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Hutu Casting: Ressignificar o mundo da moda e da publicidade

A Hutu Casting, fundada por Regina Ferreira, é uma agência de modelos brasileira que tem como objetivo principal reintegrar e ressignificar o mercado da moda e da publicidade no Brasil. Nesta entrevista, Regina Ferreira partilha a sua trajetória pessoal e as motivações por trás da criação da agência Hutu Casting; as ações realizadas pela agência para promover o avanço social de profissionais negros e negras, bem como as perspetivas de crescimento futuro e a importância da representatividade no contexto sociocultural brasileiro.

Regina Ferreira decidiu criar a Hutu Casting num momento de incómodo com a falta de profissionais negros no mercado de trabalho e de reflexão sobre o seu próprio futuro em São Paulo. A sua experiência anterior, como modelo e produtora de eventos, levou-a a procurar algo que pudesse ser o seu próprio negócio, onde pudesse prosperar e trazer consigo pessoas negras, independentemente de género, idade e biótipo. A vontade de mudar a realidade à sua volta, aliada à conexão com a moda e o conhecimento da área de eventos, impulsionaram a sua decisão empreendedora.

Inspiração e Nome da Agência


Regina Ferreira encontra inspiração diária em sua mãe e nas mulheres negras ao seu redor, que a motivam a empreender mesmo diante das dificuldades. Sua inspiração também foi alimentada pelo desejo de mudar a falta de representação e apoio que sentia nas poucas agências em que esteve envolvida. O nome Hutu Casting foi escolhido após uma cuidadosa pesquisa e reflexão.

A escolha do nome foi algo que fez com que a Hutu demorasse para sair do papel, pois queria que o nome tivesse conexão com o propósito da agência. “Acho que levei meses, talvez ano, matutando qual seria o nome. Até que assistindo à série “Black Earth Rising”, com a Michaela Coel e onde ela investigava crimes de guerra em África, ouvi algo sobre os Tutsis. Fui pesquisar e vi a história do genocídio em Ruanda, onde havia os Hutus, na hora me veio na cabeça Hutu Casting. Mas quis pesquisar sobre antes, porém só encontrei matérias escritas por jornalistas brancos, colocando os Ruandeses como um povo violento. Então tirei essa dúvida com o Veny Santos, que é escritor, sociólogo, jornalista e pesquisou e traduziu a história de jornalistas pretos. Nesse momento ele me confirmou sobre o genocídio mas enfatizou que essa guerra se deu após a entrada dos brancos com a estratégia ainda atual de, dividir para dominar. Acredito que, se não fosse a entrada dos brancos lá, esses grupos étnicos teriam seguido sua vida cada um em seu território”, indica.

A escolha do nome reflete assim o objetivo da Hutu Casting de inclusão de todas as tonalidades de pele negra, reconhecendo as questões de colorismo no Brasil. “É um assunto que estamos buscando aprender e aprofundar cada vez mais, pois, quando falo de inclusão de pessoas pretas, penso em todos os tons mesmo sabendo como o mercado vê pessoas pretas de pele clara. A ideia é nunca excluir de nenhuma forma, mas entender a demanda para apresentar um casting diverso”, afirma.

No momento da entrevista, a Hutu Casting estava passando por uma reformulação interna e cadastrando apenas pessoas com deficiência (PCD), mulheres e homens transgêneros, pessoas não binárias (NB) e pessoas mais velhas. Para serem agenciadass, as pessoas interessadas precisam preencher um formulário online fornecendo informações, fotos e medidas necessárias para a elaboração do contrato. A agência orienta os candidatos a tirarem fotos polaroid em casa, sem edições ou filtros, mas também oferece a possibilidade de fazer as fotos na própria agência, quando necessário.

Regina Ferreira destaca que, embora inicialmente as marcas buscassem a Hutu Casting apenas num contexto de “temática afro ou diversidade”, essa realidade está a mudar. A agência tem trabalhado para reforçar a qualidade profissional do seu casting, mostrando que os modelos que representa são capazes de atuar em diversas temáticas, não se limitando apenas a questões relacionadas à afrodescendência. “Isso tem mudado um pouco, pois desde o começo busquei reforçar que somos bons profissionais podendo atuar/trabalhar em muitas temáticas”, reforça Regina. A Hutu Casting procura sobretudo mostrar que os seus profissionais são talentosos e competentes em diferentes contextos, contribuindo para ampliar a visibilidade e oportunidades para os modelos negros.

Regina Ferreira acredita que, desde a sua chegada a São Paulo, há 12 anos, houve mudanças significativas no mercado da moda e da publicidade, e a Hutu Casting tem desempenhado um papel importante nesse processo. “Acho que as mudanças ainda caminham lentamente. Temos muita dificuldade em aprovar agenciades trans, não bináries, gordas e PCD. Isso também dá-se pelas burocracias vindas das semanas de moda, que exigem gastos dos modelos que nem sempre tem condições, é necessário viabilizar o acesso considerando os atravessamentos diários do povo preto no Brasil”.

Temos muitas e muitos artistas pretos que não conseguem nem sequer tentar

Regina Ferreira

Quando questionada sobre a representação da população negra na moda, publicidade, artes e contexto sociocultural de maneira geral, Regina responde que, de forma geral, a representatividade tem avançado lentamente. Embora haja muitos artistas negros talentosos, muitos deles enfrentam dificuldades para conseguir oportunidades e acesso. “Temos muitas e muitos artistas pretos que não conseguem nem sequer tentar, somos muitos e tem muita coisa rolando aqui também mas acaba muitas vezes entrando sempre a mesma galera, por conta das poucas oportunidades e acesso.”

Para tentar contornar essa deficiências – por vezes conscientes – da indústria, a Hutu Casting realiza diversas ações para fomentar o avanço social de profissionais negros. Além de orientar o seu elenco por meio de webinars sobre o funcionamento do mundo da publicidade e os direitos e deveres dos modelos – com o apoio de Thais Pereira, responsável do apoio jurídico da Hutu, e de Raillane Guimarães, que integra o projeto praticamente desde a sua fundação, sobre questões ligadas à imagem e maquiagem – a agência também promove o “Mutirão de Fotos”. Essa iniciativa foi criada para ajudar modelos que não têm condições financeiras de custear um book profissional. Inicialmente gratuito, o Mutirão de Fotos agora é realizado com baixo custo, visando proporcionar aos modelos um material de qualidade que seja um bom cartão de visitas para participar de seleções.

Depois de vários contatos que apontam nessa direção, Regina Ferreira revela que a Hutu Casting planeia ampliar a sua atuação para outros estados e, possivelmente, além do Brasil.

Em resumo, a história e o trabalho da Hutu Casting, sob a liderança de Regina Ferreira, são exemplos inspiradores de empreendedorismo e luta pela representatividade negra no mercado da moda, publicidade e artes. A agência busca redefinir padrões e abrir portas para profissionais negros, promovendo a inclusão e ressignificando a forma como a sociedade observa a beleza e o talento da população negra.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para [email protected].

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