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Miriam Livramento
Miriam Livramento © BANTUMEN

“Estamos a fazer uma revolução em Cabo Verde como em África”, Miriam Livramento

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Miriam Livramento é cabo-verdiana, nascida na ilha do Sal, e na sua bagagem tem um extenso historial de trabalho social, sobretudo no que diz respeito à capacitação da juventude cabo-verdiana, e agora está por trás de um dos projetos educativos mais inovadores de Cabo Verde, a escola Zone 01. Aproveitámos a sua presença na Web Summit deste ano para perceber quais são os seus planos e expetativas de desenvolvimento tecnológico em Cabo Verde. 

Miriam é formada em Nutrição, pela Faculdade de Nutrição, na cidade de Natal, em Rio Grande do Norte, no Brasil, e sempre esteve envolvida em atividades de ativismo social, associações de estudantes e ações comunitárias. 

Depois de ter o canudo, voltou para o arquipélago da morabeza, onde trabalhou numa plataforma filantrópica para servir refeições nutritivas de qualidade na praia e a um baixo custo: café, almoço e jantar por apenas 60 escudos, o equivalente a cerca de 54 cêntimos. No seu currículo, há ainda a passagem pela Câmara Municipal, onde trabalhou na fiscalização e no centro de idosos, como nutricionista. Foi aí onde sentiu que poderia dar o seu contributo ao país. 

Entretanto, trabalhou também na cidade da Praia, na Entidade Reguladora de Saúde e atualmente é presidente da plataforma Juvenil Geração B-Bright, que ajuda recém diplomados a integrarem o mercado de trabalho. Um dos pontos de atuação importantes da plataforma é desenvolver sessões de capacitação, solidariedade e inovação social, dos quais destaca-se o evento TEDx Praia, do qual foi detentora da licença e organizadora da terceira edição.

E foi com toda essa bagagem que Miriam Livramento fez parte do quadro Women In Tech na WebSummit deste ano, com o objetivo de conectar-se a nível pessoal e profissional com o que de melhor está a acontecer a nível tecnológico a uma esfera global. Isto porque, além de ser diretora de projeto de implementação da escola Zone 1, a jovem empreendedora sente que Cabo Verde está preparado para ser um hub tecnológico, considerando a sua óptima localização geográfica.

Miriam acredita na mudança e no que está a fazer, o WebSummit para a mesma seria o epicentro de toda uma luta e evolução tecnológica do seu país. “Eu acredito no poder, da informação e da partilha. Em Cabo Verde, estamos a promover actividades que dêem aos jovens aqueles skills que nós não encontramos normalmente nas plataformas escolares. Formação técnica, promovemos encontros entre profissionais que já estão no mercado de trabalho, especialistas, jovens empreendedores, ativistas sociais, com outros jovens para os inspirar, através de conversas informais (…) o que estamos a fazer, é uma revolução tanto para Cabo Verde como para África. A educação do meu país é de qualidade, mas ainda falta adaptarmos a nossa metodologia de educação à nossa realidade atual. O formato de educação ainda é muito antigo e o mesmo acontece com outros países africanos, que não estão a acompanhar, principalmente, a evolução tecnológica”, desabafou. 

A escola Zone 01 é uma escola internacional de codificação moderna, implementada na cidade da Praia, para adultos de qualquer idade em busca de oportunidades de auto-desenvolvimento ou reconversão profissional.

Na sua base está a inteligência colectiva através da metodologia Peer to peer (de ponto a ponto, em português), o que significa que os usuários não precisam de um núcleo central que sirva de ponte entre todos, pois estes estão todos conectados entre si. 

O que a 01 faz é semelhante ao que está a ser implementado há mais de 25 anos em outras escolas internacionais, como a Epitec ou Escola 42 – escola de programação fundada em Paris- entre outras plataformas, só que numa versão mais atualizada.

Miriam como directora de projecto acredita numa aprendizagem de forma colaborativa, de forma criativa sem professores ou salas de aulas ditas normais. “Formamos programadores sem professores nenhuns, colocando os jovens estudantes num ambiente de trabalho normal. É um curso de dois anos com cerca de 90 projetos. No final, tens de ter concluído esses projetos, entregues aoS alunos semanalmente, e tens um grupo de trabalho sem qualquer auxÍlio. Tem mesmo de existir uma pesquisa para se conseguir fazer os trabalhos, os trabalhos não podem ser feitos por um aluno só, é impossível, tem de ser sempre em pares ou grupos, é a nossa metodologia de trabalho e resulta.”

Há mais de 30 escolas de codificação ativas, em vários países na Europa e em África. Cabo Verde é o primeiro país PALOP a ter uma. O objetivo global da escola 01 é ter um milhão de coders em dez anos. Só em Cabo Verde, a previsão é formar cerca de 200 estudantes por ano, 70% de jovens locais e os restantes 30% de qualquer parte do continente africano, para que se continue numa lógica pan-africanista

Numa era onde a tecnologia reina, existe um défice de programadores a nível mundial, não há programadores que consigam dar resposta à necessidade atual do mercado, e é por isso que a 01 está a apostar nestas formações. “Nós queremos produzir programadores criativos, que consigam dar resposta a qualquer necessidade de qualquer empresa a nível global”, explicou Miriam. 

Os programadores são treinados em Cabo Verde, mas com a mesma formação dos que são formados em Inglaterra, França, Cazaquistão, Senegal ou Benim. É o mesmo programa e estão ligados uns aos outros. 

“A formação é gratuita e no final os coders já estarão empregados. Os primeiros formados terão concluído o curso em abril de 2022 e neste momento já se encontram empregados numa empresa francesa de serviços de TI, a Atos. Esses coders, através de Cabo Verde, vão trabalhar para o Brasil sem terem de sair do seu país fisicamente. A ideia é também promover o desenvolvimento local”, explicou.

Além de uma mente brilhante sempre à procura de novas oportunidades para impulsionar os profissionais e o mercado de trabalho cabo-verdianos, Miriam Livramento detém prémios como o YALI 2018 – Mandela Washington Young African Leader e MWF WARAB 2019 – West Africa Regional Advisory Board, mas quer mais porque, como a mesma concluiu, “o limite não é o céu”.

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