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David Yala: “Os artistas negros são basilares na cultura pop”

Não é segredo para ninguém que Humana Taranja são uma das coisas mais fixes que aconteceram ao pop / rock português desde os Panado que, inclusive, iam sendo comparados aos UHF antes do término definitivo da banda.

Enquanto a última era um trio pós punk (apadrinhado pelos Pista) com influências garageiras e psicadélicas, Humana Taranja são exatamente o mesmo, tirando a parte punk e adicionando o termo “New Wave” à equação.

Basicamente, as bandas New Wave dos anos 70 eram demasiado “aprumadas” para serem consideras punk. Eram geralmente compostas por um triciclo na banda, isto é um quarto membro (geralmente responsável pelo aglomerado melódico através de sintetizadores e teclados), sendo esse departamento específico preenchido pelos também vocais lushy de Filipa Pina, que contribuem para essa muito importante linha harmónica.

Ainda nesse departamento, um quinto membro é geralmente adicionado para funcionar como segunda guitarra ou a chamada guitarra melódica (solo guitar), também muito importante
em vários conjuntos dessa época musical de ouro, sendo que a mais explosiva que me ocorre neste momento são os Television.

Essa guitarra muito específica, responsável por conduzir
harmonicamente as canções, estaria a cargo de Tom Verlaine no grupo nova-iorquino, em Humana Taranja tal responsabilidade recai sobre David Yala, músico versátil e talentosíssimo no ofício.

O seu percurso no rock até aos tempos de hoje levaram-no a fazer parte do programa “Jovens Músicos”, dos estúdios King no Barreiro, chefiados pelo xerife da cidade Nick Nicotine (apenas o fundador do Barreiro Rocks) onde ali pôde aprumar as suas habilidades, não só como guitarrista mas também como baixista. Os Humana Taranja são cinco: Afonso Ferreira (bateria), David Yala (guitarra), Guilherme Firmino (guitarra, voz), Filipa Pina (Teclado, voz) e Marta Inverno (baixo).

Teremos todo o interesse em desmistificar este misterioso conjunto português que soa tanto a Nova Iorque dos anos 70 (Talking Heads, Television) e que inclusive inclui uma rapariga no baixo (Marta Inverno – que desempenha um papel igualmente fundamental na secção rítmica), o que não deixa de ser algo incrivelmente interessante, pois Tina Weymouth disse numa entrevista, em 2018, que “as mulheres não foram feitas para o baixo pois, biologicamente, nunca terão os ombros de um homem”. Isso adiciona ainda mais bravura à responsabilidade de Marta Inverno e cujo tópico adoraríamos abordar e o faremos numa outra ocasião.

Para já, queremos saber mais sobre o homem que é David Yala, o instrumento por trás de uma das bandas pop mais promissoras que circundam o universo musical português atual e que, inclusive, tocam em Lisboa no Titanic Sur Mer esta sexta-feira dia 25 de fevereiro.

Porquê a guitarra?

David Yala – A música foi algo que sempre esteve presente na minha vida. Em criança, a radio e a televisão eram os únicos veículos por onde eu podia escutar música e portanto ouvia apenas o que me era exposto por esses mesmos veículos. Na televisão gostava bastante das músicas exibidas nos vários desenhos animamos que assistia, como a música de encerramento dos Digimons mas também das músicas que rodavam na MTV Portugal, na VH1 e, especialmente, na MCM TOP, gostava particularmente deste canal.

Com a chegada da adolescência e da Internet, comecei a ter acesso a outros artistas e estilos musicais e aí comecei a definir o que seria o futuro eu. Um dos momentos importantes na minha introdução à música, mas mais particularmente à guitarra, foi quando a minha irmã recebeu uma clássica e também mais tarde uma elétrica. Ambas as guitarras, com o decorrer do tempo, começaram a ser mais tocadas por mim do que por ela e não foi por falta de jeito dela mas, talvez, os seus interesses transitaram para outras artes, bastante legítimo.

