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BK’: “A minha maior ambição dentro do rap é inventar alguma coisa”

BK
BK , fotografia de Wallace Domingues

Presente nos últimos anos (antes da pandemia) no line-up dos principais festivais de música do Brasil, incluindo Lollapalooza, João Rock e Rock In Rio, e sempre esgotando os ingressos de todos os seus shows, BK’ é um dos grandes nomes do rap brasileiro desde a sua estreia em 2016 com Castelos & Ruínas. De lá pra cá, ele foi superando cada vez mais as expectativas e atingiu patamares cada vez mais altos com “Gigantes” (2018), “Líder em Movimento” (2020), e uma série de singles e colaborações.

No mais recente projeto, o EP “Cidade do Pecado”, o artista aborda a influência, ambições, desejos e perdições que o capitalismo promove nas metrópoles. Via Zoom, o MC do Rio de Janeiro conversou com a BANTUMEN sobre os conceitos desse trabalho, novos públicos do rap, negócios e o seu próximo álbum, que está previsto para ser lançado ainda em 2022.  Entre papo reto e risadas, BK apresenta a sua visão de forma sincera e direta.

“Tipo, o EP é um exemplo de como as pessoas podem conhecer outros lados do BK’, e ter mais noção do ponto de vista do BK. Eu sou um cara que tenho a noção da responsabilidade da guerra, das nossas batalhas, mas eu também gosto de churrasco e cerveja… gosto de ir pro baile”, observa. Acho que sou até transparente de mostrar isso para as pessoas e não ficar só no meu discurso de luta ou no rap de visão, e a galera não saber como eu sou de fato, pegando outras visões da minha vida: relacionamento, amizade. Eu vivo tudo isso”.

A última vez que conversamos foi no final de 2019 lá no João Rock. Coincidentemente foi um dos últimos festivais antes da pandemia. Agora as coisas estão começando a se normalizar. Como tem sido esse retorno aos palcos depois de 2 anos

Ah, mano. Eu juro pra tu. No começo… (a gente voltou direto no Circo Voador) parecia que eu nunca tinha feito show antes, tá ligado!? Era como se estivesse aprendendo ali a fazer show de novo, porque a emoção, aquela ansiedade que você acaba perdendo por não estar praticando, ela volta, tudo volta. Você fica mais nervoso… você fica com aquela preocupação de errar, de como vai se movimentar e do que você vai falar. Quando voltar, vai reaprendendo isso. É uma mistura de estar muito feliz por voltar, porque a gente gosta de fazer aquilo, tá ligado!? A gente ama fazer música, fazer show, fazer espetáculo. Então, foi esse mix da vontade e da ansiedade de voltar. É isto: será que eu ainda sei fazer? Mas graças a Deus tá rolando.

Foi meio que um recomeço de tudo! Você também nem rodou com o disco o Líder em Movimento, né!? Nos shows, você está tocando as antigas ou focando nas novas?

O principal dessa nossa volta é o Líder em Movimento. Deve ter duas músicas dele que eu não estou cantando que é pra poder montar o show completo, mas o tema principal dessa turnê de volta é o Líder, e no meio vou mixando com outras coisas. Aí pego um pouco de Cidade do Pecado, pego um pouco de Castelos, porque tem que ter Castelos e Ruínas, porque se eu não cantar as pessoas me matam [risadas]. Pelo menos uma música tem que ter. A gente ficou dois anos sem fazer show, mas o público parece que ficou dez anos sem ir num show nosso. E a galera está cantando muito, curtindo muito e deixando muito aquilo sair do peito, tá ligado!? A gente só teve noção que o disco funcionou agora! A gente lançou as músicas (em 2020) e não performou em lugar nenhum. Então, a gente não sabia qual faixa estava batendo. Tínhamos noção da “Universo”, por causa dos números. Tem algumas faixas ali no meio que tem menos números, mas batem muito bem ao vivo. A gente não tinha noção de quais eram as principais faixas. Quando a gente voltou do Circo Voador e da Áudio (os 2 primeiros shows), o público veio assim, como se tivessem dizendo: “BK todas funcionam”. 

Tem os números das plataformas, que dão uma certa noção, mas a rua é meio que o termômetro. Só o palco confirma isso.

