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Grada Kilomba
Grada Kilomba by Nina Raasch for FriendsofFriends FreundevonFreunden Magazin

Carta Aberta: Grada Kilomba e a Bienal de Veneza 2022

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A 7 de dezembro, o curador Bruno Leitão partilhou uma carta aberta revelando que o processo de decisão da DGArtes (Direção Geral das Artes), que atua como Júri de Seleção Portuguesa da Bienal de Veneza, foi marcado por incoerências e irregularidades graves nos critérios de avaliação, bem como violações explícitas dos “Deveres do Júri”, que são definidos por lei. Esta notícia, no entanto, tornou-se pública, através da imprensa internacional, que revelou o facto de o projeto A Ferida / The Wound da artista Grada Kilomba ter sido afastado da representação de Portugal na Bienal de Veneza 2022, com argumentos deveras problemáticos por parte de um dos membros do júri, Nuno Crespo, crítico de arte no jornal Público, Director da Escola das Artes e Reitor da Universidade Católica Portuguesa – Porto.

Nessa carta aberta, o curador tornou público que esse membro do júri atribuiu uma pontuação incompreensível à sua candidata, atribuindo-lhe uma classificação de 10, 10 e 15 pontos (numa escala de zero a vinte), em flagrante discrepância com os outros elementos do júri, que atribuíram notas entre 19, 20 e 20. Crespo deu a pontuação mais baixa dada a qualquer uma das quatro propostas apresentadas.

O sistema de avaliação permite que, em má-fé, um único membro do júri, ao dar uma nota exageradamente baixa, decida intencionalmente quem ganha e quem perde, anulando as notas dos restantes membros do júri. Parece também de grande importância referir que a comissão foi composta por quatro pessoas brancas, e entre elas três mulheres e um homem, Nuno Crespo, deixando-nos com a complexidade das estruturas patriarcais e coloniais do sistema. Estas revelam-se quando, pela primeira vez desde sempre, Portugal tem mulheres negras internacionalmente reconhecidas como artistas candidatas (Grada Kilomba e Mónica de Miranda) e curadora (Paula Nascimento) mas seleciona novamente uma representação branca para o pavilhão.

A aberrante diferença entre as pontuações atribuídas inviabilizou automaticamente o sucesso da candidatura de Grada Kilomba. Apesar de ter sido classificada pelas restantes juradas com notas máximas (19 e 20 valores) em todos os critérios de avaliação, nada haveria a fazer. Ou seja, um só membro do júri decidiu pelo colégio. Para além da votação feita de maneira a eliminar esta candidatura de forma premeditada, acrescem as afirmações graves de Nuno Crespo para justificar a sua pontuação, como: “(…) a ideia de racismo como ferida aberta foi já objeto de inúmeras outras abordagens; de modo que a proposta apresentada não deixa perceber como numa exposição poderá rever, criticar ou prolongar, essa ideia tão já discutida e mesmo exibida de múltiplas formas (…).”
O trabalho da artista Grada Kilomba com o curador Bruno Leitão é complexo, singular e visionário e no entanto é aqui reduzido apenas a uma palavra: “racismo”. Esta é uma técnica que reduz artistas da diáspora africana a um único tema, obviando a interseccionalidade e futurismo das vozes artísticas diaspóricas. A obra A Ferida explora as “três crises” contemporâneas por meio de uma ópera performance exibida numa instalação de vídeo imersiva: a crise dos direitos humanos, a crise climática, e a crescente militarização das relações humanas.

A tese de que os problemas do racismo e dos legados coloniais já foram demasiado debatidos e de que não é, portanto, pertinente continuar a falar sobre estes assuntos é falsa e revela uma forte convicção anti-antirracista por parte deste membro do júri. Trata-se de uma pessoa que exerce o seu poder, sem escrúpulos, para tentar silenciar um debate urgente na sociedade portuguesa. A discussão sobre a nossa condição pós-colonial é imprescindível sobretudo quando protagonizada por pessoas racializadas, o que tem acontecido apenas nos últimos anos e mesmo assim de forma que podemos considerar esporádica. Lembramos que as chamadas “descobertas” têm 500 anos, que a escravatura durou centenas de anos e que o colonialismo português enquanto sistema político acabou há pouco mais de 40 anos – tudo isto nunca foi devidamente discutido em Portugal. A narrativa lusotropicalista convertida em ideologia hegemónica continua a impedir um debate sério sobre os racismos estrutural e institucional vigentes no país, impossibilitando o combate efetivo a estes fenómenos.

