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Festival europeu traz para a luz a “fábrica cinematográfica da história do colonialismo”

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A edição de 2022 do festival de cinema Europe Around Europe vai apresentar a Mostra Imaginários Coloniais, idealizado pela autora e realizadora Ariel de Bigault, de 17 a 31 de março, em Paris.

Entre a seleção de mais 100 obras de arte e de autor, clássicas e recentes do festival, a Mostra Imaginários Coloniais, com um conjunto de 20 películas, acontece numa parceria com a Cinemateca Portuguesa, que alocou exemplares de filmes de 35 e 16mm nunca exibidos em França, e que vão ser transmitidos em lugares prestigiados, como Saint-André des Arts, Fundação Jérôme Seydoux-Pathé, bem como na Maison du Portugal, centro cultural português.

Com um repertório de filmes produzidos de 1920 até ao fim da era colonial portuguesa, o programa esclarece como o cinema, utilizado pelo regime como instrumento de propaganda mais ou menos explícito, contribuiu para forjar um imaginário colonial, mostrando as evoluções da ideologia imperialista.

Os primeiros filmes mudos revelam, de forma contrastante, olhares surpresos e curiosos sobre países e povos filmados pela primeira vez, e um plano de dominação já mais ou menos afirmado. Os documentários das décadas de 1940 e 1950 defendem, sobretudo nos comentários, o desenvolvimento da missão civilizadora branca e europeia, dando, por vezes, um grande lugar à vida e aos costumes das populações. Os feitos de Antonio Lopes Ribeiro, o cineasta do regime, são notáveis ​​pelos contrastes entre o discurso dominante e as imagens dos costumes e tradições africanas. Ao contrário do movimento anticolonialista global dos anos 1960, Portugal persistiu em “ficar” enquanto os movimentos de independência em Angola, Guiné e Moçambique pegaram em armas (Angola, Decided to Stay, 1962).

Estas narrativas encomendadas pela ditadura pode ser visionadas em, por exemplo, Portugal do Ultramar, produzido pelo francês Jean Leduc. A censura mimada e inflexível não deixa passar nada. É por isso que o filme de Joaquim Lopes Barbosa de 1973 é uma pérola rara, uma obra radical, banida, esquecida e recentemente redescoberta.

Todos estes filmes, preciosamente guardados pela Cinemateca Portuguesa, que excepcionalmente empresta exemplares de 16mm e 35mm para o festival Europe Autour d’Europe, nunca foram exibidos em França.

A segunda parte do programa é composta por filmes de ficção realizados após 1974. Actos da Guinée-Bissau, cujas sequências foram filmadas em 1970 pelo jovem capitão Fernando Matos Silva, retrata a história da Guiné portuguesa e o apocalipse do império. Após a independência em 1975, o cinema parece obscurecer o passado colonial. É este silêncio que Margarida Cardoso se propõe a romper com Le Rivage des murmures, que evoca de forma marcante o clima entre colonos e soldados num Moçambique em guerra, onde ela própria cresceu. Cineastas nascidos na democracia questionam a história e a identidade do seu país, construída sobre o mito do império.

O documentário Fantasmas de um Império, de Ariel de Bigault, explora esses 100 anos de cinema colonialista e anticolonialista, com a participação de diversos cineastas, bem como os atores Orlando Sérgio e Ângelo Torres.

A Mostra propõe descobrir esta fábrica cinematográfica de histórias do colonialismo. As de dominação europeia, branca e cristã; os de exploração violenta, de falsificação de ideologias, de opressão dos povos; os de paradoxos e contradições. Trata-se também de questionar as perspectivas, os olhares, as atitudes dos diretores em relação ao outro. “Ontem colonizado, hoje cidadão de uma nação independente ou então imigrante, refugiado. Enquanto cineastas de vários países voltam a questionar o passado colonial europeu, esta retrospectiva da herança portuguesa abre caminhos para a reflexão sobre o papel do cinema na construção do imaginário de ontem e de hoje, partilhado além-fronteiras”, lemos no comunicado de imprensa.

FANTÔMES D’UN EMPIRE from KIDAM on Vimeo.

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