Você só sabe, e vê as coisas funcionando realmente, quando você está apresentando aquilo. Se a gente for ver até a proposta de música que está batendo agora no rap, é outro tipo de som do que a gente canta. E a gente queria saber como essa música estava batendo para o público, e chegando de fato. Graças a Deus, nessa volta em vários lugares do Brasil a gente viu a resposta. É o gás, né!? Além da nossa vontade de estar expressando aquilo ali… a gente faz arte por querer se expressar… gostamos de ter o retorno da galera, porque nos alimenta e dá vontade de continuar fazendo.

Você soltou Cidade do Pecado em 2021, e já está trabalhando em outro disco. Me fala da produção do EP, durante esse tempo “parado” e do trabalho de composição do novo álbum?

Eu tenho muita vontade de inventar alguma coisa. A minha maior ambição dentro do rap é inventar alguma coisa. Até por isso muita gente fica falando: “ah, porque você não foi seguindo a fórmula de Castelos & Ruínas”? Eu sempre falo: “não, isso eu já fiz, agora tenho que inventar outra coisa”. A gente tentou fazer isso em Gigantes… Líder em Movimento, que já é um rap mais tradicional, se é que eu posso chamar assim. Cidade do Pecado também foi com vontade de inventar algo, sei lá na sonoridade. Falei: “vamos pesquisar coisas, e tentar fazer”. Todos os nossos trabalhos são tentativas de inventar algo, de tá querendo surpreender de alguma forma, musicalmente falando ou nos papos. Tanto que cada um tem uma forma de escrita, cada um tem uma forma de batida. Cidade do Pecado foi isso. Eu vejo que nesse momento do rap (isso no meu ponto de vista), acho que a gente pesquisa pouco a nossa própria música, tá ligado!? O rap que tem batido hoje em dia é algo diretamente (copiado é uma palavra muito pesada)… mas é isto: o que bate lá nos Estados Unidos parece que é o que vai reverberando pra cá. Então, falei: “cara, a gente tem nossa música aqui e eu quero trazer mais coisas do que eu ouço mesmo, que é funk”. Eu nasci ouvindo funk, eu cresci ouvindo funk, por isso eu quero trazer um pouco mais do funk em Cidade do Pecado, da minha forma, sem ser o trap funk. Essa foi a primeira ideia do EP também na questão dos beats, de ter algo mais do funk, do samba… ter coisas que a gente cresceu ouvindo. Eu sempre falo muito do (Marcelo) D2 quando ele conseguiu fazer aquela mistura de rap com samba, que eu acho uma parada muito criativa. Aí, queria tentar fazer algo naquele nível. A gente faz música aqui pra tentar coisas também. Só bater nas fórmulas que a gente já fez e já deu certo, eu acho que artisticamente não é interessante. O desafio de estar tentando fazer coisas novas é um desafio que move também. Se funcionar, demorô. Se não funcionar, a gente fez o nosso desafio. Já na parte lírica, na escrita, o conceito é essa vivência realmente da cidade. De como ela mexe com os seus desejos, como o capitalismo mexe com os seus desejos, fazendo você confundir o que realmente quer e meio que aquilo é empurrado pra você. Eu acho que a gente chegou nesse momento de escrita, nessa ideia, quando deixamos de viver diariamente a cidade do pecado por causa da pandemia. Acho que eu segui esses assuntos mais pela falta de viver esses assuntos, de viver a madrugada, as baladas, a maluquice. Na pandemia a gente foi vivendo menos isso. Então, a falta disso foi me levando a falar um pouco sobre esse mundo louco que suga a gente, que são essas ruas do Rio de Janeiro. 

Não sei se você já pensou em levar isso para um filme, mas serve de roteiro. As narrativas do EP são bem visuais. Por outro lado, nos leva a pensar qual cidade seria essa, ao mesmo tempo que ela também representa o Brasil. 

Exatamente! Eu falo que é o Rio de Janeiro, porque é onde eu vivo. Mas acho que toda grande cidade é a cidade do pecado pra quem vive nela. Tem seus problemas, suas tentações. E a questão do audiovisual, a gente queria fazer mais coisas. Inicialmente ia ser um álbum… só que é isto, cara, na pandemia, tudo ficou mais caro pra você poder se movimentar, por causa das questões de segurança e cuidado. A gente não teve talvez o tempo necessário para amadurecer e virar um álbum, até por questões minhas mesmo: troquei de empresário, saí do selo que estava… então, tinha muita coisa acontecendo. Pra pegar esse tempo e se dedicar totalmente no álbum, talvez Cidade do Pecado estaria saindo no meio do ano de 2022, mas acho que agora que eu consegui arrumar esse meio de campo, eu já estou focado em outro trabalho. Faz um começando a escrever o outro.