A presença de Grada Kilomba no espaço público português contraria o discurso ainda muito presente de que não há racismo em Portugal, de que o colonialismo português foi benigno e põe em causa também toda a naturalização do racismo quotidiano. A narrativa de que se fala demais sobre o tema do racismo e dos legados coloniais é própria dos setores conservadores da sociedade que querem manter tudo como está – o argumento da “saturação” esconde a falta de iniciativas consistentes para combater as violências sofridas por comunidades racializadas. Narrativa similar não se verifica em dicussões sobre obras de arte que discutem, por exemplo, fenómenos como Holocausto Nazi, debatido desde 1945, mas onde ainda se considera haver matéria para reflexão e aprendizagem.

O jurado tem o cuidado de distinguir a equipa técnica que apresenta a candidatura da artista, dizendo: “(…) ainda que a equipa técnica e artística seja competente, o mérito artístico da artista Grada Kilomba (…) não é satisfatório.” Os preconceitos racistas e misóginos de Nuno Crespo tornam-se evidentes nesta afirmação injustificada. Dizer que o mérito artístico de Grada Kilomba não é satisfatório, seria risível noutro contexto. No quadro em questão é desolador. Trata-se ‘apenas’ de uma das mais reconhecidas artistas da cena artística contemporânea. É verdade que o jurado tem o direito de considerar que a artista não tem mérito artístico, mas nesse caso, terá que justificar a sua afirmação; fundamentar criticamente a sua votação por forma a garantir que é na base do seu conhecimento sobre arte que considera esta proposta insuficiente. A forma como apenas declara a sua opinião não é satisfatória.

Nuno Crespo diz ainda que, “Grada Kilomba é uma brilhante escritora e pensadora, e são inegáveis as suas competências em termos da famosa ‘narrativa oral’, contudo enquanto proposta expositiva, o projeto apresentado não possui o alcance artístico que, a meu ver, a representação oficial tem obrigatoriamente de possuir (…).”
São de facto inegáveis as competências intelectuais de Grada Kilomba, autora do livro “Memórias da Plantação: episódios de racismo quotidiano”, publicado em 2008 (Unrast Verlag), originalmente em inglês e depois traduzido e publicado em diversas línguas, ainda antes de ser publicado em Portugal, o que aconteceu apenas em 2019 (Orfeu Negro). Este atraso, de mais de dez anos, na publicação em Portugal de uma obra considerada fundamental por uma grande parte da academia contemporânea, é sintomático do desprezo a que tem sido votada a discussão decolonial no nosso país. Referimos esta obra porque deve ser a ela que Nuno Crespo se refere quando escreve “famosa ‘narrativa oral’”. O que quer o jurado dizer com isto? Porque coloca narrativa oral entre aspas? Porque restringe o pensamento de Grada Kilomba aos “termos da famosa ‘narrativa oral’”? O jurado quer circunscrever a intelectual a um campo do conhecimento ao qual ele não reconhece valor. O jurado quer desprestigiar a artista, encapotando o seu desprezo no artifício de um falso elogio à intelectual.

Contudo, a ignorância de Nuno Crespo não fica por aqui e afirma que o trabalho de Grada Kilomba “(…) não está comprometido com a dinamização e internacionalização da ‘cena’ artística e cultural portuguesa.” Uma breve pesquisa no Google evitaria ao jurado a vergonha de revelar tanta ignorância sobre um assunto em que se diz especialista e numa situação em que lhe é pedida a sua expertise. Grada Kilomba é uma artista contemporânea portuguesa internacionalizada e que, desse modo, marca de forma indelével a internacionalização da cena artística portuguesa. Se as inúmeras exposições de trabalhos da artista em instituições prestigiadas ao redor do mundo não fossem suficientes, o artigo que o New York Times lhe dedicou a 12 de outubro deste ano, Grada Kilomba’s Rituals of Resistance seria a confirmação do que dizemos.

