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Isabel Zuaá, Nádia Yracema e Cleo Diará, na Power List 2022 | ©Bruno Miguel
Isabel Zuaá, Nádia Yracema e Cleo Diará, na Power List 2022 | ©Bruno Miguel

Pontes do agora


Conheci a atriz portuguesa Isabél Zuaa, em 2015, por ocasião do lançamento do filme Kbela, da cineasta Yasmin Thayná, do Rio de Janeiro.

O curta-metragem, a partir dos cabelos crespos, apresenta uma narrativa visual e de olhar sensível sobre a experiência do racismo vivido cotidianamente por mulheres negras. Ali, não se trata apenas da realidade de muitas brasileiras, mas também de africanas, uma vez que a Zuaa é filha de mãe angolana e pai guineense. 

Nosso segundo encontro audiovisual veio no início de 2020 (pré-pandemia), quando fui voluntária do Festival de Cinema Latino-americano de Toulouse, no sul da França. O filme era Um animal Amarelo, de Felipe Bragança, história de um cineasta falido que mergulha em uma jornada entre Brasil, Portugal e Moçambique em busca de pistas sobre o passado de seu avô.

Em ambas as obras, a artista aparece com o rosto pintado de tinta branca, cada qual com suas representações e contextos, mas que, juntas, falam de um lugar que me interessa muito: as entrelinhas dos processos de branqueamento racial no Brasil, meu país de origem.

Essa ideologia amplamente aceite e propagada no país entre 1889 e 1914 como sendo a solução para o “problema do negro”, ainda vigora, apesar de sermos 56% da população autodeclarada negra e parda. O que daria possibilidade, aqui, de abordarmos o conceito de colorismo. Mas deixemos para uma próxima ocasião.

Embora eu não tenha os pés fincados nas artes – somente enquanto observadora e plateia de inúmeros espetáculos e performances de teatro e dança que pude ver e reportar durante o caminho jornalístico que tenho trilhado há 18 anos –, inicio este texto citando uma mulher negra porque, pelo segundo ano consecutivo, ela foi homenageada como uma das 100 Personalidades Negras Mais Influentes da Lusofonia, iniciativa encabeçada pela BANTUMEN desde 2021, com apoio das plataformas de comunicação Balai CV e Rádio Cidade (Cabo Verde); Inventivos e Mundo Negro (Brasil); No Balur (Guiné Bissau); PlatinaLine (Angola); STP Digital (São Tomé); e Xonguila (Moçambique).

Pela primeira vez, pude ver pessoalmente Zuaá com seu trio de arte performativa “Aurora Negra”, formado por Nádia Yracema e Cleo Diará, no palco do São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, onde ocorreu no último sábado (3) a cerimônia de homenagem. Entre homenageados e convidados, uma plateia de cerca de 160 convidados marcou presença.

Performance Aurora Negra, na Power List 100 de 2022 | ©Bruno Miguel
Performance Aurora Negra, na Power List 100 de 2022 | ©Bruno Miguel

Nesses quatro anos de França, em busca de pertencimento, ter meus passos ao encontro dos da BANTUMEN – que há sete anos vem abrindo portas, sacudindo a poeira dos tapetes e sendo referência em comunicação séria direcionada à comunidade negra, feita por uma equipa jovem que sabe de onde vem e para onde vai – dialoga com as agruras que vivi sendo uma moradora de periferia da Zona Leste de São Paulo – cidade cuja letalidade policial segue perseguindo e matando jovens negros. Mas também de desejos em comunicar e com vontade de mudança e transformação a partir do que somos.

BANTUMEN me parece sugerir um espaço seguro para “performar” e dar continuidades, no plural, ao que iniciei no Brasil. Mas noutro território, este tão expandido, bonito e potente da diáspora negra.

A performance que muitas vezes não pôde ser aplicada em ambientes profissionais, porque o modo como decidia usar meu cabelo implicava e questionava minha capacidade intelectual e mesmo ética. E que nas pontes do agora se faz possível e, sobretudo, necessária.

Trago o exemplo de Zuaá (adoro a sonoridade deste sobrenome e vou repeti-lo) justamente porque me atento e respeito a costura da vida. A costura que inventava na infância ao reaproveitar tecidos e transformá-los em roupas para minhas bonecas brancas. A costura entre palavra e arte, como quando a poetisa do Malawi, Upile Chisala (“eu destilo melanina e mel”, LeYa Brasil, 2020) diz que espera fazer com palavras o que dançarinos fazem com braços e pernas.

Nessa primeira passagem por Portugal, palavras como “fixe” e “miúda” me reensinam a escutar. E a falar. Falar a língua do colonizador, mas com verbos e venenos de resistência, palavra grifada em nossos dicionários.

A linguista e escritora brasileira Conceição Evaristo, de 76 anos, certa vez, disse assim: “é tempo de caminhar em fingido silêncio, e buscar o momento certo do grito, aparentar fechar um olho evitando o cisco e abrir escancaradamente o outro. É tempo de fazer os ouvidos moucos para os vazios lero-leros, e cuidar dos passos assuntando as vias, ir se vigiando atento, que o buraco é fundo. É tempo de ninguém se soltar de ninguém, mas olhar fundo na palma aberta a alma de quem lhe oferece o gesto. O laçar de mãos não pode ser algema e sim acertada tática, necessário esquema. É tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos, e que venham os dias futuros”.

2023 é logo ali.

*jornalista e escritora brasileira radicada na França, é curadora de conteúdos Brasil na Bantumen. Tem contribuições em projetos artísticos e socioculturais a partir de atuações em ONGs, revistas, rádio, televisão, fotografia, assessoria de imprensa e produçāo de eventos. É autora da biografia “Esumbaú, Pombas Urbanas! 20 anos de uma prática de teatro e vida” (2009), colabora com o site Teatrojornal – Leituras de Cena e é uma das criadoras do “Orgulho Crespo”, movimento nacional de valorização do cabelo afro iniciado em 2015 com a realização da 1ª Marcha do Orgulho Crespo São Paulo. A iniciativa integra o calendário oficial do Estado com o #DiaDoOrgulhoCrespo, celebrado todo 26 de julho por meio da Lei 16.682/2018.
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