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Ghoya | ©BANTUMEN
Ghoya | ©BANTUMEN

Na prisão ”a tua humanidade é corrompida todos os dias”, Ghoya

Tal como indica a sua definição, “o conceito de justiça teve a sua origem no termo latino iustitĭa e refere-se a uma das quatro virtudes cardinais (ou cardeais), aquela que é uma constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido”. Ou seja, a justiça é aquilo que se deve fazer de acordo com o direito, a razão e a equidade. Por outro lado, a justiça refere-se ao Poder Judicial e à pena ou ao castigo público. Desta forma, quando a sociedade ‘pede justiça’ perante um crime, o que faz é pedir ao Estado que garanta que o crime seja julgado e castigado com a pena merecida, de acordo com a lei vigente”. Contudo, será que a justiça é algo linear e aplicado a todos na mesma forma e medida?

Foi em torno desta questão que aconteceu a entrevista a Bruno Furtado, mais conhecido no mundo do rap como Ghoya. Atualmente, envolvido em projetos socioculturais, movimentos ativistas e na finalização do seu próximo álbum, o rapper permite-se falar de Justiça, de uma perspetiva pessoal – porque num dado momento da sua vida teve de lidar com os meandros do sistema judicial português – e de um ponto de vista coletivo, considerando as experiências e vivências que observa e vão-lhe chegando aos ouvidos.

Undi justiça, qual justiça, sa ta caga pa justiça / Juventudi perdido na cadia, kela kes si justiça

Ghoya – Oto Lado Lei

A melhor forma de analisar a desigualdade existente no seio da justiça portuguesa em relação à comunidade afrodescendente é através da análise de estatísticas – embora as existentes não revelem qualquer informação étnico-racial. De acordo com os dados de 2016 da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, a proporção de cidadãos nacionais (afrodescendentes incluídos) encarcerados era de 1 em cada 736, contra 1 em cada 73 cidadãos com nacionalidade dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

O reflexo desse sistema desigualitário, fecundado pela discriminação racial, está exposto nas lyrics do hip hop, o género musical onde o microfone serve de confessionário de uma realidade que está à vista de todos mas que a maioria finge não ver.

A citação em destaque faz parte da música “Oto Lado Lei”, de Ghoya, lançada há mais de 13 anos. Traduzido do crioulo de Cabo Verde para português significa: “onde está a justiça, qual justiça, eu estou-me a cagar para a justiça/ juventude perdida na cadeia, é essa a justiça deles”. É um desabafo empurrado pela descrença numa Constituição que, afinal, foi formada com base “na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”

“Se reparares, [nessa letra] começo com uma pergunta: ‘undi justiça?’ e depois volto a perguntar mas já do outro lado ‘qual justiça?’. Depois afirmo, a justiça para nós é quase inexistente, porque a justiça é uma cena tendenciosa e discriminatória quando devia ser algo que equilibra, de parte a parte. A justiça em Portugal não é cega e nem é surda, ela tem um lado”, explicou.

Sobre abuso policial, Ghoya acrescentou que nessas situações é difícil levantar-se. “É difícil [levantar-me]. Porque nós, como homens pretos, temos dois lados: o homem e depois o homem preto, e não dá para desassociar dessa cena, é complicado (…) tentas não te focar tanto nisso mas depois levas com aquilo [violência policial] e derruba aquele muro que construíste para não te magoares. Estamos muito zangados e eu não quero estar zangado. Foi bué difícil recuperar mano, não passou, mas estamos aí.”

Entre as várias consequências individuais e coletivas que advêm destas questões sociais que mancham as noções de democracia, destacam-se os traumas. Abordar temas relacionados à saúde mental dentro da comunidade negra é uma das primeiras etapas para a normalização de um tratamento desse foro. Contudo, o tabu continua a falar mais alto.

“Ainda não se fala muito quando o assunto é de foro psicológico e psíquico. Normalmente, associam a cenas que tenham a ver com Deus ou algum tipo de magia, ou as pessoas são consideradas malucas. Não tem nada a ver. Estamos apenas a ver de uma perspetiva errada. A explicação está ligada à história e à ancestralidade. “São coisas em que se precisa de apoio, por serem questões psicológicas. E depois é também muito associado ao álcool e drogas. Se tivermos algum problema desse género, há sempre um culpado e achamos que é uma cena bué normal”, explicou Ghoya.

“Tem que existir uma ajuda, mas aí já entra a parte financeira desses tratamentos, dos apoios e das faltas de apoio que existem para que isso possa acontecer e ser uma realidade. Nós bem sabemos que, no nosso país, os tratamentos para os psicólogos e psiquiatras são caríssimos. Felizmente, temos pessoas que ainda estão no campo a trabalhar e têm noção disso. Disponibilizam o seu tempo, as suas competências para ajudar o máximo que podem essas comunidades, mas é preciso um esforço e investimento maior, seja financeiro ou humano”, acrescentou.

Dentro dessa temática, a última música de Ghoya, “Erranti”, acaba por ser um desabafo e uma busca por uma força interior. É uma conversa entre ele e a divindade, seja ela qual for. Ali, confessa as suas dúvidas e despe-se delas.

A música foi criada antes de Ghoya ir preso – há mais de 10 anos –  e não chegou a fazer parte do álbum 1 Vida So Ka Ta Txiga. Não há praticamente nada que o rapper tenha escrito até agora que seja recente. E mesmo assim, muitas das suas músicas antigas acabam por refletir a realidade de hoje. O “Erranti” é um exemplo disso, do que “o meu raciocínio não foi à toa e é gratificante. Tenho coisas novas com a mesma linhagem mas com um pensamento mais de agora, talvez com outra profundidade e seriedade”.

Agora, o artista consegue fazer uma avaliação de si mesmo, sobre o Ghoya antes e depois de ser preso. “Hoje consigo dissecar melhor variadas questões, que nem sempre é fácil. Nós temos muita tendência para criarmos idealismos e agarramo-nos a eles. É muito importante sermos convictos mas não sermos idealistas. Quando és assim, isso só pode trazer inflexibilidade e não estarás disposto a outras opiniões e outras formas de pensar. Isso é das coisas que mais mudou em mim. Embora continue com o coração na boca e seja muito de sentir, acho que agora tenho mais facilidade em sentar-me à mesa com um gajo que já esteja num outro polo, e sem problemas”.

Ghoya conclui ainda que era “muito mais radical, com a idade, experiência e vivência e tu estando preso não tem como mudar, são coisas que tens de aprimorar, senão, não tem como não saíres de lá [prisão] um monstro, porque a tua humanidade é corrompida todos os dias”.

Depois de ter apresentado novos temas, bem como os clássicos, na sala do Village Underground Lisboa, no passado 25 de março e com concertos marcados para o mês corrente, Ghoya quer focar as suas energias em terminar o álbum.

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