É importante sublinhar novamente que o colonialismo não é algo que ficou no passado mas que se manifesta na forma de colonialidade, um processo cujas estruturas (económicas, mentais, sociais) criadas durante o colonialismo continuam a fazer-se sentir na forma como as nossas sociedades distribuem de forma diferencial benefícios e encargos, como a manifesta divisão racial entre aqueles que a lei protege, mas não vincula e aqueles que a lei vincula, mas não protege. Deste modo, quando falamos de racismo estrutural, institucional e quotidiano falamos de um sistema construído socialmente ao longo do tempo por forma a colocar as pessoas brancas no topo de uma pirâmide social cujos benefícios são tanto materiais quanto imateriais. Nestes últimos, destaca-se, para a questão que aqui nos traz, a valorização simbólica: as pessoas da diáspora africana como Grada Kilomba não são percebidas socialmente como grandes intelectuais e grandes artistas a nível nacional.

Os exemplos do que dizemos multiplicam-se: o sociólogo e artista Rodrigo Saturnino foi apagado do debate online “Activismo Gráfico — O território da edição como espaço de afirmação de identidade(s)”, realizado no âmbito da Feira Gráfica por questionar a falta de representatividade negra numa determinada criação artística (episódio que foi reconhecido como crime da/pela Câmara Municipal de Lisboa); a coreógrafa e professora Vânia Gala foi afastada num concurso para docência numa instituição pública de Ensino Superior Portuguesa “por ser um módulo para coreógrafas portuguesas”. O mesmo vem acontecendo na Academia portuguesa em que a investigação e a produção científica de alguns candidatos, que até são docentes (como a professora e ensaísta Inocência Mata), são destituídas de pertinência para a área em que laboram devido a uma visão ainda colonial do que é Portugal, a sua reificada identidade e a sua produção cultural. A lista de exemplos poderia continuar, mas tememos que esta carta fique longa para os propósitos que nos dinamizam.

Tudo isto é dizer que o racismo e a misoginia estão impregnados nas decisões que quotidianamente os indivíduos tomam, confirmando os sistemas, estruturas e por consequência as políticas institucionais.
Reivindicamos que os júris – conjunto de especialistas – deste e de outros concursos onde esteja em causa a representação de Portugal sejam doravante constituídos de forma a representar a diversidade étnico-racial-cultural do povo português.

Queremos declarar a nossa incondicional solidariedade com a artista Grada Kilomba, que foi eliminada até ao momento no processo ainda em curso da representação de Portugal na Bienal de Veneza 2022, através de uma avaliação grosseira, ignorante, misógina e racista da sua obra e da própria artista, possibilitada também pela falta de capacidade do órgão governamental responsável, a DGARTES no caso, de reconhecer e prevenir dolo.
Apoiamos o recurso hierárquico submetido pelo curador Bruno Leitão e exigimos uma revisão da avaliação deste concurso justa, fundamentada e transparente.

São subscritores desta carta:
Afrolink
Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu, Portugal Associação ForçAfricana
Coletivo Afrekete
Coletivo Zanele Muholi de Lésbicas e Bissexuais Negras – Lisboa Djass- Associação de Afrodescendentes
Grupo EducAR – Educação Antirracista
Grupo de Teatro do Oprimido
INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal
leve-leve colectivo
NARP – Núcleo Anti-Racista do Porto
O lado negro da Força
Plataforma Geni
Semear o Futuro SOS Racismo Teatro GRIOT
UNA – União Negra das Artes

Alexandre Gamelas, frontend engineer
Anabela Rodrigues, grupo de Teatro do Oprimido

Ana Balona de Oliveira, historiadora de arte e curadora
Ana Cristina Pereira (Kitty Furtado), investigadora (CES – Universidade de Coimbra)
Ana Paula Costa, Plataforma Geni
Ana Tica, animadora sociocultural, realizadora
Barbara Gois
Bruno Sena Martins, investigador (CES – Universidade de Coimbra)
Carolina Elis
Cátia Severino, investigadora
Cláudia Semedo, actriz
Cleo Diára
Cristina Roldão, socióloga e professora do Instituto Politécnico de Setúbal
Danilo Cardoso, arte-educador, investigador e poeta
Di Candido, Artista e Investigador
Dori Nigro, artista e investigador
Dusty Whistles, Artist and Activist
Evalina Gomes Dias, fundadora e presidente da Djass-Associação de Afrodescendentes
Flávia Palladino, pesquisadora e sócia do SOS Racismo
Gessica Borges
Geanine Escobar, investigadora e co-fundadora do Coletivo Zanele Muholi de Lésbicas e Bissexuais Negras – Lisboa
Gisela Casimiro, escritora e artista

