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Morato Custódio | DR
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“A única forma de mudar Angola de forma profunda é tornando-me Presidente da República”, Morato Custódio

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Morato Custódio é um ser inquieto. A expressão “parar é morrer” assenta-lhe na perfeição e serve-lhe de combustível para as mil e uma atividades que vai empreendendo. Vive com a condição autista, sofre de ansiedade crónica e, talvez por isso, tudo o que faz é planeado milimetricamente. E que não se pense que é apenas mais um visionário que acaba por tornar-se num guru do empreendedorismo das redes sociais. Morato é sobretudo um patriota que quer contribuir, em larga escala, para a melhoria das condições de vida dos angolanos. Depois disso, quer continuar a fazer exatamente o mesmo, na esfera política, como Presidente da República.

Eleito uma das Personalidades Negras Mais Influentes da Lusofonia, pela iniciativa #PowerList100, em 2021, e chamado para integrar o programa Obama Liders, em 2022, da fundação do ex-presidente dos Estados Unidos, Morato Custódio tem um currículo invejável dentro do mundo dos negócios.

Com um mestrado em Gestão de Projeto, pela California Southern University (EUA), em Angola o empreendedor foi manager nacional de sistemas e network da Coca-Cola Bottling; diretor de operações da empresa de entretenimento sul-africana MultiChoice; consultor do banco angolano VTB, detido pelo segundo maior banco da Rússia; mentor do Founder Institute em Luanda; business lead da Bantu Makers e é ainda fundador da Lwei, empresa que desenvolve micro-serviços financeiros simplificados para a população em geral.

O seu trabalho, principalmente, nos últimos anos, tem como foco o “eu africano”. O propósito é encontrar soluções para “nos libertarmos das amarras do neocolonialismo, desta paixão violenta que temos com os ‘Marcelos Rebelos de Sousa da vida’ e começarmos a fazer por nós mesmos”, afiança.

E é exatamente nessa perspetiva que conversámos com o empreendedor, com foco no trabalho que tem desenvolvido na Lwei, nas áreas da inclusão financeira, facilitando a integração de pessoas fora do sistema financeiro convencional e cujo objetivo é, em 2022, providenciar acesso gratuito à Internet nos 164 municípios angolanos.

As projeções do Instituto Nacional de Estatísticas no país indicam que, em 2022, a população vai ultrapassar os 33 milhões de habitantes (com uma média de crescimento anual de mais de um milhão de pessoas), com cerca de 47% da população na faixa etária dos 16 aos 59 anos.

De acordo com um inquérito do Banco Mundial sobre a Capacidade Financeira em Angola (2019), existem mais de nove milhões de adultos que não têm uma conta bancária. O estudo revela também que esta amostra corresponde a uma camada da população que vive em condição de pobreza e com elevada taxa de analfabetismo. É exatamente este o público alvo de Morato: a maioria da população angolana.

Morato, podes contar-nos um pouco do teu percurso antes de chegarmos à parte em que te tornas num empreendedor?

Sou um jovem de Porto Amboim, no Kwanza Sul, a sul de Luanda. Nasci e cresci em Angola e sempre vivi a minha vida toda em Angola. Tive a oportunidade de, aos 16 anos, vir para Luanda e, a partir daí, agarrei toda a sorte que se apresentou à minha frente e consegui ir fazer um curso de Engenharia, um mestrado em Information Systems Management, fiz cursos paramilitares em Israel e na Rússia; estudei na Índia oito meses, portanto tudo isso foram oportunidades que me foram dadas e que eu fui agarrando. Trabalhei para a Coca-Cola, onde aprendi os fundamentos do corporate e, depois disso, trabalhei na Multichoice onde, nos últimos dois anos, tive uma maior exposição para aquilo que é Angola como um todo, porque uma das áreas em que era responsável era a área de call center. Falávamos com muitas pessoas, fazíamos muitos estudos de mercado e aí consegui ter uma maior sensibilidade sobre como vivia um angolano real.

Como é que se deu o passo para o empreendedorismo?

