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Galeria African Arte Lisboa l © African Arte Lisboa
Galeria African Arte Lisboa l © African Arte Lisboa

“Quando dizemos que queremos fazer uma exposição, as pessoas pensam no elefante, na girafa, não pensam na arte etnográfica”, Paulino Semedo

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A Galeria African Arte Lisboa nasceu no número 10 B da Rua Sousa Lopes, em Lisboa, a 21 de dezembro de 2019 e é fruto de uma parceria entre o galerista Seydou Mamadou Keita e Paulino Semedo, Conceição Brito e Jeremias Semedo, três irmãos apaixonados pela arte africana. 

Virtualmente, foi Paulino Semedo quem abriu as portas à BANTUMEN para nos falar do espaço, que é a maior galeria especializada em arte africana em Portugal. 

Semedo é formado na área da Engenharia e Gestão, é um curioso que apaixonou-se pela arte africana “por causa de uma máscara” que viu numa ida ao Porto. Foi naquela cidade onde conheceu Seydou Mamadou Keita e onde está sediada a Galeria African Arte. “Foi ele que me abriu a oportunidade de entrar no mundo da arte africana. Algo que não se vê todos os dias. Sou um curioso. Costumo ir a várias galerias, a vários museus. Não é fácil, às vezes, encontrarmos um espaço dedicado à cultura africana como encontrei na minha primeira visita à galeria do Keita”, relata. 

Desde então, tem estudado “todas as noites, porque a arte africana, a cultura africana é uma cultura rica e temos muito para procurar”, explica. 

Meses antes da inauguração da galeria, Paulino e os irmãos tiveram a oportunidade de fazer algumas exposições de um dia de duração em salas de hotéis alugadas, “para ver a aceitabilidade do público aqui na região da grande Lisboa”, relembra. 

Depois da boa receção do público em várias ocasiões, chegaram à conclusão de que precisavam abrir um espaço físico. Assim, desenhou-se o projeto da Galeria African Arte Lisboa. 

Como está descrita no website, o espaço “esforça-se para garantir a propagação e promoção da cultura da arte africana, dos valores culturais e da civilização, trazendo desta forma o ressurgimento da arte africana e as diversas contribuições do povo africano nas correntes universais da arte.”

A galeria lisboeta dá-nos assim as boas-vindas num espaço enriquecido de estátuas, máscara, artefatos utilitários, bronze, terracota, jóias e panos provenientes de países africanos de língua oficial portuguesa, mas também da Costa de Marfim, de Burkina Faso, do Senegal, da Nigéria. “Temos uma diversidade enorme e queremos demonstrar o que é que o continente africano tem de bom”, sublinha Paulino Semedo.

A Galeria African Arte Lisboa “nem sequer se encontra na rua principal da capital”, mas logo no dia da inauguração “recebemos mais de 500 pessoas e na semana a seguir já tínhamos pessoas a vir da Holanda e da Bélgica. Tínhamos pessoas dos Estados Unidos a entrar em contato connosco para agendar uma visita no ano a seguir, em março [de 2020].”

Mal abriu portas, a galeria teve de as fechar durante os confinamentos, devido à pandemia da Covid-19, e voltaram a abrir com uma exposição “em junho ou julho de 2020.” Paulino recorda que foram convidados a fazer uma exposição numa galeria em Lisboa e, para ele, foi um sucesso inesperado, porque não estava à espera “de ter tantas pessoas para verem uma exposição, principalmente no período de incerteza que estávamos a viver naquela data.” 

Paulino Semedo diz que a Galeria African Arte tem como foco exposições a nível nacional mas também internacional. No entanto, explica, às vezes, pode ser “extremamente complicado” encontrar espaços municipais para fazer exposições. 

Além disso, a dificuldade também repousa na percepção enviesada que as pessoas podem ter ao ouvirem falar numa exposição de arte africana: “Quando dizemos que queremos fazer uma exposição  de arte africana, as pessoas, por norma, pensam no elefante, pensam na girafa, não pensam na arte etnográfica”, argumenta. 

