PUB
Djeff
Entrevista ao Djeff | © BANTUMEN

A evolução de Djeff até chegar ao afro-tech

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

O Djeff é aquele DJ que apresentou um programa de televisão em Angola, bué amigo do BZB, que tem o som com o Silyvi, o “Noba”. O brada tocava bué nas festa do 3xu… Wi…o brada da Kazukuta Records.

Imagino eu que deve ser esta a conversa de quem queira lembrar o início da carreira de Djeff, uma das principais figuras percursoras da música house nos países de expressão portuguesa situados deste lado do Atlântico.

Lançou-se em Angola – terra natal da mãe – com o single “Noba”, em 2010, com o DJ Silyvi e o vocal do Virgul. Na mesma altura, surgiu também o famoso “Elegom Bounsa” e em 2011 saiu o seu primeiro single com o selo da sua própria label, a Kazukuta Records. Entretanto, “Piluka”, com a participação de Gari Sinedima, foi mais um dos sucessivos hits de DJeff que continuam frescos na memória de quem fazia (ou furava) fila para entrar no Docks, em Lisboa, no Chill Out, em Luanda ou no Cockpit, na Praia, entre outras paragens.

A assinalar dez anos oficias da Kazukuta Records, convidámos Tiago Barros aka Djeff ex-Afrozilla para uma conversa de retrospetiva, não só para recordar o percurso, individual e da Kazukuta, mas para colocar os pontos no “is” sobre o progresso da house music nos PALOP, que teve o seu pico na segunda década do século 21 e cuja constância de consumo mantém-se até hoje.

Djeff | © BANTUMEN

O DJ começa por dizer que a Kazukuta Records foi o seu primeiro filho e que, dos os últimos dez anos, tem diversas histórias para contar deste percurso excepcional que começou em Angola.

O sonho de começar a produzir música eletrónica com elementos africanos – e já com uma visão alargada em relação àquilo que se está a fazer hoje – foi sem dúvida uma visão futurista, questionada na altura por muita gente. Hoje, a prova do sucesso é medido à escala planetária. Provada pela sua presença em várias casas de renome internacionais, como Watergate em Berlim, Rex em Paris, em grandes festivais internacionais, como o Suncebeat na Croácia, além de já ter sido convidado de pesos-pesados da cena mundial como Major Lazer ou Black Coffee

No início, a influência veio de artistas a quem teve acesso através da Internet ou que conheceu durante as suas viagens, pioneiros do afro-house, afro-tech – ou o que cada um quiser chamar embaçados pelas denominações carimbadas com a aprovação dos omnipotentes do hemisfério norte. Em Angola, e arrisco dizer, nos PALOP e em Portugal, o nome DJeff e a popularidade do afro-house são uma história homogénea, mas que conta com outros protagonistas que o artista não se escusa a referir. “Eu, Silyvi, DJ Jesus, Havaiana, Satélite, são estes os primeiros nomes que me vêm que na altura já estavam a tentar produzir algo aproximado daquilo que se está a consumir hoje”, explica.

Malembe Malembe, o primeiro álbum do DJ e produtor, saiu assinado em colaboração com Silyvi, em 2011, e marca o início da sua carreia como produtor e disc jockey internacional.

Com o sucesso dos singles que lançou até então e a disseminação do álbum nas colunas de cada casa, festas e espaços de celebração da música africana – e não só – desta nossa lusofonia sortida, começaram a aparecer então os primeiros convites para tocar fora de Angola.

Foi a exportação “de Angola para Portugal e depois de Portugal, graças a Deus, as coisas começaram a crescer de tal forma e comecei então a crescer para o mundo”, disse. Grécia, Alemanha, Holanda, Cabo Verde foram alguns desses destinos. Sobre o arquipélago africano, “sou filho de pai cabo-verdiano mas demorei muito tempo até visitar Cabo Verde pela primeira vez”, recorda. Hoje, é presença assídua no país e ressalva como foi a sua música que o levou a pisar aquela que é também a sua “casa”, por jus sanguinis.

Djeff | © BANTUMEN

A sua investida na música aconteceu ainda em Portugal – onde nasceu e cresceu – mas até então não tinha encontrado nenhum programa de produção que o entusiasmasse. Entretanto, o DJ Ary, também angolano, apresentou-lhe o GarageBand, atualmente Logic Pro, da Apple, para trabalhar em áudio digital e que facilitou a sua aprendizagem e possibilitou começar a produzir.

Foram esses os primóridos da história da Kazukuta Records. Hoje, com oficialmente dez anos, o estado de saúde da label vai de vento em popa, sem recurso a plásticas ou liftings, mas com adaptações e evoluções.

A Kazukuta anda muito bem de saúde e, dentro da ideia que tinha, e com as pessoas com quem estou a trabalhar, hoje em dia conseguimos evoluir para outro patamar

DJeff

Se o início ficou marcado pela necessidade de fundir a música eletrónica a ritmos africanos, a prosperidade do estilo precisava de mais qualquer coisa. O objectivo era evoluir para algo que abrangesse mais pessoas, a nível mundial. As suas constantes viagens, para destinos diversos, fizeram-no perceber o que poderia ou não funcionar a nível global, bem como aquilo que, provavelmente, só no peculiar mercado angolano poderia encaixar-se e ter sucesso. “O mercado angolano, de certa forma, é como estar dentro de uma bola ou de uma bacia”, muito própria e de onde quase não se sai, explica o produtor e DJ. Para poder sair dessa redoma, foi necessário pensar “fora da caixa” e bem mais alto, para poder chegar ao tal público mais abrangente e ao nível que tem atualmente.