Em 2016, quando apercebi-me que, mesmo no meu país e, sendo um bocadito mais escurinho, nunca ia chegar a diretor geral, decidi sair da Multichoice, porque já tinha feito tudo aquilo a que me tinha proposto. Fui trabalhar por conta própria para investir em projetos de impacto social, para poder garantir que existam plataformas de acesso à oportunidade e que pessoas que tiveram o mesmo percurso que eu não dependam da sorte para poderem progredir na vida. E para que qualquer pessoa possa viver de acordo com o seu potencial sem que dependa de uma mão estendida. Então, com base no meu background, que é a tecnologia, juntei-me a um grupo de pessoas e fizemos uma fábrica de telemóveis, a primeira aqui da região [africana]. Juntei-me a duas empresas, WiConnect e IpWorld, e fizemos o Free Net, que é para garantir acesso à Internet gratuito. E com a Bantumakers fizemos a Deia, que é uma plataforma de pensamento colaborativo no modelo doação e recompensa para poder canalizar apoios para projetos sociais e de empreendedorismo social.

E há ainda o Lwei, que é uma plataforma de microfinanças, para garantir a democratização do acesso ao crédito – microcrédito microsseguros, micropoupanças. E pronto e como tenho o sentido de inconformismo muito, muito, aguçado, vou fazendo algumas coisas também na arena do ativismo.

Nesse processo da inclusão financeira, considerando que em Angola a maioria da população está localizada nos zonas rurais, onde praticamente não existe sequer uma agência bancária ou um multicaixa (ATM), por onde é que se começa?

Primeiro, na Europa e Estados Unidos, a inovação é ensinada desde a mais tenra idade. Eu sou privilegiado o suficiente para ter a minha filha a estudar numa escola internacional em Luanda e, sempre que há uma atividade na escola, eu vou para essa escola e saio de lá com esse sentimento ‘se eu tivesse acesso a esse tipo de educação na minha infância, se calhar, estaria a curar o cancro’. Portanto, as crianças são estimuladas para a inovação, para inovar. E depois, aquilo que fazemos com o nosso poder de inovar é muito daquilo que somos de dentro para fora. Em Angola, em África, baseado na minha experiência, a inovação advém da necessidade. Inovamos para podermos resolver problemas e essa jornada tem sido espetacular, porque vejo as coisas a acontecerem em Angola que nem eu julgava ser possível, por causa das crenças limitadoras que eu próprio tinha. Epá, ‘uma pessoa que não sabe nem ler nem escrever com é que usa um telemóvel? Como é que vai usar o WhatsApp?’ Então, essa jornada tem-me ajudado a quebrar determinadas barreiras.

Obviamente que se me tivesse focado num elemento da cadeia de valor da economia digital em Angola, teria sucesso mais visível, expressivo e acelerado, porque teria focado numa só coisa. Foi onde comecei, com plataforma digital. Vamos fazer mobile money, wallets, fintech e, depois, parei e pensei: ‘as pessoas não têm acesso à Internet. Quem está a distribuir Internet de graça?’ Tive que envolver-me no acesso à Internet gratuito. Então, faço a plataforma digital, dou a Internet gratuita, mas depois temos um problema de poder de compra em Angola. Quem não tem dinheiro comprar um smartphone como é que faz? ‘Então vou ter que fazer uma fábrica de telemóveis para poder garantir a distribuição de telemóveis no mercado angolano, para eu poder definir as regras do jogo. Onde digo qual é o preço a que vai para o mercado, os termos de pagamento, vamos fraccionar os pagamentos, tal como acontece em qualquer parte do mundo.

Começa-se por criar a base. Crias a base e isso acaba por criar a necessidade. Primeiro, dás um smartphone a uma pessoa que nunca achou que fosse precisar de um smartphone. Dares acesso à Internet a uma pessoa que nunca achou que ia precisar de Internet e depois dás-lhe a Deia, onde com a ajuda de um sobrinho, de um primo, de um amigo – o que for- ele pode criar uma campanha para arrecadar dinheiro para comprar insecticida [para as suas zonas de cultivo], uma bomba de água para desviar água do riacho para a sua lavra.

Providencias tudo…

Ele tem acesso ao telemóvel feito ‘por mim’ numa loja de agricultores, que é a Képia, uma startup que admiro, com Internet gratuita e todas as instruções de como vender a sua hortaliça a partir da Chibía [na província da Huíla] para um cliente que está em Luanda.

Ou seja, crias a base, crias a necessidade e as pessoas chegam lá. Essa é minha expetativa. Porque nós não vamos conseguir, Vanessa, por intermédio daquilo que é a metodologia de literacia convencional. Fazer com que estas pessoas acompanhem a velocidade da inovação, não vamos conseguir. Então temos que nos encontrarmos a meio do caminho e esperar que eles façam a outra metade do percurso. E isso acontece, a minha experiência mostra que acontece, o pessoal chega lá.

