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Simão Ukaka

Simão Ukaka, do rap à edição de livros de empoderamento social

Simão Ukaka é um jovem angolano que se define como um criativo pelas ideias do pensar, promotor cultural e defensor de causas ligadas à identidade Bantu. Com essa transversalidade do seu ser, Simão acaba de publicar o livro Crê & Cresce, para motivar outras pessoas, sobretudo jovens, no processo de realização e superação.

Residente na capital angolana, o autor está ligado a múltiplas atividades, não apenas ligadas à cultura e à identidade, como também ao empreendedorismo, marketing e às novas tecnologias de informação.

Por questões óbvias sociais, etnográficas e geográficas, no continente africano não é comum vermos jovens negros preocupados ou engajados com questões ligadas ao racismo e colorismo. Contudo, o perfil de Simão destaca-se da norma, cultivando a consciência do seu ser, enquanto homem negro, nas diferentes temáticas sociais e culturais que o atravessam.

Quando começou a sua aventura nas letras, motivado e vítima também do período pandémico, o assunto racismo e identidade africana foram proeminentes na sua lista de prioridades. Defende o jovem que a valorização da cultura, que vai além “do vestir e do comer, e prende-se, sobretudo, na identificação do amor e respeito pelo próximo, como formas de unificação e de um propósito fraterno”.

A escrita e mensagem de Simão está atrelada a um registo esperançado em relação ao mundo que o rodeia, numa tentativa de motivar quem o lê e de se curar a si próprio dos traumas e medos que vai enfrentando. “Daí, surge a ideia de criar frases motivadoras e de incentivo para encobrir o medo e tentar superar um momento de depressão que eu próprio enfrentava. À medida que fui praticando estes exercícios, sentia que a mesma servia de cura para mim também”, contou-nos. Assim, Simão Ukaka tenciona transmitir a prova do possível, apesar dos vários obstáculos que se atravessam conforme o próprio diz.

Simão nasceu num dos musseques da cidade de Luanda, no bairro Palanca (município do Kilamba Kiaxi), e foi lá onde também cresceu e marcou os primeiros passos da vida adulta. Deste tempo, o jovem autor recorda-se das brincadeiras, dos afetos e dos laços que criou apesar do período difícil e do berço humilde. Defende que a sua educação enquanto homem e intelectual teve base em quatro pilares fundamentais recolhidos destes eventos: a casa (que lhe deu educação e respeito), a escola (que lhe deu a instrução académica), o seminário (que lhe deu a educação religiosa) e a rua (que o ensinou o contacto com a sociedade). “A combinação destes quatro tipos de educação fez com que conseguisse adaptar-me a várias circunstâncias da vida, perceber e ultrapassar as adversidades do mundo. Desde muito cedo percebi que queria impactar as pessoas e deixar um contributo. Ser educado por estas fontes preparou-me, apesar de alguns sucessos e insucessos, a minha base sempre foi humilde, podendo voltar às minhas origens quando necessário. Todos os problemas e vitórias são momentos que inspiram e me dão vontade de poder estar amanhã a trilhar o meu caminho, pois cada indivíduo interpreta a vida de várias maneiras. Resumindo, a vida é a melhor escola de todas as escolas.”

Não dá pra fugir do que fomos feitos ou daquilo por que somos apaixonados

Simão Ukaka

Simão descobriu a sua veia artística bastante cedo, segundo o que nos contou e, apesar de não receber o devido apoio dos pais na altura, nunca baixou a guarda. Começou pela música, com o rap mais especificamente. Em 2014, lançou a sua primeira obra discográfica intitulada Códigos de Conduta, que contou com os hosts de DJs como Liu One e Maskarilha.

“A música tem uma grande influência na minha vida e esta serve também como uma ferramenta fundamental na proporção de paz interior, da informação, da educação musical com base nas diferentes culturas, como a do hip hop, do soul, do jazz e da sua versatilidade de estilos, que dá o impulso para produzir outros conteúdos de arte”, garante. “Não dá pra fugir do que fomos feitos ou daquilo por que somos apaixonados. O destino leva-nos de qualquer forma ao nosso propósito.”

Simão contou-nos ainda as dificuldades que enfrenta enquanto escritor independente numa realidade como a angolana. “Para artistas não patrocinados, a fase de distribuição e expansão dos projetos é o processo mais difícil, por exigir recursos que não dependem somente do autor”. Todavia, com ou sem dificuldades, o artista garante que sempre trabalhou em prol dos seus objetivos e realizações e que não almeja com isso atingir um lugar ou um público em específico. “Deixo que os resultados tomem o seu caminho, onde fizer sentido, as pessoas ou os lugares. No entanto, não almejo chegar a um lugar que não seja bem-vindo, não crio perspetivas direcionadas para um lugar ou público”, disse Simão.

Neste perseguir de sonhos e emaranhado de dotes e de ofícios, Simão contou à BANTUMEN que está a preparar o lançamento do seu mais recente livro motivacional, Crê e Cresce Um olhar sobre nós próprios, sob a chancela da editora Autografia Editorial. O autor define a obra como um livro de experiências, em que espera atingir jovens e não só, com uma mensagem próspera e uma visão motivacional.

