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Estes artistas estão a redefinir as noites afrodiaspóricas em Portugal

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Seja pela liberdade de dançar como se ninguém estivesse a ver-nos, ou ao contrário, pelo ritual de ver e ser visto num lugar onde podemos ser quem quisermos, os clubs sempre foram um espaço de celebração de identidade. A própria história das “discotecas” começa nos disco clubs, que surgiram da subcultura queer e da música disco, dominada e enraizada por ritmos negros, como o soul e R&B. Para resgatar esse espírito, conversamos com alguns dos nomes de artistas e coletivos por trás da cena noturna portuguesa que trazem a cultura afrodiaspórica para as pistas de dança no país. 

Patrícia, mais conhecida como Patisol nas festas, é uma DJ brasileira que começou nas casas dos amigos e hoje leva o som da diáspora africana para casas como o Pérola Negra e Maus Hábitos, no Porto. Depois de tocar oficialmente pela primeira vez em 2019, a convite da Rede 8M, a DJ não parou mais e, nesse mesmo ano, começou dois projetos. Ao lado de Fabi, mais conhecida como DJ CLYTA, nasceu o A Mamanus e, numa primeira fase, participaram no projeto SoundPreta de Lola Rodrigues, conhecida como DJ Lola.

Com que objetivo vocês criaram esses projetos?

Patisol: “A Mamanus, um duo feito entre mim e a DJ Clyta, com a intenção de mostrar que o “fervo também é luta”, que é possível dançar e ao mesmo tempo politizar, conscientizar e desconstruir.”  

Idealizado para ser “um coletivo de DJs pretas com o objetivo de enegrecer os espaços culturais no Porto”, o SoundPreta segue ativo atualmente como um projeto individual da DJ Lola que, segundo ela própria, “pretende expandir para outros lugares além de Portugal e fazer uma rede com outros artistas pretos que estão pela Europa e países afora.” 

Música afrodiaspórica é um universo… Que tipo de som mais gostas de tocar nas festas?

P: “É sim, envolve todas as músicas que tem a África como ancestral no mundo, né? Eu estou muito conectada com afrobeat, mas também existem um monte de subdivisões como afrorap, afrotrap, amapiano, kuduru, compa, da Nigéria, do Brasil, de Angola, da África do Sul…”

Você concorda que existem muitas pessoas negras (e migrantes e latinas) liderando as festas e os espaços alternativos em Portugal? E que mesmo assim, às vezes, a ideia de clubbing ainda é associada pelo imaginário coletivo de maneira predominante branca? 

P:“ Pra mim é muito importante que pessoas racializadas e LGBTQ+ ocupem os espaços que nos são negados diariamente. Na verdade, eu não estou preocupada com o imaginário do homem branco por que não preciso da validação ou invalidação deles para nada. Acredito que está se criando uma nova cultura, mas não diria alternativa, é uma cultura independente.”

Qual a importância de um projeto de DJs tocado por mulheres negras e latinas focado em música afrodiaspórica em Portugal? 

Fabi: “Eu acredito que a importância de ser uma mulher, negra, brasileira, tocando música afro-diaspórica na noite da cidade do Porto, na Europa, no mundo, se dá quando a gente encara o ofício da DJ enquanto uma contadora de histórias. Quando preparo um set, tenho sempre a preocupação de priorizar artistas mulheres, negras/os, comunidade LGBTQ+, etc. Meu desejo é poder vocalizar as vivências da nossa comunidade através da música e com isso criar quilombos urbanos onde podemos ser livres pra sermos quem somos, para nos encontrarmos e partilharmos as dores e delícias de se ser imigrante nesta terra que outrora fora metrópole.”

É também na cidade do Porto que a coreógrafa e produtora de eventos Nala Revlon se torna cada vez mais um nome conhecido por ter trazido o ballroom para o país. Na época, já bailarina profissional, deixou Portugal e foi para Paris absorver todo o espírito desse movimento underground criado nos anos 60 por pessoas queer negras e latinas, hoje conhecido na cultura pop por séries como Pose e Legendary e por sua dança característica, o voguing. Lá, Nala aprendeu a treinar, competir e ganhar. Há três anos, começou o Vogue Pt Chapter, ao lado da também bailarina Piny, com a ideia de oferecer workshops e partilhar a história do ballroom. Também mais recentemente, Nala lançou o Pump Da Beat, onde organiza festas que reúnem muito mais do que público do ballroom.

O que te levou a ir para Paris e trazer essa cultura para Portugal? 

NR: “Antes de ir para Paris, percebia que os clubes eram maioritariamente ocupados por brancos e eram lugares de amostra de beleza e status, e não um espaço de celebração e partilha como os que fui conhecendo em Paris – onde as pessoas iam até mesmo de fato de treino com o intuito de dançar e estar mais conectados com o som. Daí criar o Pump da Beat foi uma forma de contribuir para a cena clubbing em Portugal, com o intuito de ser um espaço onde podemos ter vários corpos na pista a trocar movimento, energia e vivências.” 