A apresentação da Kazukuta Records nas mais diversas plataformas de streaming e de venda de música continua como uma editora que nasceu em Angola, que faz e produz house music (Soulful, Afro House, Deep House) e que tem como bandeira sonora a vontade de trabalhar com todo o tipo de música com que se identifique.

É uma editora jovem mas madura e conectada à espiritualidade que a música africana representa. Atualmente, integra – entre portugueses, angolanos e sul-africanos – além de Tiago, a DJ Helen Ting, Meith e Alpha, ambos DJs produtores, os gémeos Nelson e Bruno, que formam os Homeboyz,  Conde e o membro mais antigo da label, o cantor BZB.

Djeff | © BANTUMEN

Um dos seus principais objetivos, enquanto líder da Kazukuta, está em elevar a fasquia e colocar todos os seus artistas, incluindo ele próprio, no mesmo nível.

Djeff nasceu em Portugal, é filho de pai cabo-verdiano e de mãe angolana e sempre carregou as três bandeiras nas costas. Quando questionado se o facto de ser lusófono dificulta a expansão internacional, Tiago respondeu: “Arrisco dizer que é mais difícil pelo simples facto de o house music na África do Sul ser uma cultura. A partir do momento, em que estás no carro, às 8h da manhã ou 7h da noite, e ligas o rádio [e está a passar afro house] ou vais tocar num canto qualquer e as pessoas conseguem cantar as músicas que saíram ontem, aí percebes que aquilo é algo cultural”.

Para Djeff, é cada vez mais difícil descrever os estilos dentro da música eletrónica africana porque a música de hoje é fusão. E em cima disso, a denominação afro nos estilos é cada vez mais difusa e confusa.

Hoje, o número de géneros associados ao afro-house, cresce do dia para a noite, além de que nos tops do estilo encontram-se músicas com diferentes sonoridades, “que eles chamam de Afro-House”, ou músicas que saíram de Berlim ou Amesterdão [por exemplo], feitas por produtores não negros, que são ‘afro-house’ mas que nenhum negro as identifica como sendo afro-house.

Nas palavras de DJeff, aquilo que ele faz não tem qualquer equívoco. “Quando gosto de uma música toco. Quando não gosto e não me identifico não toco”. E o que sublinha é que aquilo que faz é afro-tech e não afro-house, porque faz uma fusão do techno com o afro-house.

A diferença em relação às sonoridades que produzia no início é que, antes, usava muitos instrumentos e hoje tende a ser mais minimalista e mais eletrónico.

Se tivéssemos de assinalar, na linha do tempo, quando é que essa evolução natural surgiu, diria que foi quando deixou cair o nome Afrozilla, ao assinar com a Spinnin’Deep, gravadora holandesa de Deep.

Sem dúvida alguma que é uma evolução mas, ao mesmo tempo, um bocado daquilo que o Djeff já era no início

Djeff

Apesar de essa variação no estilo ser recente, a música techno esteve sempre presente na vida de Djeff. Era o que ouvia quando miúdo, na altura, popularizada pelos europeus e norte-americanos. Entretanto, com a influência cabo-verdiana do pai e angolana da mãe, passou a prestar mais atenção à música africana que ia ouvindo em casa e em festas, tendo tido os dois géneros distintos sempre muito presentes e cuja fusão dá origem ao que produz hoje.

“Sem dúvida alguma que é uma evolução mas, ao mesmo tempo, um bocado daquilo que o Djeff já era no início, ou seja, quando era criança era um bocado já isso que eu ouvia mas sem aquele toque ou aquele swing meio afro nas músicas”, explica.

A conversa com Djeff terminou com um destaque nos bons DJs e produtores negros em Portugal que tocam Afro-House, com muita influência de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e África do Sul, ao mesmo tempo que fez uma reflexão sobre o atual momento da música eletrónica africana em Portugal. “Acredito que nos últimos anos, de certa forma, Portugal conseguiu criar quase que o seu próprio estilo afro-house também. Os DJs em Portugal tocam também o afro-house mas ao mesmo tempo com influências desta nova Lisboa criola, um bocado de Angola e da diáspora africana na Europa.”

Podemos considerar que destas fusões nasceu um novo género, o afro-house Tuga. Porque a forma como fazem os beats, como põem as melodias, é completamente diferente daquilo que se faz em Angola e completamente diferente daquilo que se faz na África do Sul.

Os DJs de Portugal, se continuarem a fazer apenas isso também vão acabar por ficar na dita “caixa” mas que é a de Portugal e, mesmo que consigam tocar em França, Holanda ou outros países europeus “vão acabar por ir de uma caixa para a outra, ou seja, vai acontecer o mesmo que em Angola, que acabou por criar a sua própria “bolha de mercado”. E das duas uma: ou os produtores e DJs abrem a mente e começam a fazer algo um bocadinho mais ‘fora da caixa’ ou estão confortáveis nesse mercado e nele vão-se mantendo. É uma escolha individual, que cada um tem que saber fazer e gerir, chegando onde puder e lhe for permitido.

Vê o vídeo desta entrevista na íntegra, onde podes ouvir Djeff revelar alguns detalhes sobre algumas novidades da sua carreira, que inclui ter voltado a estudar produção, comprar máquinas analógicas e sintetizadores para conseguir aproveitar ao máximo a paragem forçada pela pandemia e inovar a sua música. Dessa aprendizagem, surgiu o álbum Enlightened Path, de 2020, e, entre os jogos de Fifa na XBox, criou a versão remix do mesmo projeto, lançado em 2021.

Entretanto, não te esqueças de apertar no ‘sininho’ do canal de YouTube da BANTUMEN, que ainda não chegou aos 100 mil subscritores mas que com a tua subscrição ficará menos longe da meta.

Subscreve a nossa newsletter e fica a par de tudo em primeira mão!

No Comment.

Artigos Relacionados

PUB