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MC Cabinda

MC Cabinda: “Dá sim para vender sem teres que te moldar”

MC Cabinda é provavelmente o rapper underground mais mainstream que há em Angola. Esta frase tem tanto de contraditório quanto de assertivo mas é até simples entender o porquê. Cabinda consegue transitar entre os dois movimentos sem estranheza, acumulado lançamentos e colaborações sem que a sua essência artística sofra mutações de adaptação. Com um novo álbum nas ruas, Pau de Cabinda, o artista explicou-nos como aconteceu a produção deste projeto e como está a preparar-se para as suas próximas movimentações dentro da indústria da música.

Com um início de conversa sobre a facilidade com que Francis aka MC Cabinda flui nas duas vertentes do movimento hip hop – o underground e o mainstream, o artista explica que esse exercício é muito mais fácil do que parece. “Eu gosto de ser o artista, de estar no ciclo, no movimento, mas ao mesmo tempo gosto de ser visto. Sempre achei que dá sim para vender sem teres que te moldar. Podes estar na sexta-feira no Bahia [conhecido bar luandense], a cantar com o MCK e sábado estares a viajar com o Big Nelo. Podes estar no Elenco de Luxo e ao mesmo tempo no Team de Sonho”, esclareceu o artista. “O exercício é básico: ser bom e autêntico e ao mesmo tempo usar as mesmas plataformas que os outros gajos usam para ter exposição do teu produto”, acrescentou.

Se, por norma, essa versatilidade não é bem vista pelos seus pares, tanto de um lado como o outro do movimento sempre acolheram Francis, que passou a ser apelidado de mainstream revú [de revolucionário]. “Não há descriminação. Há um bullying bonito. No underground és estrela e no mainstream és revú. Eu acho essa cena satisfatória.”

MC Cabinda

Sobre Pau de Cabinda, surgiu com o próprio rapper a servir de produtor executivo e com algumas letras escritas há pelo menos 14 anos, como é o caso da faixa “Bom dia Angola”. “Tenho bué de letras que não estão propriamente direcionadas para um projeto e que quando ‘tá na bóia, cria-se o beat, fala-se com o producer e tira-se a letra”, disse-nos.

Anna Joyce tem uma rapper dentro dela

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Com uma forte presença no grupo Elenco de Luxo – juntamente com Abdiel, Ready Neutro, Daboless, Xtremo Signo e DJ Soneca -, neste álbum Francis quis separar as águas. O álbum foi pensado para não ter pessoal do Elenco de Luxo porque “temos muitas músicas juntos e basta ter duas músicas juntos e as pessoas direcionam-se logo para aí. E também, o Elenco tem muitas coisas por vir este ano, então quis separar isso”, explicou.

Quanto à produção, o artista foi o produtor executivo mas Smash e Supa Beat também “deram a sua garra”.

Para as participações, a seleção foi natural. “Tenho pessoal meu que não é muito conhecido, que quero ajudar a lançar, e depois tem os convidados. A Anna Joyce tem uma rapper dentro dela, lancei-lhe o desafio para droppar e ela aceitou. O Deezy sou fã e sempre quis trabalhar com ele. Quando fiz o convite foi logo “essa cena tem de acontecer”. O Lil Saint, também sou fã e é meu amigo, ele tinha de estar dentro disso. E o resto é pessoal que “anda comigo, foi tudo natural. A Srta Paola curto da cena dela e também tinha de fazer parte.”

Pau de Cabinda estava pensado para ser lançado há mais tempo, mas o artista quis levar o tempo necessário para se preparar tanto para o lançamento como para arquitetar os seus próximos passos no movimento. Além de estar à frente do mic, Cabinda quer também envolver-se mais nos negócios da música. O lançamento de novos artistas e a distribuição num nível global são o seu novo foco. “Eu só estava a adiar o álbum por causa das empresas de streaming que temos cá [e do contrato que tinha]. Tive de começar a entrar fundo, a investigar mais e a aprender sobre essas cenas e quis fazer contratos, passando a ser eu mesmo a distribuir para as lojas digitais. E vou continuar a fazer o resto. Claro que há algumas coisas que não domino, mas posso passar dez horas a ver matérias, a ver video-aulas e eu tinha mesmo de ser a minha cobaia para depois aplicar com outros artistas”, explanou.

O que o motivou a olhar com mais atenção para a vertente de negócios foi o facto de, de acordo com a sua experiência em Angola, “tudo é muito terceirizado, não muito transparente, mas também [numa esfera global] tens um Tory Lanez a reclamar do mesmo”.

MC Cabinda

Sendo a transparência um dos pilares do seu trabalho, ligou para todos os envolvidos neste seu álbum de estreia para discutir royalties. “É a primeira vez que isso acontece cá. Fiz a distribuição geral de royalties. Foi mesmo share [partilha]”, sublinhou.

Com edição da sua própria label, A Tropa Lab, Pau de Cabinda pode vir a ganhar entretanto um formato físico – visto que em Angola há ainda procura por CDs. São 16 músicas, com várias participações de peso, das quais “Minha Boca Merece” já tem videoclipe disponível no YouTube.

De recordar que, Francis acumula vários prémios e nomeações com destaque de ter sido o mais premiado nos AHHA e no Top Rádio Luanda edição 2017.

Com características singulares , Francis MC Cabinda, ganha notoriedade ao desfilar as suas rimas repletas de trocadilhos e duplo sentidos de deixar de boca em aberto quem o ouve.

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