Fala-se muito do ballroom como um lugar seguro para as pessoas LGBTQ+, mas ele nasce de uma comunidade queer predominantemente negra e latina. Qual a necessidade dessas atividades serem lideradas e focadas nessas pessoas? E qual a importância do ballroom nesse sentido?

NR: “Historicamente, eles surgiram porque existia uma realidade segregacionista, racista onde estes corpos não tinham espaço social e nem tinham os seus direitos fundamentais respeitados. O ballroom é importante porque enaltece esses corpos, que até hoje muitas vezes não são vistos fora dele. Hoje, mesmo em países com pessoas brancas, o foco do ballroom vai ser sempre priorizar as comunidades marginalizadas, que é o caso de pessoas queer pretas. Por isso esse movimento não pode ser só sobre moda e corpo, porque homofobia, transfobia e racismo ainda existem. Temos uma comunidade que foi criada como luta e resistência dessas causas, por isso hoje não podemos esquecer esses feitos e dançar livremente sem responsabilidade do lugar que ocupamos nessa comunidade.”

Fico curiosa de pensar como foi começar um projeto de ballroom aqui. Foi fácil encontrar o público certo? 

NR: “ Hoje a comunidade está a ir pelo caminho certo, por ser maioritariamente composta por pessoas estrangeiras – sobretudo das ex-colônias como o Brasil. Vejo uma partilha de vivências diferente do que vivi em Paris, vejo pessoas encontrarem razões para ficar e se sentirem em casa, mesmo não estando em seu país. O público é formado por aqueles que procuram um lugar de representatividade, de liberdade e segurança.”

Encontrou alguma dificuldade nesse processo?

NR: “Chega até a ser surreal onde estamos, até mesmo a receber apoios de instituições para produzir balls aqui, sendo que no início demorou. Criar um espaço desses em Portugal para pessoas queer acredito que seja sempre difícil e ainda está a ser uma construção, um processo. Claro que com o voguing estar na moda também chegam pessoas que vão mais pelo lado fashionable da comunidade (…), mas temos muitas conversas abertas, seja com pessoas de fora, seja entre a comunidade, com o objetivo de educar para além do corpo, até percebermos como um todo que não é só uma dança e sim um movimento social e político.”

Quem também se preocupa em proteger a diversidade da sua comunidade é o Dengo Club, um grupo formado com o objetivo de criar festas de música afrolatina por cinco artistas de diferentes áreas de atuação e culturas. A identidade única do projeto deve-se a cada um de seus integrantes: Soya Marega, Cyber Tokyo, Ricardo ‘Banu’ de Carvalho, Catarina de Carvalho e Saint Caboclo, o DJ fundador e organizador do grupo, com quem conversámos. 

Vocês sempre souberam que queriam focar em ritmos afrolatinos? 

SC: “Sim, cada festa com um foco diferente como Baile Funk, Dancehall, Afro Beat, Reggaeton etc. As festas de música afrolatinas geralmente não são festas que levantem bandeiras LGBTQ+, ou que garantam a segurança dessa minoria. A ideia de ter uma festa que abrange algo tão vasto como a música afro-latina sempre pareceu um desafio e fazer disso um ́ ́safe space para essas pessoas é ainda mais trabalhoso.” 

As festas do Dengo são itinerantes. Por que essa escolha? 

SC: “Nós acreditamos que cada festa deve ter o seu espaço para que a música seja aproveitada como experiência e não só como um som a ser projetado em aparelhagem de som. Nós estamos preparando festas com conceitos de raves, eventos de verão ao ar livre e muito brevemente concertos. A cena noturna de Lisboa é muito escassa, os bares e discotecas não apostam muito no que é novo, então a existência de festas como a nossa é uma tentativa de fazer com que no mês exista um evento com uma temática, dress code e apresentações. A gente se inspira muito na cena preta queer de cidades como Nova Iorque, Londres e Berlin.” 

O que a identidade de vocês enquanto grupo reflete na experiência que querem proporcionar?

SC: “A nossa formação é feita por cultura brasileira (Saint), árabe (Soya), cabo-verdiana (Cyber Tokio) e angolana (Banu e Catarina). Cyber é designer de moda e todas as festas vestimos as suas peças e também as peças da loja da Catarina, enquanto a maior parte da identidade visual dos cabelos e jóias são feitos pela Soya, nossa hairstylist e host. Dengo é uma palavra associada a amor/carinho e tudo o que queremos é que todas as culturas se encontrem naquele lugar para aprendermos através da música que nós somos melhor unidos.” 

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