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Ademir Moreno, o racismo continua a matar em Portugal

faial

Ademir Moreno, um homem de 49 anos, cabo-verdiano a residir em Portugal, foi vítima de uma agressão fatal à porta de uma discoteca, na madrugada do passado domingo, 17. Testemunhas oculares atestam que Ademir foi vítima de um crime motivado por ódio racial.

Calceteiro de profissão a viver no Barreiro, mas deslocado para a ilha do Faial, nos Açores, há pelo menos três meses, Ademir Moreno encontrava-se no estabelecimento noturno sozinho e que terá tentado separar uma luta.

Nos vários relatos dados à imprensa nacional, testemunhas indicam que Ademir foi agredido com um soco, tendo caído inanimado. A vítima foi assistida pelos bombeiros do Faial e transportada ao hospital em estado crítico. Esteve em coma induzido até à tarde de segunda-feira, 18, altura em que o óbito foi declarado.

A Polícia Judiciária já anunciou a detenção do alegado autor da agressão . “O caso está a ser investigado neste momento. Felizmente já conseguimos que as testemunhas que nós temos fossem depor. Não sei a nível de julgamentos como é que está a correr. A manifestação teve um bom efeito nesse sentido, porque foi bom para motivar a pesquisa mais aprofundada sobre este assunto”, citou a RFI.

Ao contrário do que, por norma, acontece quando um crime é cometido por um membro da comunidade imigrante ou racializada, nem as autoridades nem a imprensa portuguesas revelaram o nome e imagem do responsável pelo incidente no Faial. Mamadou Ba, ativista atirracista, desvendou nas suas redes sociais que Adriano Pereira, um jovem de 23 anos, português caucasiano, é o presumível autor do crime. “Ademir Araújo Moreno, de origem cabo-verdiana, foi assassinado por Adriano Pereira na cidade da Horta, Ilha do Faial. Segundo consta, Adriano Pereira é conhecido por insultar e agredir pessoas negras. Histórias de homens negros mortos na rua por racistas são conhecidas entre nós, como é conhecida a estratégia de ocultar o móbil racista dos crimes que os vitimaram. Não embarco na conversa das cautelas nem dos pedidos de calma, porque a regra geral é quase nunca admitir que uma pessoa negra pode ser morta precisamente por ser negra. Apenas por ser negra. Nos últimos anos, tivemos Giovanni Rodrigues, Bruno Candé e agora, temos Ademir Araújo Moreno. Até quando?“, indagou Mamadou Ba.

O caso gerou revolta na comunidade açoriana, sobretudo imigrante, que organizou uma vigília em memória da vítima e para denunciar o racismo e violência na região. “Não ao racismo!” e “Justiça pelo Ademir!” foram algumas das palavras de ordem proferidas, enquanto a comunidade imigrante da ilha do Faial pediu um julgamento imparcial para o agressor. Ella Statmiller, uma das organizadoras da manifestação, explicou: “O nosso objetivo é apelar a um julgamento mais justo, imparcial, limpo e sem preconceitos por parte das autoridades“.

Ella Statmiller sublinha ainda que, pelo menos ali na Ilha do Faial, por ser uma região relativamente pequena, em que a questão racial é relativizada, a população racializada ali presente acaba por ter uma atitude passiva quando confrontada com a violência racial. “Eu acho que há, muitas vezes, uma atitude um bocado passiva e é isso que nós queremos mudar. Nós queremos tentar dar voz a estas pessoas, que muitas vezes não sentem que têm espaço para serem ouvidas e fazer com que se sintam mais à vontade para poderem partilhar este tipo de situações”, explicou Statmiller.

A Associação dos Imigrantes dos Açores (AIPA) condenou veementemente a agressão, apelando às autoridades para punirem os responsáveis. “A AIPA vem, por esta via, repudiar atos de violência verbal e física contra qualquer ser humano, independentemente de se tratar de um imigrante ou autóctone”, afirmou Leoter Viegas, presidente da AIPA.

A sublinhar que, de acordo com o apurado pela agência Lusa junto da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana, o registo de crimes de ódio em Portugal subiu 38% em 2023. No total, as autoridades registaram 347 crimes de discriminação e incitamento ao ódio em 2023, mais 77 casos do que no ano anterior.

A recordar que, no final de 2023, em Setúbal, Gurpreet Singh, jovem indiano de 25 anos, foi morto com um tiro de espingarda no peito enquanto estava no quarto de uma casa partilhada com outros cinco trabalhadores, também oriundos da Índia. Os disparos que atingiram o jovem partiram de uma janela do outro lado da rua. Os irmãos, portugueses, caucasianos, de 22 e 29 anos, acusados de homicídio qualificado, foram detidos e investigação indica que a tentativa de massacre dos seis homens indianos foi um ato de puro racismo.

Notícia atualizada às 8:00, de 22/03/2024.

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