E como esse próximo projeto está sendo feito, começou a escrever antes ou depois de Cidade do Pecado?

Tem algumas coisas que eu estava escrevendo antes, que vão estar presentes no álbum. Mas estou seguindo por outro caminho, até pelo lance de questões de família. É muito sobre as ruas de novo, porque a vivência é a minha principal inspiração. Eu não achei o nome do ainda, mas já tem algumas produções do JXNV$, algumas do Nanci… esse eu quero lançar no meio de 2022, tá ligado!? Estou amadurecendo com algumas ideias bem legais. Vai ser muito sobre família, e não só mãe, pai e irmãos, mas os amigos mesmo, quem trampa junto. Ao mesmo tempo que fala das ruas, é mais íntimo, introspectivo. Tem o momento de estar na rua, e o momento de estar em casa conversando com a família. 

Não sei se é somente impressão minha, mas vejo que seus discos sempre têm um conceito e possuem tons mais sérios. Porém, os seus singles são mais leves. Parece que é aquele momento que você dá uma respirada. Esse que você soltou com o L7NNON e o Papatinho, “Deu Aulas”, é um exemplo disso. Geralmente são ideias mais suaves do que aquelas que estão no álbum. Por que essa diferença?

É isso aí mesmo. O single é o treino, e o álbum é o jogo [risadas]. A gente vive na Cultura Hip Hop e sabe da responsabilidade dela.

Sabemos que tem momentos mais leves… então, eu gosto de dar meu papo e passar minha visão nos álbuns, mas também sou um cara que gosta de festa, que gosta de tranquilidade, paz, de brincar, de se divertir. Tento passar mais esse meu lado nos singles, que acho que é onde eu consigo ter menos compromisso (entre aspas) se é que eu posso usar essa palavra. Tipo, o EP é um exemplo de como as pessoas podem conhecer outros lados do BK’, e ter mais noção do ponto de vista do BK’. Eu sou um cara que tenho a noção da responsabilidade da guerra, das nossas batalhas, mas eu também gosto de churrasco e cerveja… gosto de ir pro baile. Acho que eu sou até transparente de mostrar isso para as pessoas e não ficar só no meu discurso de luta ou no rap de visão, e a galera não saber como eu sou de fato, pegando outras visões da minha vida: relacionamento, amizade. Eu vivo tudo isso. Eu também vivo a cidade do pecado, também sou aquilo ali. BK’ é Castelos e Ruínas, é Gigante, é Movimento, e é Cidade do pecado também. Tudo isso faz parte do que eu sou de verdade. Essas coisas fazem parte do meu caráter, do meu ponto de vista. Todas essas camadas musicais, desde a mais densa, até a mais leve, vão montando o que eu sou, tá ligado!? Eu tenho camadas mais leves e camadas mais densas, como pessoa. Acho que uma oportunidade de eu estar me mostrando mais para as pessoas é assim, porque eu me expresso pela música. 

Mayra Andrade, ela conseguiu levar a música para outro patamar

BK

Reflete também a nossa vida, que não é só feita de lutas, tretas e militância. Tem também os momentos de diversão. Então, tem que dar aquela respirada! Agora, falando de parcerias de trabalho…. desde o começo você faz suas produções com o JXNV$, de vez em quando flerta com outro produtor e também faz participações em vários trabalhos e sempre leva a sua identidade para esses trabalhos. Como são escolhidas essas parcerias?

Eu gosto muito de trampar com o JXNV$, porque ele é o meu beatmaker favorito, e é meu irmão… já vi a galera falar: “pô, BK’, tem que produzir com outra galera também e sair da zona de conforto”.