Sobre o processo de escrita, que lhe durou cerca de dois anos, o autor garante ter sido compensatório do ponto de vista da experiência inteletual, pois serviu para clarificar pensamentos que tinha e ideias pré-concebidas. Deste processo de construção, o autor recorda o propósito que o levou à obra: “socializar conquistas e aprendizados obtidos durante uma fase da vida, de percurso ao longo de toda a trajetória já vivida, como um fazedor de opiniões e reflexão de vários pontos da sociedade em que estou integrado. A obra chega ao público, e garanto que foi o melhor de mim, feito até ao limite (…) Por intermédio desta, deixo o meu contributo ao universo, em especial à minha comunidade e um tributo aos bens já recebidos” explica o escritor.

Sobre o título, Crê & Cresce, porque “à medida que fui progredindo os meus conhecimentos sobre princípios, despertou-me a atenção o conceito “Crê”, que pode ser tão forte que define cada ação de uma pessoa. Não só a crença religiosa, como também uma noção em termos gerais. Surge como a temática de ajuda e influência a construir um perfil e a obter uma apresentação pessoal ou profissional. Ainda busca fortalecer a beleza existente em todos os aspetos da vida humana, mesmo que esta passe despercebida. É uma busca pela autovalorização, pela perceção de si mesmo. Como resultado, enxergamos retractos de uma realidade em que a beleza se molda à personalidade e não o contrário. Assim, Crê e Cresce provem da unificação de duas palavras destintas, em que o “crê” desenvolve a sinonímia do acreditar, do íntimo, do abstrato ou da termologia religiosa fé, com a palavra “cresce” de desenvolver, a todos os níveis do ser. Unificando-as, pretendo dar a perceber um processo de realização e superação, ligando pontos convergentes, do íntimo ao materialismo. A minha vida não seria a mesma sem as provações que passei. Vi Deus usar provações para me edificar, responder orações diferentes, abrir portas, ajudar os outros, e tenho visto muitos milagres onde sabia que só Deus poderia ter feito isso.”

Após a explicação do autor em torno da narrativa central da obra, questionámos Simão Ukaka se, no caso da realidade angolana apresentar-se ainda bastante controversa politicamente e, portanto, socialmente, se seria possível “apenas” crer e logo crescer neste contexto? “Claro! É preciso, muitas vezes, aceitar a realidade de que a felicidade é um momento. E quando tomar essa consciência, consegue-se lidar com qualquer outro fenómeno, fruto deste resultado”, disse o autor. “Por exemplo, quando começas a pedir para realizar um desejo, na mente ocorre um pensamento de fantasia. A melhor sensação é vê-lo a ser realizado. No momento, as tuas emoções manifestam-se com o desejo de usufruir de tudo o que o momento proporciona. É aí onde se realça o processo, quando ganhas a consciência, faz-te perceber “bens não resumem o teu desejo”, mas sim a mudança, o desenvolver. Este sim é o maior fruto ganho em toda e qualquer realização. (…) Não é sobre o resultado que me baseio apenas em partilhar. É o conteúdo sobre o processo em volta, sobre aquilo que se precisa fazer ou dedicar para se tornar no resultado”.

O sucesso não é um fenómeno acidental, é trabalho, perseverança, aprendizado, estudo e muito sacrifício

Simão Ukaka

Nas palavras do autor, esta obra é constituída por três capítulos, com conceitos e ferramentas que simplificam práticas rotineiras que podem levar à prosperidade. “Amor, como elemento que mantém alimentado o espírito, que faz encarar e ultrapassar vários desafios da vida, que faz lutar pelos seus e conquistar aquilo que é de direito. Identidade, como suporte, aquilo que caracteriza qualquer ponto, lugar ou meio social. Compromisso, como o segredo da vida ‘próspera’. Mudança como ação que realiza, um voto de transformação. Em suma, na linha deste processo de construção, os nossos hábitos não são as únicas ações que influenciam a nossa personalidade, mas são as mais importantes”, respondeu.

Questionámos ainda Simão sobre a sua definição de sucesso, ou o que poderíamos encontrar na obra relacionado ao tema. “O sucesso não é um fenómeno acidental, é trabalho, perseverança, aprendizado, estudo e muito sacrifício. Sobre sacrifícios, refiro-me em tomar difíceis decisões. Grandes decisões são grande parte do processo. É a sensação de felicidade, de missão cumprida, de mais um degrau alcançado”, afirmou.

Em Crê & Cresce, a ideia de sucesso está atrelada ao empoderamento Bantu. O autor refere que é necessária uma resistência civil contra a ignorância dos regimes e dos sistemas que, no seu entender, estão na base da violência direcionada, da desigualdade e da discriminação. “Considero tudo isto maior do que o preto e o branco ou o estatuo social. É um problema de afeto a todo modo de vida. Claro, não se pode mudar da noite para o dia mas temos que começar por algum lugar e mais vale começar pela cabeça, pela nossa consciência. (…) À medida que continuamos a trabalhar por um futuro melhor e ainda mais inclusivo, honramos as contribuições que as personalidades Bantu fazem e continuam a fazer nas comunidades e em torno dos setores da sociedade a nível mundial. Ser empoderado é uma luta da afirmação, pela maior necessidade de enquadramento, da aceitação de espaços. De ser coerente e equilibrado, entender que o caminho é para frente.”

Crê e Cresce Um olhar sobre nós próprios, sob a chancela da editora Autografia Editorial, deverá chegar em breve às livrarias, entre outros pontos de venda, em Angola e noutras geografias.

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