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Spiri-Anim
Spiri-Anim | © DR

Spiri-Anim, o rap em português no mapa Holandês

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Desde pequeno que a música faz parte da sua vida, as memórias que tem são do pai a colecionar discos de vinil e Cds. O ambiente em casa era musical, das colunas soavam os sons vindos das ilhas Morabeza de Cabo-Verde e da terra da Palanca Negra, Angola. Foi assim que o gosto pela música começou a fazer parte da sua rotina, assim como os ritmos que o seu corpo expressava.

Falamos de Spiri-Anim, rapper angolano que na música descobriu a forma mais pura de expressão, primeiro em casa e depois na escola. O Rap foi o factor mais importante dessa imersão, através do seu colega já falecido, Action Nigga que, na altura, fazia batalhas de freestyle contra outros rappers. Segundo Spiri, Action Nigga “era muito bom no improviso, no flow e jogo de palavras, e eu passei a gostar muito daquele formato musical, que era o Rap. Daí comecei a ouvir Rap nacional e internacional, como Clique LV, Consciência Ativa, McK, Filhos Da Ala Este, Boss Ac, Black Company, Dealema, entre outros. Do rap internacional ouvia Wu-tang-Clan, B.I.G, 2 Pac, Flipmode Squad, Nas, Rakim, Pharoahe Monch, Talib Kweli e Mos Def”.

Aquele novo mundo que acabara de descobrir deixava-o encantado, pela forma como os beats eram feitos, como o flow soava, a sonoridade e a forma como os MCs rimavam nas suas músicas. Sentiu que o Rap era a forma de expressão musical mais próxima da forma normal de falar e tinha a certeza de que esse seria o estilo musical que um dia gostaria de fazer.

Em 2000, emigrou para Holanda e foi o ponto de viragem na sua vida. Tanto a nível pessoal como musical. Começou a dar os primeiros passos na música, por incentivo de um pessoa que conheceu no país onde as tulipas pintam a paisagem. Em pequenas atividades relacionadas com a música, Spiri cantava e fazia playbacks de artistas como SSP e Boss AC, mas nada sério, porque nunca achou que um dia viria realmente a fazer música.

Spiri-Anim
Spiri-Anim | © DR

“Acredito que se continuasse em Angola também poderia começar a fazer música, uma vez que já tinha entrado no mundo do Rap e já andava com rappers. Por força das circunstâncias comecei a fazer música na Holanda e a minha experiência de imigração só ajudou a ganhar mais inspiração para começar a fazê-lo. Estava aqui sozinho e sem os pais, então cedo ou tarde tinha de arranjar um escape emocional, que por sinal passou a ser a música”, explicou.

Antes de viajar, Spiri fez questão de se preparar mentalmente para o choque cultural e a alteração drástica de temperatura, mas com apenas 13 anos nunca se está totalmente preparado. O rapper confessou-nos que, além da língua, o frio foi um desafio grande e que até hoje ainda não se acostumou e continua “a gostar de um bom calor”. Embora os primeiros anos tenha sentido muito dificuldade em adaptar-se, começou a gostar da sua nova realidade e as novas experiências, como ver neve, acabaram por conquistá-lo. Entretanto, passaram-se 20 anos e já se sente mais integrado.

A música servia de terapia e Sap-Sciens-Cult, o rapper que mais o incentivou a fazer música de forma ativa, era o terapeuta. Foi ele que levou Spiri a sua casa para uma batalha de freestyle. “Quando o Sap-Sciens-Cult começou “fiquei tão boquiaberto com a capacidade dele de improviso e o jogo de palavras, que a batalha nem chegou mais a acontecer. E disse logo que ele era o tipo de MC que eu andava à procura desde que saí de Angola”.

Entre risos, a conversa foi fluído entre os dois, o tema principal era Hip-Hop, e daí nasceu uma grande amizade. As batalhas, que passaram para as ruas, começaram a fazer parte da rotina, juntamente com outros rappers angolanos e holandeses. As rimas que se ouviam ora eram em português ora em holandês por mais estranho que soasse, porque “o que contava era a convivência, a vibe e a partilha do estilo musical com que nos identificávamos”.

Spiri-Anim
Spiri-Anim | © DR

Com o tempo foram conhecendo mais rappers angolanos e assim o Hip-Hop em português foi crescendo na Holanda. O Sap-Sciens-Cult foi como um mentor para Spiri, aprendeu muito. “Nada é mais gratificante do que poder fazer música ao lado de alguém que tanto admiras como MC”. Para Spiri foi importante tê-lo conhecido, porque serviu de dedicação, foi a influência e energia necessárias para que começasse a fazer Rap.

Juntos, criaram a Galáxia Heterogénea, um grupo de Hip Hop com nove elementos. O Rap que faziam na altura era místico – em que há mistério ou razão incompreensível – devido à forma como escreviam e como abordavam os temas, com muitas metáforas, com um vocabulário acima da média, ao mesmo tempo muito criativo, interventivo e diversificado relativamente aos temas. Viam-se “como estrelas numa galáxia onde os outros rappers não tinham como conseguir aparecer, sequer. Então criámos a nossa própria galáxia que não tinha nada a ver com o mundo dos outros MCs.

Só depois do grupo ter os nove elementos, adicionaram o segundo nome, Heterogénea. “E observei que cada um de nós era tão diferente uns dos outros na forma de rimar, mas formávamos um coletivo bem coeso. Todos concordaram com o nome e passámos a ser Galáxia Heterogénea, uma galáxia formada por elementos de naturezas diferentes”.