Sobre o Lwei, que apoia empreendedores nos processos de crédito, seguros e poupanças, como é que arrancaram com o projeto?

Fizemos um pitch na embaixada da Suécia em Angola e um grupo de investidores suecos que acreditou na ideia ‘comprou-a’ e envolveu a UNDP (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas), em Angola. Estamos a trabalhar com a UNDP já há um ano. Estamos a trabalhar num projeto piloto onde vamos aos mercados informais falar com as vendedoras ambulantes – algumas que nem sabem ler nem escrever. Damos um smartphone, a plataforma Luway é instalada nesse smartphone e o microcrédito. E em cima disso, um dos pontos mais importantes é uma formação [de literacia financeira] que vamos dar de forma alargada, numa fase inicial, a 300 mulheres.

Porquê só a mulheres?

África vai dar o salto que nós precisamos que dê quando tivermos o maior de mulheres financeiramente independentes. É a única saída.

Porquê?

Nós temos uma coisa que nos falta em África, por conta dos traumas que vivemos. Somos uma geração criada por uma geração que viveu a guerra, que foi criada por uma geração que viveu o colonialismo. Grande parte da sociedade angolana precisa de um abraço de mãe, entendes? Para poder recuperar a sua autoestima e poder acreditar que pode ser e fazer mais e precisamos de mãe, mas, não conseguimos ter essas mães, enquanto essas mulheres são obrigadas a ser mais, enquanto estão preocupadas com o que é que vamos comer amanhã. A partir do momento em que começamos a ver mulheres formadas, informadas e independentes financeiramente, vemos lares completamente reformados.

Como é que se desenvolve essa formação?

Separámos as 300 mulheres em seis grupos. Cada um desses grupos vai ter um perfil diferente com critérios como a utilidade, sabe ler/não sabe ou sabe escrever/não sabe, sabe identificar símbolos/não sabe. Depois, durante seis meses, vai decorrer o projeto piloto e vamos avaliar qual é a performance de cada um dos grupos e vamos fazer um link entre a performance, a metodologia que foi ensinada e qual é o grupo e vamos ver qual é a metodologia que funciona melhor. A nossa aposta é no boca a boca.

A nível de burocracias, estes projetos em que estás envolvido, precisam de um aval. Conta-nos essa luta.

A primeira simulação de carteira digital em Angola – mobile money – foi desenvolvida por mim, em 2011/2012 – bem, por mim é um bocado pretensioso. Foi desenvolvido pela Multichoice e eu, pronto, calhei ser a pessoa que estava à frente e fizemos a simulação onde era possível pagar a subscrição da televisão, usando saldo do telemóvel da Movicel, na altura. E depois isto podia ser extrapolado para a transação de qualquer bem ou serviço, mas depois fomos impedidos de continuar a operar, porque nem a Movicel nem a Multichoice tinham uma licença de entidade financeira não bancária. A Multichoice desistiu do projeto e, como sempre fui um bocadinho pretensioso e o projeto era como se fosse o meu bébé, continuei em paralelo a desenvolver aquilo que hoje é a Lwei. Existe como Luway desde 2014, mas não teve licença para operar.

O estado angolano, através do Banco Nacional de Angola, que é o nosso banco central, tem estado a dar passos significativos nesse aspeto. Criou um laboratório de inovação, que é como se fosse uma incubadora. Aprendes também a perceber um bocadinho mais o objeto e o funcionamento dessas fintech e foi aprovada na Assembleia Nacional, agora recentemente, uma nova lei de sistemas de pagamentos de Angola que já tem um enquadramento legal para nós. Tive o privilégio de poder acompanhar de perto e colaborar e trabalhar com algumas entidades na formulação e na discussão e hoje a lei já faz esse enquadramento. A Unitel [maior operadora de telecomunicações] já tem licença, tal como outras empresas e nós estamos no processo de aquisição da licença. Levou muito tempo, estamos dez anos atrasados em relação a outros países em África mas, mais importante do que olhar para o tempo que se perdeu, é tentarmos agora acelerar o passo com tudo aquilo que já aprendemos

O ambiente regulatório hoje é completamente diferente daquilo que era há dois anos e até daquilo que era o ano passado. Hoje, finalmente existe uma lei que enquadra legalmente ou regula a operação.