Eu falo: “não é questão de zona de conforto, é que o cara pra mim é o melhor beatmaker que tem”. Então, se o cara é o melhor e meu amigo, porque eu vou ficar caçando um monte de beatmaker que eu acho que ele faz num nível acima? Tem outros beatmakers que estão no meu top de favoritos, o próprio Nanci, Papatinho… se eu posso trabalhar com quem realmente eu acho que é o melhor, eu vou trabalhar com quem realmente é o melhor, acabou. Participação pra minha música… eu acho que o feat tem um lance interessante que é o de agregar, de você trocar públicos e outras pessoas te conhecer, maneiro. Mas acho que o feat pra mim tem que elevar a música. Tem que realmente somar na obra. Exemplo disso é “Último Baile Antes da Guerra”, que eu venho falando um pouco de vivência de baile, de funk, e quem pra mim estava dando os papo mais maneiro dessas vivência é o Nochica. Eu sabia que o cara ia agregar naquilo. Depois quem eu chamei? MC Marcelly, porque ela é a braba do funk, é a braba do baile. Então, são pessoas que vieram para somar na música e a música subiu. Sempre quando eu trago um feat pra minha música é nessa vontade, não só de ter o nome, mas de realmente fazer a música elevar o nível, subir um patamar e transformar o que seria um verso legal ou um refrão do BK’ em uma música muito foda porque o feat chegou e subiu o nível da parada. Mesma coisa foi essa com o L7NNON, com a Mayra Andrade, os feats que a gente faz com o Luccas Carlos. Então, os feats feitos no meu trabalho são bem pensados. E quando eu participo das músicas eu tenho a mesma ideia de chegar e somar. Antigamente, anos atrás, eu queria chegar na música e ser o melhor da faixa. Eu tinha que entrar e roubar a faixa, mas aí você cresce e amadurece. Quando você entra só com esse pensamento, talvez a música pode não alcançar o total potencial dela. Agora entro no pensamento de agregar na música, deixar a música mais maneira. A gente tem um público novo de rap chegando, então temos que saber comunicar com essa galera também. Tem que mostrar o lado do BK’ que rima pra caralho, tem que conversar com a galera nova que tá chegando, a galera que tá aí faz um tempão, e vamos dando o nosso jeito.

Você citou sua parceria com a Mayra Andrade, de Cabo Verde. A gente tem muito contato com a música em inglês, mas consome pouco quem fala a nossa língua. Qual é sua relação com o rap lusófono, feito nos países que falam português? 

Cara, eu tenho aprendido escutando algumas coisas, desde da própria vibe do afrobeat, que é uma parada que tem um pouco em Cidade do Pecado. Então, a gente vai ouvindo mais coisas e pesquisa mais coisas, porque é o que tu falou, a gente recebe muita coisa dos Estados Unidos mas esquece que tem todo um mundo (de fato). O que eu mais admiro nesses países é que eles descobriram sua própria forma de fazer rap, tá ligado!?

Eles não ficam só refém do que está na moda nos Estados Unidos. Se você for ver nos países africanos, têm sua própria forma de fazer rap. Todo mundo sabe da matriz do rap, mas cada um conseguiu fazer a sua própria parada. Saindo agora do Continente Africano, mas feito por irmãos africanos, você vai chegar na Inglaterra e vai ver várias formas de rap, que não é a fórmula norte-americana. Aí, você desce pra cá na América Latina, os países do lado, já têm outras formas. Isso ainda é a minha busca. Como é que a gente consegue dar a nossa identidade? Eu vi que todos esses países conseguiram fazer. Esses lugares me inspiram a ter a minha própria identidade. No caso do feat com a Mayra Andrade, ela conseguiu levar a música para outro patamar. Ela topou também na correria de última hora.

Escreveu umas paradas rapidinho, gravou… mas quando você está no show, você sente a emoção dela. Ela tem muita emoção na voz, consegue passar o sentimento, e aquilo é bonito demais. A gente canta essa música no show, e eu deixo a parte dela no beat, e a galera quase chora. É emocionante demais (Mayra muito obrigado, você é braba demais, tamo junto).

Você falou dessa galera nova que está chegando no rap. Muitos, principalmente os adolescentes, não tiveram um contato mais profundo com o próprio rap e a Cultura Hip Hop. Como tem sido o contato com essa molecada?

Eu vejo que essa galera nova que está chegando dividida em duas galeras (talvez eu possa falar assim). Acho que é mais que isso, mas vou resumir em duas pra poder ser mais direto. Tem a galera mais nova que realmente chega curtindo a Cultura Hip Hop e curtindo o rap, e tem a galera mais nova que chega porque esse é o ritmo do momento no mundo, e eles chegam pra curtir sem compromisso nenhum com a parada, e é isso. Tem os dois, mas o público novo que me ouve é aquele que está realmente conhecendo a cultura, que está começando a entender um pouco de rap, talvez por causa do pai ou a mãe que ouvem, o irmão mais velho, a tia. Eles chegam às vezes por Castelos & Ruínas, ou entram por “Planos” e vão conhecendo. Eu vejo que o meu número de fãs adolescentes, assim de 15 – 17 anos, tem crescido mais. É igual os caras do Wu Tang Clan falavam: “O rap é pras crianças também”. Então a gente tem que saber falar pra essa galera. A gente não fala de fé nas crianças, que as crianças são o futuro? Então, a gente tem que saber também falar com eles, tá ligado!? Se eu tô na posição de um cara que passa a visão, e que tá trocando uma ideia, a gente tem que falar com a molecada também, igual os Racionais falavam com a gente. E a outra galera que veio porque gosta do ritmo, daqui a pouco eles vão meter o pé [risadas]. Quando vier outro bagulho da onda, eles vão seguir, e fé!

