Itary: “A minha essência é o rap. Sou rapper”

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Itary faz parte do leque de jovens que terminam os estudos para “oferecer” o diploma aos pais. Para os angolanos, especialmente, a formação académica é o Santo Graal da existência da sua prole, independentemente do curso que a vida levar a seguir.

Assim que termina a formatura, a liberdade de dar azo às suas próprias vontades e paixões é como inspirar oxigénio pela primeira vez. Foi o que aconteceu a Itary, a nova promessa do music hall angolano.

A ligação com a música existe desde sempre. Enquanto bebé, “a minha mãe conta que eu só adormecia com a música alta, bem alta mesmo. Se baixassem ou desligassem eu acordava”, relembrou. Mais tarde, se era motivada pela mãe a cantar – esta ofereceu-lhe um pequeno rádio de brincar com um microfone integrado -, Itary, motivada pela vergonha, preferia não expor os seus dotes vocais em público, nem mesmo entre a família. Mais tarde, os dotes artísticos continuaram a ser um segredo “público”, afinal poucos conseguem a proeza de esconder as suas habilidades de uma mãe.

Com cinco anos, a viver em Portugal e a estudar numa escola onde “era a única criança negra de pele escura”, ganhou uma medalha de ouro de dança e um primeiro lugar em canto.

Já em Luanda, vários anos mais tarde, foi através do rapper Look Cem que percebeu que poderia explorar o talento que já acusava na altura. “O Look sentia que eu tinha potencial mesmo ele não me tendo ouvido. Só sabia que eu gostava muito de música”, disse. O convite para colaborar num single surgiu naturalmente e foi aí que “ele disse logo ‘tu tens muito estilo e vais aprender a cantar bem porque sei que gostas. Tu ainda serás uma estrela, nota-se que nasceste para brilhar'”, recordou a cantora.

Itary | DR

Fui a única mulher no meu meio que teve coragem de seguir o mesmo caminho

Itary

As palavras vieram acompanhadas de um rasgo de confiança e destemor e Itary contou aos pais que queria ser artista. A reação não foi, obviamente, a esperada. “Contei sobre o que realmente gostava aos meus pais e eles proibiram-me de seguir porque tinha de focar-me única e exclusivamente nos estudos. Fiquei triste mas não os desobedeci. Deixei de parte a música. Com o passar do tempo, parece que a música chamava por mim do tipo ‘deste um tempo mas não desistas’, até porque eu estava rodeada de colegas músicos”.

Sendo a adolescência uma das fases mais intempestivas ao longo do nosso crescimento, a repressão acabou por criar uma espécie de revolta interior. “Tornei-me uma adolescente tímida e agressiva, punha várias vezes os fones de ouvido a tocar e ficava no meu mundo”, explicou.

E assim, a jovem começou a compor. Mostrava aos amigos rappers e eles achavam-na “fraquinha”, mas davam dicas para melhorar. “Fui a única mulher no meu meio que teve coragem de seguir o mesmo caminho [que os amigos] sabendo das diversas consequências. Sempre adorei desafios”, exaltou Itary.

Os amigos de que tanto fala são os Mobbers, um dos grupos de maior popularidade em Angola.

Entretanto, os deveres académicos tinham de ser prioridade, por imposição dos pais. “Fui para a universidade e foquei-me. Eu já sabia o que queria seguir de facto além da formação. Era a música. Então decidi leva-la como um hobby e assim que terminei a universidade disse ‘chega, serei cantora”, relembrou.

Quando deu o primeiro passo, ninguém acreditou que pudesse vingar. Contudo, depois de ter regressado a Luanda, depois de uma viagem à Cidade do Cabo, na África dos Sul, os olhares e julgamentos dos outros mudaram. Foi lá que conheceu Oriana Cebolo, uma amiga e parceira até hoje, que também gostava de cantar. “Eu só precisava de alguém comigo para mostrar ao mundo a minha musicalidade, então fizemos um projecto juntas e as pessoas começaram a reparar em nós”. Já na capital angolana, “fizemos mini shows em Luanda e foi aí que um amigo, o rapper Enock Arrastão, decidiu dar-nos uma chance na sua produtora, a CombinaSons Records. Depois, a Oriana teve de voltar para Cape Town onde estudava e eu segui em frente. Assim que vi que estava em boas mãos, aí sim comecei a trabalhar de verdade na música.