Depois podemos é falar sobre vontade política, que é outra coisa
completamente diferente, não tem nada a ver com a administração ou a regulação. Há conflitos de interesse claros de pessoas que tomam decisões sobre a lei que têm depois interesses em bancos comerciais, que também têm plataformas fintech, que podem ver o nosso trabalho como concorrência e depois há aí outros interesses.

O meu produto não tem novidade alguma para os meninos bonitos do iPhone

Morato Custódio

Nos últimos tempos, tem havido uma enchente de novas aplicações, de novos serviços e vários até bem reputados, pelo menos daquilo que nos chega para quem está fora de Angola. Contudo, a maioria é focada numa população de classe média, que é a minoria e está concentrada em Luanda. Tu estás completamente focado na camada mais baixa e que é a maioria do país…


81%. Eu estou focado nos 81% da população angolana. Olho para isso de duas formas. Primeiro, muitas das coisas que têm estado a acontecer é aquilo que nos foi permitido fazer, ou seja, por exemplo, eu conheço o plano do Kubinga, conheço o plano da Tupuca, da T’Leva, conheço os empreendedores, sei qual é o plano, mas depois a conjuntura do país não lhes permite implementar o plano com a profundidade que eles desejavam. Então eles têm um drive diferente do meu, que é: vou lançar na mesma, vou experimentar aqui nesta camada e quando o país estiver preparado vou ‘descer’ nos 81%. O meu produto não tem novidade alguma para os meninos bonitos do iPhone, para a malta que compra um hambúrguer de sete mil kwanzas [cerca de 12 euros], para a malta que tem Multicaixa Express. Esse não é o meu público alvo.

A outra forma é: há muita gente a fazer só porque pode. Há muita gente a fazer porque descobriu que pode comprar uma template e uma wallet na Índia por cinquenta mil dólares e depois consegue por a wallet aqui em funcionamento, porque o pai é o sicrano que faz uma chamada e depois já tem autorização para operar. O outro faz porque pode comprar uma template de uma aplicação por 35 mil dólares na Índia e depois chega aqui e consegue implementar porque o pai, o tio e o ‘coiso’ juntam-se, dão-lhe 500 mil dólares, ele vai a uma concessionária, compra carros e põe a marca da plataforma deles e já está.

E esse fazer só porque podem é diferente daqueles que têm um plano mas que depois a conjuntura do país não lhes permite. Portanto, uns estão efetivamente à espera das condições para poderem mergulhar no resto da cerveja e os outros nem sabem sequer que existe a cerveja debaixo da espuma.

Custódio Morato | DR

Ainda na senda do acesso à Internet gratuito, em Cabo Verde, por exemplo, em algumas praças tens spots de Wi-Fi gratuitos instalados pelo governo e na ilha do Maio todos têm acesso gratuito também [programa Aldeias Sustentáveis para o Desenvolvimento]. Tens em carteira algum projeto do género?

Olha, manifesto aqui publicamente, aproveitando a plataforma BANTUMEN, que gostaria de poder iniciar uma parceria pública ou privada, para a gestão dos pontos de acesso à Internet, chamada Angola Online. Porque acho que iríamos fazer muito mais do que aquilo que somos capazes de fazer hoje. Aquilo que estamos a fazer hoje, com Wi Conect e o Free Net é, de certa forma, limitado, porque não somos a Santa Casa da Misericórdia. Precisamos de ganhar dinheiro para poder investir em mais pontos de acesso à Internet.

E quais são essas formas de ganhar dinheiro?

Por exemplo, damos acesso garantido à Vanessa, mas a Vanessa, passados dez minutos, tem que ver uma publicidade. Passados 30 minutos, tem que preencher um inquérito de satisfação para um cliente nosso, passados outros 30 minutos, tem que obrigatoriamente clicar no link que vai direcionar para o Instagram do cliente.

No fundo, tu és o valor para a nossa plataforma poder ser vendível per se, mas se tivermos este serviço suportado por um Orçamento de Estado, como é feito em outras partes do mundo, poderíamos expandir essa rede de uma forma muito mais alargada. Poderíamos implementar formas muito menos agressivas de retorno do investimento e o próprio Estado angolano podia ganhar dinheiro com isso. Poderia fazer censos de uma forma muito mais rápida, inquéritos de satisfação de uma forma muito mais abrangente, poderia fazer o registo do eleitor, para as eleições, de uma forma muito mais eficiente…


O que é que falta em Angola para o governo assumir a capacitação digital e a literacia financeira como prioridade ou achas que já está a ser assumido como tal?

