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Valete não é um super herói, é um “mensageiro do erro” 

Finalmente conseguimos chegar ao Valete, dias antes do inesperado EP ser disponibilizado nas plataformas de streaming, o novo Aperitivo do rapper que “cortou a cabeça do meu rei”.

Estivemos à conversa por 50 minutos, falámos de tudo menos do Aperitivo, uma vez que também fui apanhado de surpresa com o anúncio do projeto nas redes sociais. Resta-me conferir que este EP não foi tão desejado como esta conversa, adiada por vários anos e agora possível porque a assessoria de imprensa do rapper marcou a entrevista no final do ano passado.

Estive cerca de um mês para preparar a dita entrevista ansiada por mim desde 2006, quando saiu Serviço Público, que coloco entre os melhores álbuns de hip-hop, sendo o seu ápice a faixa “Canal 115”.

Com a diretiva de que teríamos de falar dos concertos que vão acontecer no início de fevereiro em Lisboa e no Porto (Portugal) e que tinha menos de 30 minutos para realizar a entrevista, iniciei a conversa comparando Valete ao ex-presidente de Angola, José Eduardo dos Santos que, apesar de ter conquistado a paz do povo angolano, nunca o apoiou como devido. O artista que faz das suas palavras manifestos de empoderamento da comunidade negra na sua música, dificilmente junta-se aos movimentos para manifestar-se publicamente – à falta de representatividade política, as manifestações acabam por ser das poucas armas que a comunidade tem para expressar-se em uníssono e fazer ouvir as suas angústias, opiniões e anseios. 

A comparação não é óbvia e o rapper levou algum tempo para a digerir mas explicou que não está nas manifestações porque nunca acreditou que exista uma “narrativa única” da luta, além de ter as suas crenças e opiniões, que são muito individuais. Afirmou também que é músico e tudo o que sente tem de ser expressado na música. Ninguém pode exigir mais nada de si além da música e tudo o que tem a ver com as suas decisões e opções são privadas, não precisa de guiões alheios para estar na luta.

Agora parece que é cool dizer que sofrestes uma depressão

Valete

Nestes 20 anos de rap, que também foram 20 anos de muito crescimento, Valete foi peremptório a afirmar que a sua presença é muito mais forte e importante em estúdio do que em qualquer outro sítio. Afinal, ninguém conhece melhor Valete do que ele próprio: “Eu nunca fui ativista, eu sou rapper“, reivindicou.

Confessou que, quando era mais novo, já tinha tentado ser ativista mas agora, com mais idade, está cheio de “demónios interiores” e é com isso que se preocupa atualmente. O objetivo é também não mostrar às pessoas que é maior do que realmente é, um “ser humano cheio de erros”. Um genuíno “mensageiro do erro”, com muitas falhas, muitas contradições, muitas coisas para resolver com ele próprio e sem qualquer intenção de se revelar super herói. Nem para ele, nem para os outros. “Eu sou o homem das falhas, 20 anos de falhas, isto é o Valete não tenho condições nenhumas para liderar nada, não sou porta voz de nada a não ser dos meus erros”, afirmou.

Falámos também sobre saúde mental e em como, hoje, é um assunto que o preocupa. Apesar de sublinhar a sua falta de sustentabilidade científica, Valete acredita que muitos dos sintomas físicos que vêm dos problemas mentais não são sentidos com tanta intensidade quando se é mais novo. 

Sempre foi um jovem melancólico, um gajo depressivo mas só aos 30 e tal começou a sentir reações físicas da sua fragilidade emocional e, nos dias de hoje, sente muito mais ainda. Contudo, o rapper diz recear este movimento que anda a romatizar a depressão,  ansiedade e os problemas de saúde, porque são coisas muito sérias para serem romantizadas: “Agora parece que é cool dizer que sofrestes uma depressão”. 

Houve ainda tempo para debater muito mais assunto, que podes ver e ouvir no nosso canal de YouTube ou Spotify

Sobre o concerto, vai acontecer nos dias 3 e 4 de fevereiro, nos palcos do Coliseu de Lisboa e Porto com ingressos que custam entre 15 e 30 euros.

Quanto ao novo EP Aperitivo e o single “Vibes”, que chegaram às plataformas a duas semanas do concerto, conta com os vocais de X-Tente, Orlando Santos, Lila e Mara. As faixas são o novo cocktail de celebração dos 20 anos de carreira de Keidje Torres Lima, vulgo Valete. 

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