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Paula Nascimento | ©Osmar Silvério
Paula Nascimento | ©Osmar Silvério

“Já passámos do tempo de nos auto-explicarmos”, Paula Nascimento

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Paula Nascimento é uma arquiteta e curadora angolana mas é como agente de um movimento de sublevação cultural panafricanista que olhamos para o seu percurso.

É uma das curadoras artísticas nascida e criada nos PALOP com maior exposição a nível internacional. Habitué da Bienal de Veneza, onde em 2013 venceu um Leão de Ouro; já passou pela Expo Milão, pela Bienais de Bamaco e de Lubumbashi; é fundadora do estúdio de arquitetura Beyond Entropy Africa e do coletivo cultural Pés Descalços; faz parte da “família” Cachupa Factory, em Cabo Verde, e integrou o grupo de artistas que assinou uma colaboração entre a gigante sueca IKEA e a sul-africana Design Indaba. O seu nome integra uma lista não exaustiva de trabalhos reconhecidos e distinguidos tanto acima como abaixo da linha do Equador.

Paula Nascimento vive para a arte, e para a sobrevivência das plantas que vai colecionando em casa, na sua Luanda, para onde regressa sempre que a frenética agenda de trabalho permite.

O seu extenso currículo revela um proeminente percurso. Com uma formação que passou pela London Southbank, universidade pública e uma das maiores da capital inglesa, e pela Architectural Association – a mais antiga escola de arquitetura independente no Reino Unido -, Paula trabalhou ainda no escritório Álvaro Siza Arquitectos – que carrega o nome do mais notável e premiado arquitecto português -, na renomada australiana RDA Chartered Architects e na britânica Bates Zambelli Architects.

Através Beyond Entropy Africa, uma organização sem fins lucrativos que fundou com o arquiteto e curador italiano Stefano Rabolli Pansera, os projetos em que colabora estão profundamente ligados ao paradigma da condição urbana da região subsaariana africana, tendo como ponto de partida as assimetrias urbanísticas da superlotada capital angolana, e à expansão e desenvolvimento das artes visuais africanas, dentro e fora do continente.

O nosso objetivo é deixar de ter essa tag de arte contemporânea africana e passar a ser só arte

Paula Nascimento

Atualmente, é a curadora da exposição No Longer With The Memory But With Its Future, de Mónica de Miranda, que é uma adaptação do filme O Caminho Para as Estrelas. É uma exposição em três actos, montada ad-hoc, com low budget, mas que correu muito bem e tivemos boa receptividade e boa crítica”, disse-nos durante uma entrevista via zoom.

Divida em três actos interligados, a exposição questiona, através de um caracter poético e simbólico, a existencialidade feminina, o papel das mulheres nas lutas de libertação e o seu apagamento histórico, além da refletir de forma mais abrangente sobre o encontro entre a mulher e a natureza, através da relação entre a personagem principal e o rio Kwanza.

Estes questionamentos e reflexões são também parte importante da forma como Paula olha para a arte africana e como esta está a impor-se no mundo. “Embora trabalhe no nicho da arte contemporânea africana, acho que o nosso objetivo é deixar de ter essa tag de arte contemporânea africana e passar a ser só arte. E, nesse contexto, é importante que a produção artística circule, seja vista e que seja contextualizada nesses discursos mais globais e não colocada em nichos”, explica.

Ao contrário do que já acontece há vários anos em mercados como o francês ou o inglês, só agora Portugal começa a olhar, numa perspetiva horizontal, para os artistas negros e a sua arte, mas o caminho a percorrer ainda é longo e, por vezes, sinuoso. “Tu tens artistas que estão baseados em Portugal e que trabalham há muito tempo e, independentemente de ser africanos ou afrodescendentes, que nunca tiveram uma exposição num museu. Nunca foram convidados. É preciso haver essa abertura. Agora há uma série de conferências que têm sido organizadas, de pesquisadores e a falar sobre a imagem do corpo negro ou a arte negra, enfim, de questões pós-coloniais, mas é preciso que estes discursos incluam outros investigadores e não só académicos da diáspora e afrodescendentes, como do continente também”, porque, como indica Paula Nascimento, há ainda discursos discordantes entre um lado e outro.

Apesar de considerar que o diálogo é a ferramenta necessária para a construção de um mercado valorizador da arte africana, Paula reforça que o “circuito de validação ainda é muito eurocêntrico”. Contudo, “as pessoas com quem trabalho (…), mesmo a nível das instituições, há uma maior vontade de colaborar e de pensar no que queremos fazer a partir do continente ou do Sul global. Vão havendo plataformas de interligação, poucas, mas há.”

Sobre a necessidade de criar visibilidade no estrangeiro para “validar” o percurso e obra de um artista africano, a curadora acredita que “já passámos do tempo de nos auto-explicarmos” e que a questão deve ser vista do ponto de vista da promoção, venda e exposição do trabalho. “Pô-los a circular, porque nós estamos à margem desse circuito. (…) Para que essa obra possa ser vista, analisada, comprada e exposta nos museus, para isso é necessário estar nos mercados, estruturas e eventos”.

E numa lógica local, mesmo com a falta de crítica, escrita e pensamento sobre a produção artística nos países africanos de língua portuguesa, Paula acredita que “cabe-nos a nós, que estamos no continente, pensar no futuro”, forçar as medidas públicas e privadas para fortalecer a divulgação e consolidar a produtividade nas diferentes expressões artísticas.

Para ouvires a entrevista completa a Paula Nascimento, basta fazer play acima.

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