Eu sinto que isso é uma prioridade do governo já há alguns anos, desde da primeira publicação do Livro Branco das Tecnologias de Informação, penso que data de 2013. Nota-se que foi feito investimento, com o lançamento do satélite angolano [AngoSat]… portanto, noto sim que é uma prioridade para Angola já há alguns anos, por causa de diferentes iniciativas que foram levadas a cabo e que não podemos simplesmente ignorar. há também o investimento que foi feito no Angola Cables, temos três cabos submarinos além do cabo partilhado gerido pela Angola Telecom, como temos outros dois cabos que são geridos pela Angola Cables; temos o Angola Online que é um projeto de Estado para aceleração do hotspot de acesso à Internet gratuito. Portanto, há aqui determinadas iniciativas que me fazem assumir que é uma prioridade do Estado.

O problema está na operacionalidade, porque grande parte dessas prioridades e dessas iniciativas nem são se calhar prioridades e iniciativas do próprio governo ou das pessoas do governo.

S calhar, é aconselhamento do Banco Mundial, das Nações Unidas, da GSNA, do FMI que apresenta aquilo como ‘vocês para poderem fazer isso têm de fazer isto’. Então eles vão fazendo algumas coisas. Só que depois falha na operacionalização. A Angola Online custou 30 milhões de dólares, mas pronto funciona mais ou menos. A Angola Cables tem uma capacidade brutal de acesso à Internet – nós temos mais bits de acesso à Internet em África, mas depois a distribuição para a Internet chegar a casa das pessoas é deficiente. Temos um Livro Branco das TICs, mas desde que foi publicado não sei se alguém alguma vez o leu.

É muito difícil fazer só acompanhamento para correção dos erros que foram cometidos quando não se percebe os benefícios. Para quem governa, para quem fez as políticas, para quem tem essa preocupação é difícil entender os benefícios.

Em vez de estar a espremer-me para caber na mesa de alguém, fiz a minha mesa e aqui todo o mundo está convidado a sentar-se

Morato Custódio


Faz-me alguma confusão essa dificuldade, porque os benefícios são demasiado óbvios. Estamos a gerar dinheiro, o dinheiro circula muito mais facilmente. Estamos a ajudar a criar empreendedores, portanto, como não ver estes benefícios?


O problema é a contrapartida. As conversas que nós temos, num espaço como estes, como a BANTUMEN, não se tem nos media convencionais, por exemplo. A minha pergunta para ti é: ‘numa situação em que estás a implementar políticas para corrigir isto e aquilo, eu teria se calhar todo o interesse em controlar a narrativa de como é que se publicita o país ao invés de facilitar a população a ter acesso à informação nas fontes que eles acharem mais convenientes.

Eu acho que cada um de nós tem que assumir a responsabilidade sobre aquilo que pode controlar, sobre aquilo que pode fazer. Eu estou trabalho com o Estado, trabalho com instituições do Estado, trabalho com privados, com o público, trabalho com os meninos bonitos do iPhone, com os outros utilizadores de Internet, com quem não usa Internet..

Acredito no bem comum. Para quem está no poder ou para quem pode fazer acontecer, no final do dia, existe um ponto de convergência entre o que ele quer e pode fazer e aquilo que eu quero e posso fazer. Então, neste ponto de convergência, vamos conectar-nos e fazer alguma coisa. Quando os interesses não se cruzarem, estamos juntos na mesma e vou fazer do meu lado. Chega, já não reclamo. Estou a fazer. Em vez de estar a espremer-me para caber na mesa de alguém, fiz a minha mesa e aqui todo o mundo está convidado a sentar-se.

A única forma de mudar Angola de forma profunda e “bater” na nossa Constituição é tornando-me Presidente da República

Morato Custódio

Agora, falando sobre a tua última novidade, a tua integração programa Obama Liders, da Obama Foundation, queres explicar-nos como é surgiu a oportunidade?

O Obama, por causa das ligações que tem com África, sempre teve muito interesse em fazer um level up daquilo que é o futuro da liderança africana. Isto com ferramentas para preparar a futura geração de líderes para enfrentarem os desafios do Milénio, com alguma retidão, com integridade. Nos últimos dois programas, eles fizeram uma cena mais aberta, o primeiro programa foram 200 participantes, acho eu, e na segunda edição também foram 200 participantes. Este ano [2021], decidiram fazer um programa mais escrutinado e só havia vagas para 35 pessoas para todo o continente.