Nessa nova jornada, conheceu Sarissari, que a convidou a integrar a sua produtora, a HeyHeyHeyy. Itary ressalta a responsabilidade e comprometimento que Sari demonstrou na gestão da sua carreira. “A nossa relação de amizade é muito fixe. O Sari é dos poucos do mundo artístico que chegou a conhecer a minha família. Por mais que tenha hesitado por não gostar de misturar os mundos, ele mostrou-se sempre responsável e muito irmão mais velho, desde os conselhos aos ralhetes. O Sarissari tem um coração enorme. Continuamos colegas, amigos e a comunicação flui muito bem. O carinho e respeito mantém-se até hoje”, exprimiu.

Gostávamos muito um do outro mas não nos decidíamos por medos e fases diferentes

Itary

A primeira música a solo de Itary foi “Serei Tua”, que sonoramente cruza-se entre o R&B e o Rap. A faixa faz parte do EP Perfeitas Imperfeições. Esse projeto é essencialmente biográfico. Conta a história de uma atração depois do fim de um relacionamento longo. “Foi num momento muito mau. Tinha-me separado do meu ex-namorado de anos, desde a adolescência à fase adulta, e fui espairecer com uma amiga à praia e vi-lhe. Escondi-me porque estava horrível aparentemente, mas estava de longe a apreciar cada detalhe. Usei as táticas de FBI para o conhecer e, por coincidência, ele era vizinho da amiga que estava comigo. Só descobrimos no primeiro date. Isso inspirou-me a escrever essa música. Gostávamos muito um do outro mas não nos decidíamos por medos e fases diferentes”, explicou.

Depois desse EP, em 2020 participou em “Beijei”, do DJ Hélio Baiano e que se tornou bastante popular em Angola, e não só. “Lançou-me para um mercado mais amplo. Sou muito grata a todos os artistas envolvidos nesse projeto e de facto foi o maior [em que participei] até aqui”. A sublinhar que Itary partilhou o microfone com “aquele que é considerado uma das melhores vozes da atual geração de músicos angolanos, Edgar Domingos”.

Para essa música, apesar do talento para o rap, Itary foi convidada a dar espaço a um tom mais cantado. “Eu tinha de cantar com notas para fazer parte do projecto, aí chegam os grandes produtores, Mallaryah e o Jester Jocker, que já lá estavam, e puseram-me à prova para cantar de verdade. Cheia de medo arrisquei e o Mallaryah gostou muito, deu uma dica ou outra para melhorar e escreveu a minha parte juntamente com o Edgar Domingos”, explicou Itary à BANTUMEN.

Atualmente, a artista integra a Clé Entertainment, dos gémeos Clésio e Clénio Gomes. Já lançou “Pimenta”, com a composição dos bem conhecidos Punidor e Soarito e com o instrumental do produtor do momento, Teo no Beat. A direção artística é do Dj Black Spygo e Punidor.

Baseada nas suas vivências, Itary contou-nos que com o single queria mostrar a sua realidade como pessoa e que, para “motivar mais mulheres” a seguirem as suas vontades, pretende mostrar mais ousadia, sensualidade e atitude.

É na tarraxinha que a artista se tem sentido mais propensa para expressar o que sente, incluindo sempre o seu primeiro amor, o rap. Sem gaguejar, responde que é com esse estilo que mais se identifica. “Considero-me artista num todo. A minha essência em música é o Rap. Sou rapper mas viajo nos demais estilos musicais porque trabalho o meu canto. Dedico-me no aprendizado de outras técnicas vocais para o canto e aplico em vários estilos”, afirmou.

Segura de si, Itary explica porque não se dedica por completo ao rap. Já o fez mas não se destacou nem lucrou, além de ter ouvido “bué de cenas nada a ver”. “Precisaria criar estratégias e adotar mecanismos diferentes para adaptar-me ao país em que estou, bem como á sociedade em que estou inserida”, sublinhou.

Contudo, para este ano, que acredita vir a ser “cheio de prosperidade”, a artista revelou que está a trabalhar para dar a conhecer ao público esse seu lado mais rapper.

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