PUB

Do ‘graffiti’ e da ‘pop art’ para o activismo. As mensagens de Shepard Fairey em Lisboa

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

O artista norte-americano Shepard Fairey inaugurou esta sexta-feira, em Lisboa, “Printed Matters”, exposição que mostra sobretudo peças impressas, técnica que crê “não ter os dias contados”, e cujo conteúdo activista gostava de ver mais vezes nas Artes Visuais. Pela cidade deixou, também, murais para ver. Conhecido pelo retrato “Obama Hope” e pelo projecto “Obey”, o artista não hesita na palavra que acompanharia a imagem de Donald Trump: “Narcisismo”.

Shepard Fairey inaugurou, na galeria Underdogs, “Printed Matters – Lisbon”, parte de uma série contínua de exposições que é também o nome do projeto que iniciou em 2010, e foi apresentado pela primeira vez em Los Angeles.

Esta semana criou murais em Lisboa, na zona da Graça e nas Amoreiras, um destes a meias com o português Vhils.

O reconhecido artista urbano e ‘designer’ gráfico, de 47 anos, que vive e trabalha em Los Angeles, combina no seu trabalho elementos do ‘graffiti’ e da ‘pop art’, e tornou-se conhecido com o projeto “Obey”, que iniciou em 1989 com um ‘sticker’ (autocolante) criado pelo artista, quando estudava na Rhode Island School of Design, e acabou por se tornar uma campanha de arte de guerrilha, a nível mundial.

“Printed Matters – Lisbon”: Obras que lançam alertas

“Printed Matters” é parte de uma série contínua de exposições que é também o nome do projecto que iniciou em 2010, tendo sido apresentado pela primeira vez em Los Angeles, e que chega agora à galeria Underdogs. Em cada exposição, o artista vai acrescentando obras inéditas.

Os trabalhos expostos são sobretudo impressões em madeira, papel e metal, mas há também ‘stencils’, que Shepard Fairey usou para pintar nas ruas e que, quando começam “a ficar frágeis”, são reformados “como objetos de arte em molduras”. Em comum têm as cores utilizadas – vermelho, preto, dourado e creme, que o norte-americano começou a usar “por uma questão prática”, embora haja uma série de trabalhos em azul, criados para a exposição “Earth Crisis” (“Crise da Terra”) – e o teor activista.

“Estou constantemente a tratar os temas do poder abusivo, da necessidade de questionar a autoridade, do poder abusivo do mercado empresarial, da maneira como as empresas, especialmente nos Estados Unidos, influenciam o governo, da destruição ambiental e das alterações climáticas, da vigilância e da desintegração da comunicação social. Há peças sobre esses temas, não só nesta exposição, mas em todas as que faço e estou sempre a encontrar maneiras novas de os abordar”, contou, em entrevista à agência Lusa, em Lisboa.

Shepard Fairey vê na arte “uma ótima maneira de comunicar”. “Conseguir fazer uma imagem de que estou orgulho e me dá gozo fazer, mas que também diga alguma coisa é importante para mim, porque me permite ter os dois lados da minha personalidade”, referiu.

É fã de bandas e artistas como Rage Against the Machine, The Clash, Public Enemy, Bob Marley, Neil Young, Bob Dylan, “que intervêm [politicamente] através do que fazem”. Considerando que “os músicos o têm feito mais frequentemente do que os artistas visuais”, Shepard Farey gostava de “o ver feito mais vezes nas Artes Visuais”.

Como exemplos de quem já o faz, falou do britânico Banksy, do português Vhils e do francês JR, recordando ainda o trabalho dos veteranos norte-americanos Barbara Kruger e Robbie Conal, “politicamente opinativos”.

“Gostava de ver mais disso, especialmente nos Estados Unidos, onde é importante neste momento. Mas não vou dizer aos outros artistas como devem fazer o seu trabalho”, afirmou.

Com uma exposição composta sobretudo por obras impressas, não crê “que a impressão tenha os dias contados, apesar de também usar plataformas ‘online’ e técnicas digitais”.

“Sentares-te à frente de um computador e receberes informação ou olhares para ela no teu telefone é muito impessoal, muito seguro e muito desprendido. A impressão, seja algo que podes ver aqui a três dimensões ou nas ruas, como um ‘poster’ ou um mural, uma intervenção artística na paisagem, liga-se ao que é visceral e vital em estar-se vivo, que é viver a vida e ser-se capaz de sentir coisas, e isso nunca vai desaparecer, vai ser sempre importante para as pessoas”, defendeu.

No âmbito da exposição, Shepard Fairey criou três murais em Lisboa. Um deles, na rua Senhora da Glória, é uma colaboração com Vhils.

“A minha parte do mural, metade do rosto de uma mulher muçulmana, é baseada numa série que fiz chamada ‘Universal Personhood’. Em vários países muçulmanos a mulher não era considerada uma pessoa completa até há pouco tempo, era três quintos de pessoa. A isso juntas que, no mundo ocidental, se acha que se deve ter receio dos árabes e que estes contam como menos. Quero ver ‘Universal Personhood’ [personalidade universal] para todas as mulheres no mundo, independentemente de que zona são, de que religião”, explicou.

My “Peace Guard” mural in #Lisbon is complete! More shots coming soon! ????: @jonathanfurlong #OBEYWorldwide

Uma publicação partilhada por Shepard Fairey (@obeygiant) a

A mulher muçulmana de Shepard Fairey e o retrato de uma outra de Vhils “convergem”. “A ideia é de que todos podemos juntar-nos. Podemos ser todos de perspetivas diferentes, mas temos todos algo em comum”, salientou.

Nos outros dois murais surgem figuras fardadas, com armas na mão de onde saem flores – no da rua Natália Correia, na Graça, uma mulher, e na rua José Gomes Ferreira, às Amoreiras, um homem.

Nestes dois murais há “uma boa sobreposição entre os Estados Unidos e Portugal”.

“O Vhils explicou-me o simbolismo da flor na arma da revolução de 1974, e é um símbolo que tenho usado no meu trabalho como símbolo pró-Paz, inspirado pelos protestos contra a Guerra do Vietname nos Estados Unidos, em que os estudantes universitários colocavam flores nos canos das armas dos militares da Guarda Nacional. A flor e a arma [foram pintados] como símbolo pró-Paz e reconhecimento da História de Portugal”, contou.

O desenho do mural da rua Natália Correia, da “guarda da Paz”, será impresso numa edição limitada a 450 exemplares, dos quais metade serão vendidos pela Underdogs e a outra metade estará disponível através do ‘site’ do artista, depois da exposição de Lisboa.

Para Shepard Fairey, que considera “muito importante” pintar na rua, o lado bom da impressão é poder mostrar trabalhos de que se orgulha em locais diferentes. “Em vez de apenas uma grande exposição num ano, posso fazer várias e os trabalhos têm um preço mais acessível, mas mesmo assim acho que são boas peças de arte”, disse.

Em Lisboa, será possível ver ao vivo, e de forma gratuita, esses trabalhos, entre hoje e 31 de julho e de 01 a 23 de setembro. Já os murais pertencem agora à cidade e não têm data prevista para desaparecer.

Shepard Fairey está em Portugal a convite da plataforma Underdogs, que tem como responsáveis a francesa Pauline Foessel e Vhils.

Subscreve a nossa newsletter e fica a par de tudo em primeira mão!

WP Post Author

PUB