O mito de Drexciya: Afrofuturismo e representação

Afrofuturismo

Com a nova longa-metragem da Disney A Pequena Sereia acabada de sair nas plataformas do costume, toda uma discussão racializada em torno do elenco do filme veio à tona. Fazendo de uma história parvamente longa algo curto, na animação original a protagonista era representada como tendo pele clara e no filme live action que está a ser agora distribuído a mesma personagem é negra. A sensação é a de que estão a tirar algo a alguém. Não estão, mas o sentimento não é vão e tem antecedentes, ainda que noutra direção.

Este fenómeno não é novidade para quem não partilha de um contexto europeu/branco; mas também não estão a tirar a estas pessoas algo que sempre tiveram. Vejamos, quando pensamos em rock, mais depressa nos lembramos de Zeppelin, de Beatles, de Rolling Stones, ou de Elvis do que de Chuck Berry ou de Sister Rosetta Tharpe, que antecederam os primeiros e foram identificados pelos mesmos como inspiração. Os exemplos sucedem-se por todo Ocidente e mesmo na forma como, depois, estas representações se constroem em ficção, até ao ponto em que moldam a realidade e a distorcem. Diria que um exemplo particularmente curioso é o de Jesus Cristo, uma pessoa nascida no Médio Oriente, mas que no nosso imaginário colectivo é representada como sendo branca. Esta sobre-representação não é nova, e não é a equilibrar a balança que se cria uma subrepresentação, também. “Equilíbrio” está nos antípodas dessa ideia, e acaba por ser o argumento mais interessante em prol desta nova Ariel.

Contudo, e tirando o óbvio do caminho, não nos foquemos tanto nos aspectos nefastos do tópico, mas antes no subproduto deste contexto cultural. Pensemos no que mitologias podem devolver a comunidades, como a afro-americana, para quem pertença e origem são sentimentos que lhe foram barrados. Esta retribuição e este reclamar de territórios e raízes perdidas define o Afrofuturismo e a forma como este expressa resiliência e desejos de devir. O Afrofuturismo, conceito cunhado por Mark Dery no seu ensaio “Black to the Future”, é, de uma forma muito simplista, o reclamar ou criar de origens por via de narrativas mitológicas e artísticas, que apontam tanto a África e à grandiosidade de muitas das suas civilizações, como para o espaço, para a vida além da terra, de onde teriam vindo as populações que haviam sido, até então, apagadas da história. Este é, claro, um exercício de representação, mas também de valorização e de futuro, de criação de uma história paralela à nossa, em que a diminuição de alguém com base na melanina não aconteceu, ou, ao acontecer, levou a momentos de afirmação civilizacional que podem ombrear com as maiores obras da humanidade. Alguns tentos são esforços verdadeiros de criar um futuro diverso e igualitário, como o programa espacial da Zambia; outros são inventivos, como Sun Ra afirmar ser oriundo do espaço, ou Janelle Monae ser um android. Naturalmente, esta expressão e este desejo de representação acaba por falar mais alto nas comunidades racializadas que foram formadas pela escravatura, em que as pessoas foram roubadas não apenas da sua humanidade, mas também da sua origem e do seu sentimento de pertença. Nestes casos, África acaba por ser demaisadas vezes uma ideia particularmente distante, uma miragem de materialização difícil – e o futuro que se desenha através da expressão artística torna-se ainda mais premente.

Estas expressões narrativas, que criam um momento histórico que vá para além das embarcações, das plantações, deram-nos Flying Lotus, George Clinton e Sons of Kemet na música; deram-nos Basquiat e Renee Cox na pintura e Damon Locks na colagem e no design; deram-nos Spaceape e o colectivo Black Quantum Futurism na poesia; deram-nos Octavia E Butler na literatura, entre tantos outros. Na diáspora africana lusófona, podemos indagar sobre se Tristany e a Príncipe, por exemplo, não serão expressões quase mitológicas de uma identidade menos descarnada da origem, mas porventura diluída por uma noção sistematicamente racista de “branco vs negro”. Mesmo no pré-74 e independências, houve “Blackground” dos Duo Ouro Negro e o trabalho de afirmação cultural africana de Vum-Vum Kamusasadi, e figuras como Amilcar Cabral, marcos importantes na afirmação da cuktura africana como meio de libertação.

A narrativa que melhor encaixa neste não-caso do filme da Disney é, ainda assim, a de Drexciya. Para os fãs de electro e da cena techno de Detroit, este nome identifica a dupla que apadrinhou o género e contribuiu enormemente para elevar o Roland TR-808 do estatuto de lixo ao de ouro dos sintetizadores; para os fãs mais acérrimos de Gerald Donald e James Stinson, Drexciya é um universo subaquático de superação da exploração esclavagista, e uma narrativa que permitiu expandir a afro-descendência para as profundezas do oceano Atlântico. Os Atlantes são apenas habitantes de Drexciya. Passemos à explicação.

