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“O Campo de Chão Bom”, um espetáculo que preserva a memória da segunda vida do Tarrafal

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O espetáculo multidisciplinar, da autoria da jornalista Paula Torres de Carvalho, aborda a reabertura do antigo Campo de Concentração do Tarrafal, para a prisão dos independentistas africanos. A peça tem estreia marcada para amanhã, dia 12 de fevereiro, em Grândola, no distrito de Setúbal. 

“O Campo de Chão Bom” é inspirado no livro O Diabo Foi Meu Padeiro, de Mário Lúcio Sousa, músico, escritor e ex-ministro da Cultura de Cabo Verde. O livro “faz precisamente a narrativa das prisões e do sofrimento dos presos políticos no Tarrafal, desde os presos portugueses até à segunda fase de funcionamento do campo”, conta Paula Torres de Carvalho. Como explica a autora da peça, o Tarrafal, para onde foram deportados muitos antifascistas portugueses, fechou em 1954, tendo reaberto em 1962, como Campo de Trabalho de Chão Bom – nome da localidade onde se situa –, por ordem do ministro do Ultramar de então, Adriano Moreira. “Ele reabre o Tarrafal, para enclausurar os africanos dos vários movimentos de libertação, que se opunham ao colonialismo e ao regime do Estado Novo”, clarifica.

Na opinião da jornalista, esta é uma perspetiva que é pouco explorada, quando se recorda o antigo de campo de concentração, situado na ilha da Boavista, em Cabo Verde: “Normalmente, quando se fala no Tarrafal, fala-se daquela primeira fase, em que estiveram lá os presos portugueses e em que, de facto, houve muito mais presos e muito mais mortos. Esta segunda fase, que é a fase, digamos, africana do Tarrafal, é um período que tem sido menos falado e menos explorado, e o Mário Lúcio, no seu, livro traz-nos essa memória que se quer irrepetível.”

A peça, que conta com uma participação especial do escritor, surgiu a pretexto da candidatura do Tarrafal a Património Material da Humanidade, por Cabo Verde e Portugal. “Achámos a ideia interessante, até porque o Tarrafal marca, de uma maneira muito importante, a história da oposição à ditadura em Portugal e em Cabo Verde”, explica Paula Torres de Carvalho, que contou com o testemunho do ex-prisioneiro Jaime Schofield, para o trabalho de pesquisa sobre o também designado “campo da morte lenta”.

Entre portugueses, angolanos, cabo-verdianos e guineenses, o espetáculo conta com mais de 40 artistas em palco e uma equipa intergeracional. “Há pessoas já com setenta e tal anos, e jovens de vinte e tal. Isto é muito interessante nesta perspetiva de convívio e da transmissão da memória histórica, que temos o dever de preservar”, considera a autora. 

Em palco, artistas profissionais e amadores dão voz e corpo ao sofrimento dos africanos nacionalistas, de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, que estiveram presos no Tarrafal, através de diferentes géneros artísticos, entre os quais, teatro, dança, poesia, música, artes circenses e vídeo. 

O cabo-verdiano Manuel Estevão é o ator principal desta megaprodução, que conta com texto de Paula Torres de Carvalho, direção artística de Pascoal Furtado, professor do Chapitô, e direção musical do violinista António Barbosa. Para além dos atores, dançarinos e músicos, a produção conta igualmente com a participação do coro Voz Terra, dirigido por Heloísa Monteiro. 

Esta viagem às histórias da antiga colónia penal portuguesa conta ainda com a voz principal da cantora Sofia Carvalho, sobrinha neta do conhecido poeta cabo-verdiano Ovídio Martins.

“O Campo do Chão Bom” é apresentado amanhã, dia 12 de fevereiro, às 21h, na sala multiusos do Parque de Feiras e Exposições de Grândola, e conta com o apoio da Câmara Municipal de Grândola e da Direção Regional de Cultura do Alentejo.

A peça – classificada com “Declaração de Manifesto Interesse Cultural”, pelo Ministério da Cultura de Portugal – subirá também a palco, no dia 9 de abril, no Centro Cultural de Carnide, em Lisboa.

Ainda não há planos para uma apresentação do espetáculo, em Cabo Verde, mas permanece a vontade dos envolvidos de levá-la até ao antigo Campo do Tarrafal, que, desde 2000, alberga o Museu da Resistência.

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