A gente sabe que o rap é um fenômeno na indústria da música global. Na sua visão, aqui no Brasil, a gente caminha para também bater de frente com o pop e até o sertanejo que dominam o mercado local?

É inegável dizer que o rap vive um dos melhores momentos no Brasil também. Só que dentro da indústria, ele ainda é muito marginalizado, tá ligado!? A gente fica falando: “ah, o rap tá grandão, e tal”! Mas a gente vê dificuldade de fazer as coisas. A música rap cresceu, mas os outros lados não cresceram tanto. Fazer um festival só de rap ainda é bem difícil. Então, se a gente for ver, a música pop suga tudo do rap. As produções bebem tudo da fonte. Só que eles tem investimento de cultura pop, tem outras indústrias que eu acho que no rap tem algumas coisas pra se resolver. A galera acha que não, mas dentro da indústria o rap é muito marginalizado. Tem outros tipos de música na nossa frente que vão ter mais incentivos, tá ligado!? O rap é música preta… ou o rap faz que nem o funk fez: vai ter que engolir, e real tiveram que engolir o funk. Acho que o rap está se aproximando desse momento. Mas a gente sabe como é com a cultura preta… sempre vão ter outras prioridades na nossa frente.

Tem que saber arrumar essas formas de se comunicar, porque nesse mix de arte e negócios, quem comunica melhor ganha

BK

E sempre vai ter também aqueles que vão se aproveitar disso. Tipo: vamos aproveitar que o rap tá no hype e  vamos colocar uma galera ali e afastar os pretos de  tudo pra falar que é nosso, e vamos ganhar dinheiro.

Igual sempre foi… e deixa também um (aí a gente vai pra outro lado)… tem uns moleques pretos que estão fazendo dinheiro, que só teriam como fazer dinheiro nesse lugar, mas não quer muito bater de frente com as paradas. Tem esse outro público que quando você bate de frente fala: “ah, mas o mundo é outro, porque fulano tá com raiva.. tá fazendo um dinheiro”. Então, tem uns manos que são consumidos por essa outra galera e acaba maquiando o seu discurso. E quando a gente começa a maquiar nosso discurso, o que a galera veio para consumir, outras pessoas começam a fazer lá fora de uma forma mais leve. Aí, os brancos vêm e levam.

A música brasileira é muito rica, e o rap poucas vezes bebe dessa fonte. Você acha que essa dificuldade de colocar os nossos ingredientes vai pelo medo de não ser aceito, e por isso a gente pega muito da influência dos estadunidenses?

Tem isso. Tipo em Cidade do Pecado a galera falou: “pô BK’ isso é meio diferente do que tu já fez. Acho que a galera não vai se identificar”. Falei: “se der certo ou não, eu quero fazer porque é o que eu acredito como música”. Mas acho que já chega em vários lugares também. É isso, infelizmente no Brasil todo mundo baba ovo de americano. Você não pode fazer nada. Quando a gente nasceu já era assim. Eu nunca vi, até aqui, um incentivo grande pra gente aprender falar espanhol, que é todo mundo aqui do nosso lado. Imagina se a gente falasse essa língua como a gente ia se comunicar e aprender em países que leva duas horas pra chegar de avião, como se estivesse viajando dentro do Brasil. Como se perdeu esse lance do álbum, o consumo da música é outro também. Então, eu acho que a maioria dessa molecada não tem tantas referências musicais (eu acho. Não estou falando que é verdade nem que não é). Tem um caso de um parceiro, um cara que veio trabalhar comigo, que o sobrinho (ou primo) dele de 15- 16 anos, chegou pra ele e disse: “caraca, descobri um som que é tua cara! Ele perguntou, quem? Jorge Ben! Tipo assim, a molecada não tem essa referência. Para ele foi a descoberta do século… maneiro que chegou no moleque, mas é isso. Essa música brasileira mesmo, acho que a galera não está acessando mais ela por causa da forma que a música é consumida hoje em dia. Como é que faz essa música chegar nessa galera? Aí já é minha pergunta também! Como que a gente vai fazer nossa molecada consumir as nossas coisas? Eu também não sei! [risadas]

