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Edna Mendes
📷: Wilds Gomes / BANTUMEN

“Já me foi dito que, para avançar, tenho de ter um branco na minha empresa”, Edna Mendes

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Ao começar este artigo, de forma automática, veio-me à cabeça a música “Run The World”, de Beyoncé. Isto porque, embora igualdade e equidade de género seja um problema por resolver a nível global, estamos a entrar numa era onde a questão começa a estar no topo das preocupações. Foi o que pudemos confirmar na última edição da Web Summit, voltou a dedicar um espaço a um dos programas mais importantes e influentes do evento tecnológico, o Women in Tech.

Com palestras, mesas redondas, workshops e um almoço dedicado, o programa teve como objetivo fomentar uma maior participação das mulheres no evento e facilitar mentoria e networking entre as participantes.

Depois de uma edição online, devido à pandemia, a Web Summit 2021 teve a maior participação de mulheres de sempre. Uma dessas mulheres é Edna Mendes, de 32 anos, formada em Turismo pela Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, e que neste momento encontra-se a tirar o Mestrado em Ciências Empresariais. Edna é cabo-verdiana e tudo o que faz é com o propósito de enaltecer o que de bom há no seu país.

Com mais de nove anos de experiência na área do Turismo, a jovem empreendedora levou à Web Summit a Marakon.com, a sua segunda Start Up – a primeira teve de ser cancelada devido às restrições para conter a propagação de covid-19.

“Em 2016 abri o meu primeiro negócio, uma StartUp que atuava nas áreas de eventos, turismo e serviços. Com a chegada da pandemia, acabei por suspender a atividade por não conseguir suportar, tendo em conta as restrições que a pandemia trouxe. Contudo, na mesma altura, abri a minha segunda StartUp, a Makaron.com, que presta serviços digitais, mas mais voltados para a área de turismo, uma das minhas grandes paixões. Nessa altura decidi também investir mais nos estudos e no mundo digital e da tecnologia. A Makaron foi o concluir de um dos projetos mais ambiciosos e com ela criei as Casas Morabeza”, explicou Edna.

As Casas Morabeza pretendem oferecer uma experiência singular a todos os que visitam Cabo Verde ou que queiram conhecer mais da sua cultura. É uma plataforma interativa que conecta os turistas e visitantes às famílias cabo-verdianas, que abrem as portas de suas casas para partilhar os saborosos pratos tradicionais da gastronomia do país, num ambiente intimista, caseiro e cheio de morabeza (amabilidade, afabilidade, traduzido do crioulo para português). Com refeições privadas, aulas de culinária presencial e online, eventos gastronómicos e experiências singulares são alguns dos vários programas que preparam para os seus clientes. Além disso, ainda criou a Morabex, uma aplicação de informação turística. 

A Web Summit foi muito importante para Edna pessoalmente e enquanto empresa. O objetivo era dar mais a conhecer a Makaron e as Casas da Morabeza, mostrar a oferta que têm e marcar a notoriedade da marca. “Preciso que as pessoas saibam e conheçam as coisas boas e tecnológicas que se fazem [em Cabo Verde]. Precisamos estar no mercado tecnológico mundial. Cada vez mais. A ideia aqui é sair do mercado pequeno e ir para outros horizontes, entrar mais no continente africano, europeu e não só. Atrair investidores e dar mais a conhecer do nosso trabalho. Ainda há muito para conquistar, por mais que tu faças, sentes que não é o suficiente. Até ao último dia da minha vida vou estar a conquistar coisas. Estou aqui, sinto-me muito motivada e abençoada, nem todos os jovens tiveram esta oportunidade que eu tive, de trazer o meu projeto desde Cabo Verde a este grande palco que é a Web Summit”, acrescentou.

Edna é uma mulher viajada e sempre absorveu do que melhor se faz no que toca ao turismo nos países por onde passou. Com as Casas Morabeza, tentou recriar um modelo de negócio que viu em Itália. O turismo corresponde a 25% do PIB em Cabo Verde, mas a maioria desses turistas não têm contacto direto com os locais. O modelo que Edna criou no seu país é all inclusive, o que significa que a acomodação tem tudo incluído, com uma oferta turística diferente, com um contacto com os locais onde estes possam ter um ganho direto com toda a movimentação turística. 

Cabo Verde foi o único país africano a nível governamental e institucional a ter um stand próprio no evento, o que mostra a sua evolução a nível digital e em como o país está empenhado em destacar-se como um hub tecnológico no continente. 

Para Edna, já não existe a necessidade de ter alguém externo à sua realidade para contar a sua história ou avançar com alguma coisa, porque não há “ninguém melhor que nós para contarmos a nossa história ou para criar algo relacionado connosco, com os caboverdianos”. 

Contudo, não são apenas as fronteiras geográficas que poderiam ter servido de barreira para o crescimento do negócio de Edna. “Já me foi dito inclusive que para eu avançar com alguma coisa profissionalmente, tenho de ter um branco na minha empresa. Digo sempre que não tenho pressa e que estou a construir o meu legado. Sei o que tenho de fazer hoje para que depois a minha filha não tenha de passar ou que passe menos do que passei. Sou uma mulher em primeiro lugar, negra e jovem em segundo, só por isso os olhares são de desdém e desconfiança. Pior é quando vem de pessoas mais velhas e do mesmo continente. Nós não estamos aqui para tirar o lugar de ninguém, porque na verdade dá para todos. Se existisse mais união, olha as parcerias que não podíamos fazer. Mas infelizmente este pensamento ainda é muito latente em África: o de desunião e falta de apoio. Porque se olharmos para a Europa com todas as suas nuances, existe apoio entre os pares e assim as coisas vão evoluindo mais rápido”, retorqui a fundadora da Casas Morabeza. 

Edna é apaixonada pelo seu país, adora a sua cultura, e a sua história, das danças e da sua gastronomia. No momento da entrevista, a jovem relembrou uma das últimas conversas que teve com o seu amigo Zeca Di Nha Reinalda, um ícone da música cabo-verdiana, a quem revelou a sua imensa paixão pelo arquipélago. Nos estudos, sempre foi uma “aluna de mérito, só tinha boas notas” e aconselharam-na a tirar um curso de Engenharia, Medicina ou Advocacia, mas não eram esses os seus planos. Por gostar tanto do seu país, queria fazer algo relacionado com a divulgação do mesmo, queria trabalhar com pessoas, prestar serviços e fazer indicações. Então foi claro que Turismo seria a sua grande escolha.

Apesar de Cabo Verde ainda depender do apoio de vários países da Europa, nomeadamente Portugal, a nível tecnológico o país está a avançar. Já é possível concretizar projetos virtuais, foram criadas oportunidades de trabalho apenas com um computador e acesso à Internet. “Até a minha avó que, para viajar, se não tivesse o bilhete em papel, não ficava descansada, agora, com a pandemia, aprendeu a utilizar as novas tecnologias e a confiar nelas para várias situações, como a compra de um bilhete de avião sem a necessidade de o ter em papel impresso”, afirmou Edna.

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