Para corrigir essa pré-concepção, Paulino relembra que começaram a tirar fotografias de algumas peças que, posteriormente, colocavam em anexo no mail que enviavam aos possíveis futuros visitantes. 

“Quando as pessoas abriam o e-mail e começavam a ver as peças de que estávamos a falar, aí já a percepção mudou em relação à arte africana.”

Totalmente financiada pelo privado e sem ajuda do Estado, a Galeria African Arte Lisboa faz exposições temáticas, trazendo aos curiosos um universo estético, mas também didático, onde se privilegia a consciencialização da “verdadeira arte africana” e conhecimento partilhado.

Cerca de 80 por cento das representações da arte africana são dedicados à mulher e à força do feminino

Paulino Semedo

Destes últimos três anos, Paulino destaca a exposição feita no ano passado no Dia da Mãe, dedicada à maternidade e à importância do ser feminino na cultura africana. 

“Dizem que a mulher às vezes não recebe o valor que recebia, porque existem ainda sociedades muito machistas e nós quisemos mostrar o contrário, ou seja, mesmo na representação da arte africana, cerca de 80 por cento das representações da arte africana são dedicadas à mulher e à força do feminino”, explica.

Fora as exposições, a programação da galeria é simples. É-se guiado, enquanto pequenas histórias sobre algumas peças são contadas.  “Infelizmente, não é fácil assim encontrarmos boas referências bibliografias que falem da arte africana. Existem muitos livros, só que os livros, por norma, têm fotografias e depois só o nome das peças, não têm o conteúdo. Estamos atrás do conteúdo para enriquecer os visitantes que cá vêm”, explica. 

Se o próprio Picasso se inspirou na arte africana para ser o Picasso significa que a arte africana tem um valor enorme

Paulino Semedo

A galeria recebe pessoas desde a idade da pré-primária até à casa dos 90 anos e Paulino diz que fica contente quando vê uma criança dentro do estabelecimento. Principalmente quando se trata de “uma criança africana, porque aquilo que fui constatando nos últimos anos é que, lá está, quando se trata da própria cultura, a nossa cultura passa um pouco despercebida para nós”, lamenta. 

Um outro grande objetivo dos fundadores do espaço, prossegue Paulino, é ter mais pessoas do continente africano como visitantes para que as suas experiências sejam contadas e ouvidas, “porque lá está todas as pessoas têm as suas próprias experiências em relação à arte que vive no seu próprio país e é bom também existir essa troca de experiências.”

“Será que temos medo da nossa cultura, será que não conhecemos o verdadeiro valor da nossa cultura?” São questões que chegam à superfície quando se fala “da percentagem muito reduzida” de visitantes africanos. Paulino acredita que a cultura africana tem de ser mais valorizada, porque “se o próprio Picasso se inspirou na arte africana para ser o Picasso significa que a arte africana tem um valor enorme.” 

Paulino é um entusiasta da arte em si e continua a ir a bibliotecas, museus, galerias e falar com colecionadores que já colecionam há décadas, com o objetivo de consolidar o seu conhecimento para que depois o possa partilhar com os outros. Quando questionado sobre que peça de arte ou artista acha que todos deveríamos conhecer, a título pessoal, diz gostar de Pilar Toguna, do edifício Toguna do povo Dogon da região do Mali, pois “têm uma representação forte e o próprio edifício toguna também tem o seu porquê de existir, mas isso é algo que depois poderão vir cá à galeria que eu explico”, afirma, rindo.

Na galeria, está agora a decorrer a exposição “África e as suas Riquezas” e o que a galeria pretende mostrar é que existem diferentes tipos de riqueza quando se fala da cultura africana, desde terracota, colares às “máscaras, estátuas, tecidos – que, às vezes, passam despercebidos. África tem tecidos lindos, por exemplo, pano di terra de Cabo-verde, o pano de Kuba da República Democrática do Congo, o pano Kente do Gana, o pano bogolan do Mali”, explica.

Na agenda de 2022, para além desta exposição mais alargada no tempo permite que “as pessoas venham sem receio daquilo que estamos a ultrapassar agora”, a Galeria African Arte Lisboa pretende fazer um evento no dia de África e “o resto é segredo.”

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