Proprietário do Docks pronuncia-se sobre polémica com Preta Rara e Érica Malunguinho

The Docks Club, Lisboa | DR
The Docks Club, Lisboa | DR

Preta Rara, rapper, professora, historiadora, feminista e ativista, e Érica Malunguinho, ex-deputada estadual brasileira, reportaram nas redes sociais um episódio de xenofobia e misoginia no conhecido estabelecimento noturno The Docks Club, em Lisboa.

O episódio aconteceu no passado sábado, 8, e as imagens que Preta Rara publicou nas suas redes sociais mostram um dos mais antigos seguranças do espaço, que na descrição a artista indica ter sido “totalmente violento”, tendo inclusive empurrado Érica Malunguinho.

“O segurança foi totalmente violento falando que não estávamos vestidas [de forma] adequada e ele empurrou a Erica, falando que nós brasileiras somos fáceis e que só entraríamos se pagasse €1500”, escreveu Preta, numa publicação no Instagram.

A artista indica ainda que, durante a altercação, não houve uma tentativa de entrar no espaço mas acabaram por arrolar “numa discussão (…) pelos insultos” que sofreram.

O The Docks Club é um dos mais conhecidos espaços noturnos da cidade de Lisboa, tornado-se popular com as suas concorridas noites africanas. Contudo, o clube noturno é também apontado por atitudes rudes e racistas contra a clientela, cuja boa parte é negra.

Divulgam esse lugar como um espaço de música preta e a gente sofre racismo, xenofobia, misoginia e transfobia na porta desse estabelecimento que o dono é Sing Correia, um dos poucos proprietários pretos em Lisboa”, revelou Preta Rara.

Apesar das crítica em relação à indumentária das duas mulheres, por parte do porteiro, alegados clientes que estavam na altura no Docks revelaram vídeos de outras clientes no interior do espaço, brancas, vestidas com trajes curtos.

Também nas redes sociais, Érica Malunguinho desabafa sobre o ocorrido e a experiência na cidade. “Lisboa em si já é um lugar péssimo pra pessoas pretas e trans. Só fui até lá porque fui convidada pra um trabalho com parlamentares e organizações de mulheres negras, não à toa muitas mulheres relataram experiências violentas do racismo no país. A situação degradante na The Docks Club foi a cereja do bolo. Mas isso não vai ficar assim”.

Os relatos de Érica e Preta são reforçados pelas críticas ao estabelecimento nas classificações do Google. São vários os comentários que reportam situações semelhantes às vividas no sábado, 8.

A BANTUMEN falou com o proprietário do Docks, Sing Correia, que confirmou já ter conversado com a artista Preta Rara, a quem apresentou as suas desculpas pelo sucedido. Contudo, Sing reforça que a acusação de o estabelecimento compactuar com ações racistas não deve ser levada de ânimo leve, uma vez que ele próprio é africano e “os clientes que frequentam a casa são na sua maioria africanos“.

Questionado sobre possíveis medidas a implementar para evitar situações semelhantes no futuro, o empresário foi peremptório: “tenho tomado medidas para diminuir a insatisfação das pessoas. Tenho consciência que os seguranças não são os mais afáveis e não são fáceis, até porque tenho vários reports de pessoas que realmente são maltratadas à porta da discoteca e tenho estado mais em cima dessa situação. Mas os maltratos não são só no Docks. Os maltratos são em ‘n’ discotecas em Portugal mas, infelizmente, quando se trata entre nós, africanos, a repercussão é maior. Morrem pessoas às portas de discotecas que ninguém aborda [o nome dessas discotecas] mas se acontecer uma morte à porta do Docks todos os noticiários vão falar.”

Sobre o impedimento de entrar no estabelecimento, “há uma interpretação errada relativamente ao ‘barrar’. O Docks não barra ninguém até porque em Portugal não existe a lei do direito de admissão. O que existe é um consumo mínimo que é a única maneira que as pessoas têm de dizer ‘não podes entrar’. Todas as pessoas a quem é vetada a entrada no Docks, essas pessoas são convidadas a pagar o consumo mínimo de 1500 euros e as pessoas revoltam-se com isso. (…) Inclusive, a situação que aconteceu no fim de semana, foi-lhes cobrado os 1500 euros. Claramente que, o segurança pode ter tido uma atitude negativa e é aí que tive a humildade de pedir-lhes desculpa”. Quanto ao “consumo mínimo é de lei. A pessoa se estiver disposta a pagar, vai entrar”, explica Sing.

Depois do sucedido, Sing alerta ainda que “para todas as situações temos de olhar para o lado crítico. Se existiu uma situação menos boa por parte do Docks, nós temos de nos rever e vão haver mudanças de certeza. O lado positivo é que eu agradeço por elas terem postado nas redes sociais porque, de alguma maneira, alerta-nos para uma situação que pode ser muito mais grave do que parece.” E se há algo que fica claro é que o Docks não é uma discoteca racista, se existe alguém com uma atitude racista, essa pessoa não deve fazer parte da equipa do Docks. É aí que tem de haver mudança. O segundo passo é pedir desculpas às pessoas que de alguma maneira se sentiram marginalizadas à parta do Docks.”

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