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O ritual-recital-performático de Jamile Cazumbá em Portugal

Jamile Cazumbá | DR
Jamile Cazumbá | DR

É no palco que Jamile Cazumbá dá espaço para que seu corpo trabalhe a partir da memória celular, que é acessada pelo transe. Esse é um exercício de multilinguagem que se baseia na memória, o estado de hiperconsciência, onde a razão ou a racionalidade tem pouco espaço. “Deixo que essas memórias celulares atuem na sua totalidade”, diz à BANTUMEN.

Essa performance, desenvolvida há quase 6 anos, será feita pela primeira vez em Portugal este sábado, 14, no Hangar, em Lisboa, e dia 20 no Espaço da Mala Voadora, no Porto. Chamada de “Um ritual-recital-performático III ou Um lugar que eu digo saber inventar”, a apresentação da multiartista do bairro da Palestina, em Salvador, na Bahia, é um desdobramento de outras pesquisas que tem feito para transformar perspectivas de morte em vida.

Para isso, usa dados do Mapa da Violência no Brasil, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que retrata uma realidade absurda e cruel: 96% das pessoas que morrem por violência policial na Bahia são negras (pretos e pardos). 

“Eu faço estudos desses gráficos e os transformo em performances. Através deles faço uma pergunta: quais estratégias que eu e nós, pessoas pretas, utilizamos até aqui para nos mantermos vivas, já que a nossa morte é institucionalizada, esperada e está dentro de um lugar político? Também me questiono como eu ainda permaneço viva estando dentro da categoria de subalternidade, a qual facilita a minha desmaterialização deste plano. Aí, eu crio um espaço em que posso habitar, vivo esse espaço através do transe e crio uma língua própria”, afirma.

Até chegar a esse momento de pensar o que faz como arte visual, Jamile fez teatro, trabalhou em profissões diversas e atualmente estuda museologia. Ser atriz era um dos seus objetivos, mas dentro das condições sociais e até familiares pensar em ser artista, principalmente como uma profissão, era um sonho distante. Para chegar até aqui, na busca de realizar o sonho, precisou trilhar caminhos paralelos.

“Eu começo a olhar o meu trabalho de uma forma expandida ainda no teatro, quando eu entro no Coato Coletivo, um grupo que pesquisa teatro e tecnologia e tem como perspectiva pensá-lo através da performance”, observa. “Aí quando saí em 2018, comecei a fazer algo mais autoral pensando na museologia como esse ligamento entre a arte e o que eu estava fazendo. Porém, minha carreira começa mesmo em 2019 quando entro no grupo Práticas Desobedientes, outro grupo baiano que tem como intuito a formação de jovens artistas e corpos dissidentes pensando na perspectiva da prática da arte dentro da liberação e da liberdade cognitiva”. 

De múltiplas tarefas, Cazumbá ainda não tem as artes visuais como única profissão. Para mantê-la, precisa exercer as atividades cênicas, que também se conecta com o que faz no tablado. Toda essa versatilidade poderá ser observada pelos portugueses, os quais ela pretende se conectar.

Nesse ritual-recital-performático, os espectadores vão emergir num tema delicado que tem uma certa necessidade de expansão, de vida. Para isso, Jamile Cazumbá quer entender como vão ser essas trocas práticas, além do contexto histórico em que Brasil e Portugal estão inseridos e saber quais são os outros intercâmbios propostos dentro da insurgência de novos artistas e proposições de pensamentos que precisam ser discutidos, tratados e conversados.

“Estou muito feliz e muito empolgada para saber como é que vai ser esse contato e essa troca. Estou muito curiosa para entender como vai ser a recepção do público. Esse público que tem relação com a arte, que pensa em dissidência, que pensa na possibilidade de existência, que tem essa vontade de troca”, afirma. “Isso só está sendo possível por causa de Isabél Zuaa, que tem acreditado muito no meu trabalho. Pra mim está sendo muito interessante, importante mas, acima de tudo, estou curiosa para entender dentro da performance como o meu corpo deseja se comunicar dentro desse espaço e como esse público deseja se comunicar comigo”.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para [email protected].

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