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Carlos Cabral Nunes | ©BANTUMEN
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NFTs e a falta de visão portuguesa para a promoção da arte lusófona

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Carlos Cabral Nunes é fundador e curador da galeria de arte portuguesa Perve, que ao longo de mais de duas décadas tem trabalhado para a expansão das artes plásticas lusófonas pelo mundo, numa estratégia com vários eixos mas que parte de um plano horizontal, onde as expressões artísticas africanas ganham o mesmo nível de atenção que as portuguesas e, sobretudo, desprendida de paternalismos.

Encontrámo-nos com o galerista e curador durante a edição deste ano da feira de arte africana parisiense AKAA (Also Knwon As Africa), que deu-nos a conhecer o seu ponto de vista sobre a falta de estratégia e interesse lusófonos para a exportação das suas artes, sobretudo PALOP, ao contrário do que acontece por exemplo com a comunidade francófona.

Outro assunto em voga e que também foi um dos nossos temas de conversa foram os NFTs. Este novo sistema de negociação de ativos digitais, na opinião de Cabral Nunes, pode revolucionar a forma como os artistas africanos se posicionam no mercado internacional, facilitando assim a sua expansão.

“O que se pretende é que esses autores, especialmente os que têm origem nos PALOP, possam chegar ao mercado da arte como qualquer outro artista e terem a mesma possibilidade de reconhecimento e de valorização”

Carlos Cabral Nunes

O principal objetivo da galeria é, dentro do mercado da língua Portuguesa, colocar artistas não africanos e artistas africanos no mesmo nível – vivam estes no continente ou na diáspora. “O projeto não se limita às praticas relacionadas com a pintura, fotografia, desenho ou vídeo, como também assume a interação do multimédia, das novas tecnologias, e etc. O que se pretende é que esses autores, especialmente os que têm origem nos PALOP, possam chegar ao mercado da arte como qualquer outro artista e terem a mesma possibilidade de reconhecimento e de valorização”, explica-nos.

Ao longo dos anos, essa tarefa tem sido dificultada, “porque estamos no fundo a competir com estratégias nacionais. Por exemplo, a Francofonia tem uma estratégia nacional. O presidente Macron faz o Ano de África em França, há uma estratégia, uma visão de conjunto para dar visibilidade aos artistas africanos e que Portugal não tem infelizmente e por várias razões. Uma porque é um país periférico, porque tem uma escala diminuta, porque também falta alguma visão e cultura do mundo, muitas vezes, a quem dirige o país, que não consegue ver soluções que por vezes até nem custam dinheiro, mas que permitem chegar a muito mais pessoas”.

Cabral Nunes dá o exemplo de uma paragem que teve de fazer numa bomba de gasolina em França e de ter-se deparado com elementos de promoção de um museu local. “Descobri o Castelo de Oiron, que é um espaço de arte contemporânea tremendo, porque parei numa bomba de gasolina, prestei atenção, estava ali a pouco mais de dez quilómetros e de repente tinha ali um conteúdo tremendo. Em Portugal isto não se faz por falta de visão. Nós, galeria, de alguma maneira, acabamos por pagar esse preço de estarmos sozinhos nessa estratégia [de divulgação e promoção].”

Apesar de todas as limitações, a Perve tem desbravado mundo com as obras dos seus artistas. Em 1990,Carlos Cabral Nunes começou a reunir um acervo que hoje é uma das mais relevantes coleções de arte moderna e contemporânea dos países de língua portuguesa. Com o nome Lusofonias, esse acervo, que reúne mais de uma centena de obras agrupadas tematicamente, já foi exibido no edifício Tom Tom Kirmizi, na Embaixada de Portugal na Turquia (2009), e na Universidade de Bilkent, em Istambul e Ancara (2019); na sede da UCCLA, em Lisboa (2017); no Palácio da Independência, em Lisboa, no âmbito das Comemorações dos 40 anos das Independências nos PALOP (2015); no India International Centre, em Nova Deli (2015); no Palácio do Egipto, Oeiras (2012) e na Galeria Nacional de Arte de Dacar, no Senegal (2010).

Há ainda um acervo do artista moçambicano Shikhani e do cabo-verdiano Manuel Figueira, “de uma série de mestres em várias instituições e coleções, como o [Centro Georges] Pompidou (França), a obra do Malangatana que está na Tate (Reino Unido) fomos nós que colocámos lá. Temos feito esse trabalho mas claro que estamos muito desacompanhados. Não tendo uma estratégia do país, estamos sempre a competir numa luta desigual”, expõe Cabral Nunes. 

Essa desigualdade torna-se explícita por exemplo com as obras de Reinata Sadimba ou Malangatana. “Desde o momento em que começamos a trabalhar com elas, valorizaram-se muitíssimo, do ponto de vista percentual, e mais até que artistas de outras comunidades, mas ainda está muito longe do que aquelas obras em comparação com artistas daquela geração e da região do continente têm.” Ainda na mesma linha, o galerista e curador mostrou-se consternado com a discrepância nos valores angariados no leilão da Bonhams, que teve lugar durante a AKAA, por obras de artistasda Nigéria, Gabão ou África do Sul em comparação com os de territórios de língua portuguesa. “Isso frusta um pouco”, exclama.