A mitologia de Drexciya surge a partir de uma série de mensagens, nos lançamentos da dupla, que aprofundam a temática subaquática, constante ao longo de toda a sua discografia (títulos como “Aqualung”, “Black Sea”, “Neptune’s Lair”, “Organic Hydropoly Spores”, “Deep Sea Dweller” são apenas alguns entre imensos) e que, de forma inegável, define o seu som. O techno de Drexciya soa quase abafado, sempre ondulante, com sintetizadores arpejados a criarem melodias borbulhantes de uma forma muito singular. Em meados de 1997, no lançamento “The Quest”, o grupo desvenda finalmente o que é Drexciya, quem são os Drexciyans e como é que esta nova espécie de humanos surgiu. No lançamento, além de uma série de mapas que identificam as movimentações desta nova espécie de humanos afro-descendentes, pode-se ler o seguinte texto:

ARE DREXCIYANS WATER-BREATHING, AQUATICALLY MUTATED DESCENDANTS OF THOSE UNFORTUNATE VICTIMS OF HUMAN GREED? … DID THEY MIGRATE FROM THE GULF OF MEXICO TO THE MISSISSIPPI RIVER BASIN AND ON TO THE GREAT LAKES OF MICHIGAN? DO THEY WALK AMONG US? ARE THEY MORE ADVANCED THAN US, AND WHY DO THEY MAKE THEIR STRANGE MUSIC? WHAT IS THEIR QUEST?

O foco desta revelação está, curiosamente, posto num momento essencial da história de Portugal, que foi o comércio transatlântico de pessoas escravizadas. Em inglês, a rota triangular que ligava a Europa a África e aos Estados Unidos com o fim de traficar estas pessoas era epitetada de Middle Passage (desconheço um termo em português para esta rota). No transporte destas pessoas, e de acordo com a mitologia de Drexciya, as mulheres negras escravizadas que se encontravam grávidas eram atiradas do tumbeiro, ou navio negreiro, ao mar pelos esclavagistas (algo que verdadeiramente acontecia, pelo menos, com pessoas que morriam durante a travessia). Drexciya é, assim, a nação subaquática composta por espécimes humanos anfíbios que haviam desenvolvido a capacidade de respirar debaixo de água quando ainda estavam nos úteros das mães sacrificadas. O seu território é o abismo, têm a capacidade de saltar ondas (“Wavejumpers” é uma característica descrita sonicamente numa das inúmeras músicas da dupla), e Drexciya, a sua nação, surgia como uma Wakanda submersa, futuro de etnias e culturas sacrificadas, lar para uma sociedade super avançada e de cultura superior, uma possibilidade que devolvia dignidade e vida a muitos que haviam sido despojados de ambas.

A narrativa de Stinson e Donald nunca foi, contudo, algo muito definido e fechado. A possibilidade de eles próprios, mutantes do techno, serem descendentes de Drexciyans, seres libertados pelo sacrifício das suas mães e mais evoluídos, não era algo que fosse posto de parte no texto que os próprios publicaram em “The Quest”. Também nunca o mencionaram em nenhuma entrevista, por exemplo. A realidade é que os seus contributos mudariam a música, mais do que apenas o techno, para sempre (ou acham um acaso que o sintetizador 808 ainda tenha a caixa de ritmos que define muito do que são as batidas trap de hoje em dia?).

Esta narrativa desenrolou-se de muitas formas, de uma novela gráfica apadrinha pelo próprio Gerald Donald, a extrapolações hip hop por via dos CLIPPING, a tudo o que ainda está por imaginar. É, também, prenúncio de uma série de outros fenómenos que observamos e que os próprios Drexciya (Donald e Stinson, não os anfíbios) projetaram em “The Quest”, quando identificavam quatro momentos distintos da história das populações escravizadas nos Estados Unidos da América: a Middle Passage, triângulo que posiciona geograficamente a nação de Drexciya e rota que levaria à sua fundação; a migração dos afro-descendentes do Sul rural para as cidades industriais do Norte dos EUA; a expansão do techno para o resto do mundo, tornando-se num fenómeno mundial; e o que identificam como sendo o Futuro: o regresso a casa e às origens em África. Drexciya pode, assim, ser apenas um capítulo intermédio de uma revolta maior. Pode ser o caminho da superação que permite a concretização do futuro. Pode até ser o momento histórico que permite estes afro-descentes evoluir tanto que conquistam o mundo através do techno, a sua arma de destruição (de pernas) maciça. O techno pode até ser o hino da nação Drexciya, assim como as suas inúmeras mutações criadas pelos afro-americanos, que partilham da mesma geniologia.

A discussão em torno do filme “A Pequena Sereia” acaba assim por proporcionar, além da possibilidade de pessoas racializadas se reverem no status quo da nossa sociedade, mais uma oportunidade para se discutir o génio inventivo das comunidades afro-descendentes e, mais não seja, de como transformaram a exploração em superação e acabaram por reclamar para si o fundo dos oceanos e as ondas sonoras. Se os Europeus preferiram a superfície e a ganância às profundezas do mar, que deram (leia-se, sacrificaram) às pessoas negras, porque não devolver também esta estória a quem reclamou o abismo como seu? Se estamos no reino da imaginação, não podemos apenas aceitar que esta versão da estória fictícia é apenas uma possibilidade em que a protagonista é Drexciyan — e que, por isso, o problema do filme é falta de techno e não falta de brancos?

Concordemos, por isso, de que este passo é necessário, mas insuficiente. Tanto quanto de representação, é preciso espaço para que quem deseja melhor e o concretiza, mesmo que em narrativas e no reino da ficção, possa passar a fazer parte de um imaginário mais global, e não seja atirado para a gaveta da subcultura.

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