Outra peça fundamental no meu início como instrumentista foi o meu amigo Marco Amado. Foi com ele que comecei a ter mais interesse pelo instrumento e a tocar de forma mais “séria” e quotidianamente.

Interesse por música rock e não Kizomba?

O gosto pela música Rock foi algo que foi entrando através das descobertas nos meus primórdios no YouTube. Inicialmente, o meu ouvido estava a ser guiado apenas pelo que dava na televisão e rádio e no momento em que começo a procurar músicas que se identificassem mais comigo fui dar a um outro caminho. Isto não quer dizer que eu não oiça outros estilos de música ou que os menospreze, continuo a ouvir as músicas que ouvia antes e talvez agora até goste mais delas do que antes.

Arroz com Feijão, Guilherme Firmino e os restantes membros de Humana Toranja. como é que começou?

Posso dizer que tudo começou na escola Alfredo da Silva, no Barreiro. Por volta de 2015, eu e o Marco (como referi na primeira pergunta) fazíamos algumas jams na casa um do outro. Era apenas puro entretenimento. Só mais tarde, quando tivemos conhecimento do Programa Jovens Músicos, no Estúdio King, é que começámos a pensar em ensaiar como banda. Lá na escola tínhamos conhecido o Guilherme Firmino há relativamente pouco tempo e logo nos demos todos muito bem e começámos a tocar os três juntos. Eu no baixo, o Marco na guitarra e voz, e o guilherme na bateria. Assim nasceram os Arroz com Feijão, nome que foi dado à pressa quando chegou a hora do nosso primeiro concerto. O fim da banda veio em 2017 e, passado mais algum tempo, nasceu o projeto dos Humana Taranja. No início era apenas eu, o Guilherme e o Zector, que também andava connosco na escola. Com o avançar do tempo houve a necessidade de chamar mais gente para se juntar ao projeto e criar o que seria a primeira formação enquanto banda. Convidámos mais três amigos da escola, o Afonso que se tornou baterista, a Filipa tornou-se teclista e a Marta baixista, enquanto eu e o Gui nos ocupávamos das guitarras e o Zector na voz. Atualmente, a banda é composta apenas por cinco elementos, o Zector foi viver para França e de forma natural o Guilherme, que é o compositor das canções, ocupou a vaga de cantor principal, fazendo um óptimo trabalho.

©Vera Marmelo – Humana Taranja (Da esquerda para a direita): Afonso Ferreira (Bateria), Filipa Pina (Teclado, voz), Guilherme Firmino (Guitarra, voz), Marta Inverno (baixo) e David Yala (Guitarra).

Como é ser um artista no Barreiro, capital portuguesa do Rock?

O Barreiro é uma cidade que sempre está ligada à música. É possível encontrar isto na série documental Dança Camarra, que em alguns episódios descreve a evolução da música barreirense. O baluarte que me ligou à musica rock no barreiro foi o Festival Barreiro Rocks, que era realizado pela Hey, Pachuco. Lá aprendi a fazer mosh e a ouvir artistas que nem sabia que existiam. Foi lá que vi pela primeira vez King Khan, os Sunflowers, os Act-ups, entre outros. Mas o mais importante era o ambiente de amizade entre toda a gente, era como estar em casa. Infelizmente, o festival teve a sua última edição em 2018, mas o ambiente que lá era vivido está bem captado no documentário sobre o Barreiro Rocks, que pode ser visto no YouTube. O mentor do festival, Nick Nicotine, é um talentoso multi-instrumentista camaleónico que deambula entre diversos heterónimos, bandas e vidas. O seu bom humor e a simpatia enquanto pessoa permitiu que tanto eu como os meus companheiros de bandas criássemos uma bela amizade com ele, e orgulhosamente o apelidamos de “pai”.

Guitarrista preferido?