O problema acentua-se mais ainda quando Portugal tem uma “abordagem paternalista quando se olha para África e para os PALOP. Nessa visão paternalista há depois pessoas que estão num circuito de amizades – que é uma cultura que herdámos do passado colonial e da própria ditadura, que é o ‘amiguismo’ -, onde há pessoas que giram nesses circuitos que, por um lado têm a missão e, por outro, os recursos e deviam ter o conhecimento, que não têm na realidade, para poderem fazer alguma coisa válida”.

No contexto do que é a arte lusófona apresentada a nível da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), há uma falta de conhecimento, de exigência e até de noção do que deve ser feito. “Aquilo não dignifica o que é a arte produzida no contexto do que é a Lusofonia. Ora, como é que é possível? Aquilo só se justifica à luz do tal critério de quem conhece bem os circuitos e não estou a falar de pessoas estou a falar de lógicas. Acho que isso devia mudar. Tem de haver um outro grau de exigência e uma outra lógica. Ou seja, trazer pessoas e ter realmente aconselhamento, consultoria, mas ter pessoas que sejam competentes, que percebam o que é o mercado da arte nacional e internacional e que se defina uma estratégia sobre o que queremos que isto seja, para onde temos que ir e que de facto, em termos de recursos económicos, não é preciso gastar muito mais dinheiro, é preciso gastá-lo melhor. Nós não podemos pôr qualquer pessoa que pinta como se fosse um artista. O grau de exigência é tão baixo que qualquer pessoa que faça uns rabiscos e que venha de Angola ou Moçambique é aceite como artista. Não pode ser. Nós não podemos ter esse grau de paternalismo. É mau para os próprios, para a estratégia comum e depois apresentam-se exposições onde estão de facto alguns autores que têm um trabalho consistente, a par de coisas que não estão no mesmo patamar”.

Cabral Nunes sublinha que “há pessoas que têm talento e que investiram o seu tempo para criar uma obra e um discurso, à luz do que é o mundo, o seu país, a sua realidade, e isso tem de ser mostrado e isso também nos dá uma importância global, como comunidade. Depois há outras coisas que também são importantes serem feitas, para a sua própria sanidade mental, para os amigos, para decorar uma parede, mas são coisas diferentes, que não estão no mesmo patamar.”

Um dos pontos de uma estratégia séria e comprometida, quer da parte do Estado português, quer de instituições privadas, deveria passar pela criação de um centro dedicado à África lusófona. “Isto que fizeram agora do Centro Cultural de Cabo Verde, acho que é bom, devia haver um de Angola, Moçambique e etc, mas devia haver um que seja unificador e que tenha uma parte museológica e que tenha alguma dotação para ir tendo obras. Porque colocarmos obras na Tate, aqui e acolá, são obras que vão sair do espectro da língua portuguesa e que vão para outros museus e de certa forma seria bom que outras peças centrais pudessem ficar no contexto da língua portuguesa”.

Dentro do espectro PALOP, Angola é dos poucos países que consegue ter algum destaque dentro do cenário artístico, mas o próprio país procrastina em consolidar a sua arte moderna. “Temos algumas obras de artistas angolanos na coleção mas Angola tem um problema que até seria solucionável se Angola tivesse uma outra visão. Angola não tem mestres. Tem uma arte contemporânea tremendamente poderosa e com uma capacidade de internacionalização tremenda mas só tem o António Olé e o [Paulo] Kapela mas que ainda, em si mesmos, o espaço temporal não é suficiente para que possam ser mestres internacionais”. Por outro lado, Angola, como ainda não fez uma releitura da sua própria história, tem dificuldade em reconhecer e identificar os mestres do tempo colonial e que não eram coloniais, ao contrário do que acontece por exemplo com Moçambique, “conseguiu dar reconhecimento a Pancho Guedes [arquiteto, pintor, escultor e educador português que viveu maior parte da sua vida em Moçambique] e a outros artistas portugueses mas que tinham uma obra fundada em África e que no fundo ajudaram a consolidar a arte moderna moçambicana e depois a arte contemporânea. Angola ainda não conseguiu fazer esse processo”.

E é precisamente nesse trabalho que a Perve tem apostado, como é o caso de Cruzeiro Seixas. “É um mestre português do Surrealismo, que morreu no ano passado e que faria 100 anos. Foi para Angola nos anos ’50 e fez exposições importantes e inclusivamente coletivas que ele desenvolveu no museu de Luanda, entre a década de 50 e 60, e que pela primeira vez permitiram expor obras de artistas africanos num museu angolano. Ele chegou inclusivamente a ser chamado à Pide (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, sob o regime salazarista) por causa disso. Conseguimos agora levar a obra dele e dar um highlight ao período angolano da obra dele – porque é muito diferente do resto – à Frieze Masters (Reino Unido), para ver se nalgum momento as próprias autoridades angolanas conseguem ver como pode ser importante para Angola mostrar que este artista também é, de certa forma, angolano”. 

