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Sílvia Barros: “Sou apenas um corpo que carrega o poder de fazer arte”

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Se a vida tem dois dias, Sílvia Barros está a viver o seu terceiro. Filha de São Tomé e Príncipe, com soul na voz e vários traumas na alma, esta cantora é uma das jovens promessas da música em português deste 2022.

“Sa Foda” é a sua música mais conhecida – com o rapper Valete e o apresentador e Youtuber Rui Unas a contribuirem de forma espontânea para a promoção da faixa através das redes sociais. Além do título sugestivo, não é difícil perceber por que o single capta a atenção de quem quer que o oiça. A letra é um desabafo representativo da maioria dos comuns mortais, que trabalha exclusivamente para pagar contas e a quem, no fim do mês, não sobra dinheiro nem para um café. E depois, há um melaço na voz enrouquecida de Sílvia que cola-se ao nosso tímpano de uma forma que nem as forças de atração magnética de um íman poderiam explicar.

A história de Sílvia Barros começa em São Tomé e Príncipe, em 1996. A infância difícil – que hoje veste a composição da sua música – marcou-lhe o destino e a saúde mental. Cresceu com a dor da saudade de um reduto materno que nunca teve e com um pai despreparado para lidar com a paternidade.

Com uma família desestruturada no plano físico, sentimental e financeiro, Sílvia e o irmão foram criados por uma tia, enquanto a mãe trabalhava em Angola. Aos cinco anos, essa estabilidade forçada e vulnerável volta a quebrar-se e a artista é levada a mudar-se para Portugal com o pai.

® Wilds Gomes/ BANTUMEN

De repente, a humidade do calor de São Tomé não lhe escorria mais pela pele, não podia continuar a correr pés nus pelas ruelas que conhecia; não via caras familiares; não tinha amigos nem conseguia expressar-se com a mesma clareza que as outras crianças.

Na escola, além da violência racial – era apenas a “preta” ou a “escarumba”, como a chamavam – foi relegada, uma vez mais, à solidão e incompreensão, tanto pelos colegas como pelo corpo docente. O pai mudou-a três vezes de instituição devido ao bullying. Sílvia mal falava e não atendia às regras sociais e comportamentais que lhe eram impostas e acabou por usar a violência como defesa. Em casa, as punições físicas acabaram por ser o retratamento que o pai achou viável para o comportamento “rebelde” da filha.

No meio de todo este desamparo havia a música. Aos domingos, fazia parte do coro da igreja e, depois da missa, apoderava-se do piano e lá ia ajeitando umas notas em cima das outras que acabavam por criar uma certa harmonia melódica. Depressa, os elogios começaram a surgir e o pai decidiu inscrevê-la numa escola de música. Ali aprendeu as primeiras bases musicais e, o mais importante, a controlar a voz.

Entretanto, em 2013, um amigo inscreveu Silvia no “X Factor”, programa de competição musical que dá oportunidade ao país de escolher a próxima estrela portuguesa. Não chegou à final, nem tão pouco acredita ter ganho alguma coisa com a participação, enquanto artista. Contudo, serviu-lhe para ter noção de como funciona o mundo artístico e de que nem tudo são luzes, câmaras e ação, tal como explica na entrevista vídeo com a BANTUMEN.

Vários anos passados, Sílvia continuou a acumular traumas e dramas mas, desta vez, a nível de saúde. Com o diagnóstico de vários problemas a nível hormonal e do sistema reprodutivo (incluindo uma Endometriose), a sua já frágil saúde mental ressentiu-se. Sobretudo quando, no plano musical – o único que acaba por servir de autoterapia -, estava a tentar desemaranhar-se de um rol de promessas vazias do agente e produtora da altura.

Inspirada nessa fase surge “Sa Foda”. É na música que Sílvia deposita a sua frustração. Começou a compor “para deitar as coisas cá para fora. Era, e continua a ser, uma das formas mais autênticas de expressar o que sente.

Com várias músicas e dois EP lançados, a sua música é essência, a sua, nua e crua. Aliás, Nua é justamente o título do projeto lançado em janeiro deste ano. Nas suas cinco faixas ouvimos uma sensualidade soul rara em português e sem ajustes ao que os outros querem de si, ao sabor da sua intensidade e velocidade.

Com o tema “Difícil” a estrear-se nas próximas semanas, quisemos aprofundar a história desta artista leoa, que não tem medo de cantar as suas dores e verdades, com as suas vontades sentimentais e sexuais à mistura. “Eu sou apenas um corpo que carrega em mim o poder de fazer arte. Eu já falei disto com algumas pessoas. tu tens de perceber o teu tipo de artista (…) e o que realmente queres, se és um artista que realmente vibra com a música, com o poder de fazer música e capacidade de criares uma cena fixe, sabes? Não quero ser uma artista que faz para vender (…) quero fazer música como terapia, quero fazer música como uma cena que me faz bem”, explicou-nos.

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