Também tem o problema de usar sample, de colocar recortes na música e correr o risco de um processo…

Tem, pra caralho. isso é uma merda, mas você desenrolando e tendo uma condição de pagar, consegue resolver. A gente conseguiu a liberação dos samples. É difícil, é um processo, envolve gravadora, envolve gente… mas até se não for o sample, você pode recriar algumas coisas. É que as referências são outras. Se a referência do moleque for Migos, vai ser muito mais fácil pra ele construir algo mais próximo do que com o Jorge Ben.

Pelo formato da indústria da música e a velocidade da Internet, tendo um contato mais próximo do público, você sente alguma pressão para estar sempre criando?

Cara, não é nem por causa do público, é uma coisa minha para saber como estou na escrita, na performance. Então, sempre quero escrever uma coisa não necessariamente melhor que a outra, mas eu escrevo quase uma música por dia porque é meu treino. Por isso, quero estar sempre ali praticando pra quando eu realmente for cair pra dentro de um trabalho quero chegar bem. Pra mim, a fórmula de sempre estar chegando bem é estar sempre escrevendo. É o treino e o jogo… esse lance de entrar sempre entregando coisas por um lado é bom, pensando só em números e trabalho. A gente está agora entre os 150 artistas mais escutados do Brasil no Spotify. Por quê? Porque a gente tem lançado trabalho recentemente. Isso é bom por esse lado. Tem momentos que a gente tem que dar esse gás, para estar ali. Acho que esse é o maior desafio da gente que realmente gosta de fazer essa parada bem feita, que é misturar a arte com a indústria, com o jogo. Eu gosto muito de rap, mas quero que a galera consuma. Quero que chegue nas pessoas.

Tem que ter uma visão ampla de mercado para fazer com que sua obra chegue na pessoa que vai consumir, seja ela perto ou longe.

Porque é o máximo do ego ali também de você dizer, eu fiz uma obra de arte só que ninguém me entende. É fácil fazer algo absurdo que só você entende. Aí você é um artista muito foda só pra você. Tem que saber arrumar essas formas de se comunicar, porque nesse mix de arte e negócios, quem comunica melhor ganha. Tem que aprender a usar as ferramentas novas. Tipo assim, um negócio que estou aprendendo a usar é o TikTok porque se eu quero me comunicar tenho que saber usar aquilo ali. Eu tenho que entender o mínimo daquilo ali para continuar me comunicando.

Agora você tá com um selo próprio também.

Bem lembrado. Tem alguns trabalhos do Gigantes (o selo) pra lançar também. Estamos fazendo uma mixtape com várias músicas que não entraram no álbum. Acho que todas essas músicas mais leves que eu faço vão estar na mixtape. Eu quero soltar isso depois do álbum, mas assim, igual os EPs, igual os singles, é livre: “rapaziada soltei, quem quiser consumir vai”. O foco vai ser no disco, mas vai ter outras coisas ali também. Uma sobremesa, se ligou!?

Você pretende lançar algum artista nesse selo?

Cara… tenho. A gente tá fazendo o disco do JXNV$, do M$E que é beatmaker e tá com a gente também. Eu quero trazer mais artistas, mas… a gente ainda está se reestruturando, desde da saída de onde eu estava. Ainda estou resolvendo algumas coisas. A gente está começando a obra agora do meu próprio estúdio. Então, eu estou de mudança pra outra casa, aí eu vou chamar um monte de gente pra morar na casa sendo que ainda estou levando as coisas? Não dá! Quero, primeiro arrumar a casa pra começar a trampar com um ou outro também. Tem pessoas no meu radar, mas eu também não quero encher de artista não, porque artista é difícil pra ca-ra-lho de lidar, gente doida, gente maluca [risadas]. Então, já tem eu de maluco, já tem JXNV$, pra trazer mais 10 malucos eu não tenho paciência pra isso [risadas]. Mas eu quero trazer uns dois ou três no máximo.

*artigo escrito de acordo com a ortografia brasileira

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