Satisfaz-me bastante que esta experiência dos NFTs aconteça numa feira dedicada a África e que aconteça também através da obra de um artista africano

Carlos Cabral Nunes

Cabral Nunes acredita que “devem ser cidadãos de um país todos aqueles que lutaram para que aquele país existisse”, tenham nascido lá ou não. Sobretudo para que se possa resgatar parte da história artística do país anterior aos anos 1970. “Esse é um problema que Angola tem e que Moçambique não tem. Cabo Verde também não, de certa forma, porque tem uma grande tradição. Temos por exemplo Manuel Figueira (São Vicente, 1938) cuja obra conseguimos colocar como Mestre no Pompidou. Apesar de ele ter estudado a arte em Lisboa, ele nunca deixou de parte as suas raízes identitárias cabo-verdianas, portanto é um mestre cabo-verdiano”. 

Para si, parte da solução da valorização da arte e do nome dos artistas africanos de expressão portuguesa, pode passar pelos NFTs. É uma das maiores tendências atuais dentro do mercado de criptoativos, com um aumento de 55% de vendas em relação a 2020 e, pela primeira vez numa feira de arte, foi realizada uma atuação performativa fotográfica, cujo obra resultante desse momento foi vendida em formato físico e virtual, através de NFTs. A Perve foi a responsável pelo conceito, com o fotógrafo santomense como protagonista.

“Satisfaz-me bastante que esta experiência dos NFTs aconteça numa feira dedicada a África e que aconteça também através da obra de um artista africano. E também isso pode ser uma porta que se abre para África, para gerar as tais oportunidades. Porque, a partir do momento em que isto se puder tornar de facto num recurso de expressão comercial, muitos artistas que hoje não têm hipótese de chegar ao colecionar final, porque estão em África e não têm o contacto, até mesmo com as galerias ou com o intermediário, através do NFT passam a ter acesso a outro tipo de liberdade. Portanto, penso que isso pode ajudar também à viabilização de que os artistas estejam em pé de igualdade. A galeria [Perve] conseguiu adquirir o conhecimento para aplicar a tecnologia ao serviço disso. E ter sido aqui na AKAA a fazer-se isso pela primeira vez é algo que me agrada”, explicou Cabral Nunes. 

O galerista lista ainda algumas das vantagens que esta nova realidade comercial poderia proporcionar ao mercado artístico, com destaque para as práticas ecológicas.

“Eu acho que o NFT pode ter várias utilidades. Limpar entre aspas o mercado de um conjunto de práticas artísticas que são feitas quase por mero intuito comercial. Ou seja, quando a questão artística é uma questão menor. É a arte que é o investimento. Claro que interessa-me que as coisas se vendam, porque precisamos de algum retorno mas, mais do que isso, interessa-me a expressão artística. Por isso é que antes de haver a empresa [Perve] foi feita a associação. Quem dirige o projeto artisticamente é uma associação. Por outro lado, os NFTs podem à questão ecológica. Cada obra tem uma pegada ambiental. A emoldurar, a produzir, a transportar, tudo isto tem um custo ambiental grande. Se pudermos, não é acabar com as coisas porque o mundo não é a preto e branco, se o NFT conseguir fazer virtualmente com que uma série de obras e práticas comerciais, como o número abissal de feiras que há hoje, sejam reduzidas para metade, estamos a falar de uma poupança de metade dos recursos e isso seria muito bom. Por último, acho que há de facto um conjunto de artistas, não digo que seja a maioria, que não teriam a hipótese de chegar ao mercado sem essa tecnologia e cuja obra é importante e se poderia perder sem essa tecnologia. Acho que quem beneficiará mais disso há-de ser o continente africano. Porque é também o que tem maior dificuldade em aceder aos centros de discussão artística e por isso é que há também estas feiras. Se virem bem, a maior parte dos artistas que temos são africanos mas vivem na Europa. Eles próprio já estão dentro do contexto da arte na Europa. O que estou a falar é dos artistas que vivem lá [no continente africano]. Com o NFT acho que isso será potenciado.”

Dentro dessa área digital, a Perve está a pensar alocar uma parte dos seus recursos, humanos e financeiros, aos NFTs “para dar a possibilidade a mais pessoas de utilizarem a ferramenta, mas ainda assim não havendo uma estratégia [nacional ou lusófona], temo que o que vai acontecer é o que tem acontecido sempre: quem vai entrar primeiro nisto em África são os países ligados à Commonwealth, depois os francófonos e depois os lusófonos. Portanto quando os outros já estiverem sedimentados nós entramos tarde e em défice”. 

Para concluir, Carlos Cabral Nunes acredita que, embora seja ainda uma parte de mercado que suscita alguma apreensão e dúvidas por parte do público em geral, os artistas angolanos são os que maior potencial têm nessa área digital, uma vez que no mercado físico já têm alguma vantagem em relação aos outros países africanos de expressão portuguesa.

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