Como é que recebeste a notícia?

Por causa de algumas questões de teor mental, por causa do autismo, de Asperger, de ansiedade e depressão, sempre fui muito reservado. Tenho vindo a fazer um trabalho nos últimos oito anos, com terapia e muito auto-descobrimento e cheguei a uma altura – porque decidi, em 2017, que a única forma de mudar Angola de forma profunda e “bater” na nossa Constituição é tornando-me Presidente da República. Então, durante este meu percurso no empreendedorismo social e muito interessado nas questões políticas do país, faltava a componente da exposição. No ano passado, decidi começar a aparecer, participar em lives, falar publicamente sobre os meus projetos. E aí as pessoas começaram a ter interesse no meu trabalho, começaram-me a convidar para fazer lives e tudo o mais e muitas pessoas passaram a conhecer-me. Quando surgiu a possibilidade de alguns “Obama Liders” nomearem algumas pessoas, então há uma Obama Líder que nomeou-me.Achoq ue de Angola foram 30 nomeados e eu fui selecionado.

É importante este tipo de reconhecimento, porque foram selecionados 27 países, 35 pessoas, por todo o continente. Vamos ter a oportunidade de poder ter um processo de mentoria, de formação com a Fundação Obama, onde o próprio Obama participa diretamente no processo. Então mais importante do que participar no Obama Liders é ter a oportunidade de usar esta plataforma, este selo Obama Lider, para poder partilhar tudo aquilo que estamos a fazer em Angola para muito mais longe, porque este selo dá-me a oportunidade de falar para pessoas que nunca antes se deram ao trabalho de ouvir…

Estás a sentir o peso do país nas costas?

Não, eu assumi que ia carregar o país nas costas em 2017 quando decidi ser o líder da nossa geração.

Sentes que perdes alguma coisa por esta edição ser no formato online?

Em primeiro lugar, o programa sendo presencial, depois das sessões, tens a oportunidade de fazer networking. As pessoas vão tomar um café, vão fumar um cigarro, vão conversar sobre outras coisas que não estão relacionadas com o programa e é aí que tens a oportunidade de saber que outros países é que têm os mesmos problemas que o teu e como já os resolveram… Eu acho que se perde um bocado neste sentido.

Por outro lado, em contrapartida, ganha-se pelo facto de sermos só 35 pessoas. Os grupos do WhatsApp, as chamadas no Zoom e os grupos no Slack e em todas outras plataformas colaborativas que existem, nós vamos poder muito facilmente interagir uns com os outros durante os grupos de trabalho.

Então, acho que perdemos em algumas coisas e ganhamos noutras e o facto de ser online garante-nos a presença do patrono da fundação [Barack Obama], o que presencialmente seria difícil.

Prefiro estar preparado para ser um Presidente e não o ser, do que ser Presidente e não estar preparado

Morato Custódio

Quais são as tuas expetativas?

É sair deste programa com uma rede de contatos de 34 pessoas que posso usar como recurso para resolver problemas que tenho aqui em Angola. Há um dos líderes com quem já tive a oportunidade de falar que trabalha com arquitetura afrocentrada, que desenvolve projetos habitacionais com materiais do campo. Então, a minha expetativa é saber que posso encontrar muito mais pessoas como este meu irmão do Benin e que pode ajudar-me a resolver problemas aqui em Angola, baseado na expertise dele.


Portanto, depois disto queres ser Presidente da República, é isso?

Não, não. Depois disso não. Eu quero ser Presidente da República desde 2017. Ser Presidente da República não é uma decisão ‘olha no próximo ano vou ser Presidente da República.’ Não. Tem a ver com o que tu fazes a vida toda para frente, a partir do momento que o decides.

Quando chegar a 2027, a 2032, eu prefiro estar preparado para ser um Presidente e não o ser, do que ser Presidente e não estar preparado. O processo para o ser motiva-me a fazer coisas que têm estado a causar impacto, direto e indireto, positivo na vida das pessoas

Assumi o papel de líder da minha geração e quando formos chamados a assumir a nossa responsabilidade na liderança política deste país, quero estar o mais preparado possível para poder levar Angola a bom porto.

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