A Galáxia Heterogénea era composta somente por rappers angolanos. A comunidade angolana na Holanda crescia à medida que os anos foram passando e o mesmo aconteceu com o número de MCs angolanos que foram surgindo. O grupo passou a interagir também com os pares holandeses e foi ganhando notoriedade. O primeiro grupo renomado com quem interagiram durante muitos anos foi os “Nuclear Family”. Inicialmente, apesar da barreira barreira da língua, gostavam da sonoridade e dos beeats samplados de filmes de terror, e chamavam o conjunto angolano para atuar nos seus shows. Um dos elementos da Nuclear Family, Vecsy D, foi o responsável pela produção completa do primeiro álbum dos Galáxia, Pêsames & Condolências.

“De uma forma geral, os holandeses amantes do Hip Hop achavam a nossa energia vocal e sonoridade muito interessantes. Passámos então a receber vários convites para shows em eventos de Hip Hop maioritariamente cobertos de MCs holandeses, inclusive no maior festival de Hip Hop da Holanda, o Hague Hip Hop. Também já tivemos o privilégio de fazer a abertura de um show dos Opgezwolle, que ocorreu na cidade de Delft, considerado o melhor grupo de Hip Hop holandês até aos dias de hoje”, explicou Spiri.

O primeiro álbum do grupo teve uma receção melhor do que o esperado. O público holandês aderiu mais do que o público angolano. “Os holandeses gostam de conhecer novas coisas e interessam-se muito por outras culturas. O álbum foi patrocinado por um promotor de eventos chamado Dam, que também passou a ser um fã incondicional desde que nos viu a atuar num dos shows dos Nuclear Family. Fazíamos música por amor à camisola. Entretanto nunca chegámos a ir à procura de um agente que fizesse a gestão da nossa carreira a nível profissional e nunca tivemos um grande marketing, também por falta de experiência profissionalmente falando. Isso fez com que tivéssemos uma projeção limitada a nível dos outros países de língua portuguesa e éramos conhecidos principalmente na Holanda em torno dos amantes do Hip Hop”, acrescentou.

Em 2010, Spiri montou o seu estúdio musical e criou uma label independente, Vibrações Cardíacas. Nos últimos anos dedicou-se mais à produção de outros artistas de várias nacionalidades e, uma vez ou outra, ainda gravava umas faixas com a Galáxia Heterogénea. Depois de grande parte dos elementos terem saído do grupo por questões pessoais, Spiri continuou a gravar com Sap-Scies-Cult e continuaram os dois como Galáxia Heterogénea, com dois novos elementos, o Hexag Intellectuz aka Methamorfoze e DJ Ekinócio Letal, que até hoje mantêm-se no coletivo.

Já em 2021, o rapper Spiri-Anim focou-se na sua carreira a solo, depois de ter produzido para muitos artistas que só o feizeram “gastar tempo, energia e dinheiro”. E isso fez com que se lembrasse do potencial que tinha em si, e que já estava na altura de investir em si próprio como artista.

“Preferia não gravar só por gravar e se tivesse de gravar teria de dar todos os passos necessários para fazer e lançar músicas a nível profissional. Não queria ficar preso só a gravar e a mandar músicas para a Internet. Comecei a sentir a necessidade de dar todos os passos certos de A até Z para fazer música profissionalmente”, explicou.

Spiri-Anim vai agora lançar o primeiro projeto a solo, o single “A Mentira Com Pernas Longas”, que também já tem videoclipe. “A produção completa desde a música ao videoclipe foi muito satisfatória e vai dar uma nova imagem ao Hip Hop feito em português. A música foi produzida por mim pelas Vibrações Cardíacas e o vídeo foi produzido por Márcio Gomes pela Gomesfilm”.

O tema “fala do aumento preocupante de homens e mulheres de má fé em todo o mundo, a extorquir pessoas crentes em nome de um Deus com as suas falsas promessas de prosperidade e abundância na vida. O que mais se nota na verdade é que os crentes acabam na miséria, enquanto os seus líderes religiosos se enriquecem cada vez mais com as suas ofertas. Deixo também um apelo às pessoas para que aprendam a andar sozinhas na vida, em vez de julgarem conhecer o caminho para no final descobrirem que afinal estavam enganadas o tempo todo”.

Para além do single, o rapper está também a trabalhar no seu primeiro álbum. Tem estado em estúdio a produzir e a escrever mas, sendo muito perfecionista, explica que vai levar o tempo que for preciso para fazer um álbum que seja um clássico. “No meu próprio estilo de fazer música e sempre com as minhas sonoridades épicas”.

Spiri também quer ter produções de outros produtores, desde que estes não se distanciem muito do seu contexto sonoro, como quer também ter participações de alguns nomes notórios
do Hip Hop em português. Alguns desses nomes são, Fuse (Dealema), Raf Tag, Bob Da Rage Sense e Valete.

O álbum ainda não tem previsão de lançamento, porque o principal para o rapper é trabalhar na sua própria velocidade e fazer bem o que for que esteja a fazer. É muito crítico e rigoroso com o seu trabalho, e é justamente isso que proporciona-lhe resultados satisfatórios.

Para este ano, antes de lançar um projeto maior vai lançar um EP que vai ilustrar aquilo que será o álbum. Também fará alguns trabalhos com a Galáxia Heterogénea e irá participar em projetos de outros artistas.

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