ponte invisível que une, acolhe e dá alguma esperança".


Após o lançamento deste EP, Leonardo planeia complementar o projeto com videoclipes e possíveis atuações ao vivo. "Estamos atualmente na fase de conceção de dois vídeos," revela. Paralelamente, continua a trabalhar em novos projetos, incluindo um EP colaborativo com o produtor angolano Yac In Da Lab.

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