São questões que não consigo responder de forma coerente. A minha opinião sobre o meu artista preferido vai mudando consoante as coisas que tenho ou não ouvido. Todavia, acho que nos últimos tempos o meu guitarrista preferido tem sido o Steve Howe da banda Yes, ou o Robert Fripp dos King Crimson. Hoje não consigo escolher qual dos dois titãs do prog rock está em primeiro lugar. Talvez, se me fizeres a mesma pergunta para a semana a resposta seja totalmente diferente.

Músico / Artista preferido?

Indo na sequência da resposta anterior, a escolha de um artista predileto é sempre difícil, está sempre em constante mudança e nunca de forma racional. Num dia o Michael Jackson é o meu artista favorito, noutro pode ser o Allen Halloween ou os Bro-X ou outro qualquer (risos). Dentro de cada esfera há sempre algum artista importante no meu caminho enquanto “músico” e enquanto ouvinte. Mas para ser mais sucinto e direto, penso que hoje, e para fazer uma certa homenagem a um grande cantor angolano que faleceu no ano passado, a minha resposta recai para Carlos Burity. Dos álbuns que ouvi no carro com os meus pais sempre me deixou feliz e com vontade de cantar os seus sembas nas línguas nacionais angolanas.

Importância dos músicos negros na esfera rock / pop?

A importância dos músicos negros na esfera do Rock é igualmente importante como na grande maioria dos estilos musicais e ritmos contemporâneos. É neles onde se encontram as bases do rock, do jazz ou do hip-hop. Há uns dias emprestei uma camisola ao Guilherme, onde reflecte a importância dos artistas negros na nossa contemporaneidade e de como eles e elas sãos basilares na cultura pop da nossa sociedade. Infelizmente, muitas vezes, certos grupos pretendem alterar os factos e a história como ela é. Pretendem tomar as conquistas e os frutos de outros para seu favor e deleito mas a verdade é que é impossível não encontrar diversos músicos negros nas bases dos estilos que acima referi. A sua importância não está apenas na génese das coisas, mas também na sua continuação, no seu legado, na partilha e na sua continuação. Sempre achei engraçado o papel que o teclista Billy Preston desemprenhou nos últimos trabalhos dos Beatles.

David Yala, no baixo.

O que esperar do concerto de sexta-feira dia, 25 de fevereiro?

O concerto de sexta-feira dia 25 no Titanic sur Mer vai ser em conjunto com os Biloba, banda com quem tocámos no Festival Emergente de 2021. Esta vai ser a nossa primeira atuação desde dezembro e estamos desejosos para voltar aos palcos. Para o concerto preparámos algumas músicas que ainda não foram ouvidas pelo público e também músicas que já não eram tocadas há algum tempo mas que são queridas pelos nossos ouvintes. Para sexta-feira posso garantir que vai haver energia, gesso e um ambiente repleto de amizade e cerveja.

O que esperar do novo disco?

O nosso próximo trabalho é uma evolução natural do DEMO TAPES e da Quase Vivos. Deste novo repertório já foram lançadas para o público em formato single as canções Fado Tropical e Destino. Para além destes dois singles lançámos ainda dois vídeo-concertos, o Chove Cor Em Saturno e tambem o VCR – Humana Taranja Commercial Anthology Part One, que podem ser vistos no YouTube. Estes dois vídeo-concertos foram realizados em paralelo com Tiago Bastos Nunes, mais um amigo talentoso da escola Alfredo da Silva. As músicas que estão presentes nos vídeo-concertos farão parte do novo disco, lá poderão encontrar espaço para dançar, cantar e fazer mosh com quem mais gostam.

Futuro e ambições profissionais?

As minhas ambições enquanto artista é de continuar a lançar músicas com os meus companheiros, tanto nos Humana Taranja como com Walter Walter. Esta última é uma banda mais “recente”, coloco o recente em “parênteses” porque a banda já existe desde antes da pandemia e que graças a ela só agora em 2021 é que conseguimos lançar o nosso primeiro single. A banda é composta por mim no baixo, o Afonso na bateria e o André na guitarra, que tal como todos os outros aqui mencionados também era aluno da escola Alfredo da Silva.

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