Inês Amaral, professora da Universidade de Coimbra Inês Beleza Barreiros, historiadora de arte
Inocência Mata, professora e ensaísta
Irene Pinto, técnica de desenvolvimento comunitário Irina Leite Velho
Isabél Zuaa, atriz
José Falcão, dirigente do SOS Racismo José Semedo, Professor/Treinador
Joseph da Silva, dirigente do SOS Racismo
Kalaf Epalanga, escritor e músico Kristin Bethge, fotógrafa
Libânia Fernandes Cá
Lucas Reis
Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo
Maria do Carmo Piçarra, investigadora e professora universitária (ICNOVA-FCSH/UAL) Mário Paris Inocêncio
Marta Pinto Machado
Melissa Rodrigues, artista e arte-educadora
Myriam Taylor (MUXIMA)

Nádia Yracema
Olívio Pereira, gestor

Paola Rodrigues, artista e curadora
Paula Cardoso, fundadora da plataforma Afrolink
Paula Machava – Doutoranda em Estudos Feministas (CES – Universidade de Coimbra). Assistente Universitária- Universidade

Lúrio
Paulo Gamelas, gestor
Paulo Maurício Dias, psicólogo clínico e sócio fundador da Djass
Paulo Pascoal
Paulo Taylor (PT Soft)
Pedro Pereira, professor universitário
Pedro Varela
Piny – performer, coreógrafa, professora, ativista
Priscilla Domingos – Coletivo Afrekete
Raquel Lima, poeta e investigadora
Rita Cássia Silva – antropóloga, artista multidisciplinar, ativista DH

Rodrigo Ribeiro Saturnino
Theo Eshetu, visual Artist
Vânia Doutel Vaz
Vânia Gala, professora, coreógrafa
Welket Bungué, artista transdisciplinar

Apoiam esta carta:
Ana Teixeira Pinto, professora do DAI (Dutch Art Institute) e AdBK Nürnberg
Anna Boghiguian, Artist
Anselm Franke, Head of Visual Arts, Haus der Kulturen der Welt Berlin
Antonia Alampi, curator
Beatriz Gomes Dias, Deputada e Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa
Boaventura de Sousa Santos, Professor at the Faculty of Economics at the University of Coimbra, Coimbra
Candice Breitz, Artist, Johannesburg, Berlin
Catherine Wood, Senior Curator at Tate Modern, London
Charles Esche, Professeur and Directeur Van Abbemuseum
Denise Ferreira da Silva, Academic and Artist
Djamila Ribeiro, Writer and Activist, São Paulo
Ekua Yankah, Chair of the board Savvy Friends e.V., advisory board member ANO Ghana
Emily Wardill, Artist
Françoise Vergès, political theorist, antiracist feminist
Gaëtane Verna, Director – The Power Plant, Toronto
Heidi Ballet
Jochen Volz, Artistic Director at Pinacoteca de São Paulo, São Paulo Johanne Affricot, Artistic Director at Griot Magazine, Rome

John Romão, Artistic Director at BoCa – Biennial of Contemporary Art, Lisbon
Julia Bryan-Wilson, University of California, Berkeley and Museu de Arte de São Paulo
Jumana Manna, Artist, Berlin
Kader Attia, Artist
Kristina Leno, Artist, Berlin, Zagreb
Leonor Antunes, Artista
María Berríos, independent curator
Moses Leo, Actor at Maxim Gorki Theatre, Berlin
Nana Oforiatta Ayim, director ANO Ghana and curator of the Ghanian pavilion in Venice
Nash Caldera, Artist
Norman Ajari, Lecturer in Francophone Black Studies, University of Edinburgh Oier Etxeberria, head of contemporary art department, Tabakalera
Rasha Salti, Curator
Ruth Estévez, Artistic Director at the Amant Art Foundation, New York Shermin Langhoff, Artistic Director at the Maxim Gorki Theatre, Berlin
Tamar Guimarães, visual artist
Tamsin Hong, Assistant Curator at Tate Modern, London
Valentine Umansky, Curator at Tate Modern, London
Vasco dos Reis Ferreira
Vila Kirchenbauer, Artist, Berlin

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