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Boddhi Satva: “O afrohouse é um estilo de música que deve receber respeito”

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No início deste mês, acompanhámos o DJ e produtor Boddhi Satva numa apresentação ao vivo no primeiro festival Djoon, organizado pelo mítico espaço noturno parisiense e que juntou artistas, gravadoras e coletivos globalmente conhecidos.

Antes de assistirmos ao evento – que aconteceu num campo aberto em Aubervilliers, vila que delimita a fronteira entre Paris e o departamento Seine-Saint-Denis, que concentra a maior fatia do bolo afrodescendente da região Ilha de França – sentámo-nos com o artista da República Centro-Africana a viver em Portugal para ouvir na primeira pessoa algumas impressões sobre a produção do projeto.

Poucas dias antes, tínhamos ouvido pela primeira vez Manifestation, um álbum que considerámos soul food para os nossos ouvidos. Foram nove meses de produção, com calma e sem a pressão que normalmente antecede o lançamento de um disco. Afinal, este projeto estava focado nos singles e não no todo. Talvez por isso, Boddhi tenha conseguido juntar com naturalidade mais de 40 artistas em Manifestation, de diferentes paragens, estilos e vibes.

Boddhi Satva
Boddhi Satva em entrevista para BANTUMEN

A encerrar a trilogia, que conta com Evocation e Transition, Satva alisou-se a amigos e amigas para criar um projeto que viaja entre o afrouhouse, rnb, amapiano, soukouss, trap, entre outros estilos – o que por si só define a base daquilo a que chama ancestral soul. “Ser o pai da terceira renovação da identidade do que se chama afrohouse vem com muitas responsabilidades. (…) Sou primeiramente um artista, alguém que gosta de experimentar, um produtor e um DJ. Recebi uma educação musical tão forte, tão rica, que queria ter uma forma de expressão artística que não podia ficar presa naquela caixa do afrohouse. Com o ancestral soul posso meter lá um pouco de trap, amapiano, rnb, soukouss, dambolo, etc”, explicou-nos.

Este último trabalho de estúdio, o mais conceptual do artista, é um guilty pleasure para os amantes do Afro House, com sonoridades mais urbanas entrelaçados com o ritmo frenético das grandes cidades africanas como Bamako, Dakar ou Nairobi. Na produção, Boddhi Satva cercou-se, mais uma vez, de amigos e artistas unidos na necessidade de partilhar e fazer música e magia nestes tempos sombrios de pandemia global.

Dividido em dois discos num total de 31 temas, Manifestation congrega mais de 40 artistas num caldo de música para a alma, onde Satva é o maestro que alinha o compasso entre nomes já bem cimentados e outros em ascensão. Tekilla, Kaysha, Laton, Coréon Dú, Preto Show, Dino d’Santiago, DJ Satélite, Jackson D’Alva, ÉLLÀH, Melissa Fortes e Jorge Bezerra (percussionista vencedor de um Grammy) são alguns desses artistas do mercado lusófono. A nível internacional, a tracklist apresenta Ekele, Spilulu, Pierre Kwenders, Bilal, Fredy Massamba, o rapper ganês Stonebwoy entre vários outros músicos que fluem entre diferentes sonoridades africanas.

Boddhi Satva em entrevista para BANTUMEN com VAnessa Sanches

A conversa com Boddhi Satva divergiu ainda para a sua visão sobre o momento atual da música com origem africana no cenário lusófono e explicou-nos como, para si, a consciência artística é – ou deveria ser – um movimento circular entre antigas e novas gerações. “Estás a influenciar novas gerações de produtores e agora com 21 anos de carreira também há um return em que os produtores que estou a inspirar também me inspiram”, afirmou.

Essa circulação de influências é o que acaba por convergir em novas sonoridades, como o que originou o ancestral soul. “O artista é um testemunho dos movimentos sociais e culturais e ficar parado numa certa identidade – não estou a dizer que não tens de guardar a tua identidade, mas abre o jogo, senão, vais ficar fechado e bloqueado numa forma de viver e experimentar a tua arte muito limitada. Em Portugal, estou a ver isso [estas movimentações culturais] com os artistas PALOP, que estão agora a mexer com muitas energias, influências, batidas, mas ao mesmo tempo criatividade”, analisou.

E é exatamente por isso que “o afrohouse é um estilo de música que deve receber respeito porque é uma música que nunca fica parada numa certa vibe. Vai sempre evoluir”, asseverou o artista.

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