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Paulina Chiziane, na Fundação Calouste Gulbenkian | Maio 200 | ©Flávia Brito

Paulina Chiziane: “Pergunto hoje qual é o preto que conheceu o paraíso? Nenhum”

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Escreve porque quer. Fala do que vê e inspira-se no que a emociona. Quiseram, também por isso, que fosse Prémio Camões em 2021. Paulina Chiziane é como se apresenta – mulher, negra, moçambicana, africana. E esteve em Portugal para uma tour literária, em maio último, cerca de sete meses depois de ter sido distinguida, por unanimidade, com o mais celebrado galardão literário de língua portuguesa. 

“E eu sempre achei que o meu português não merecia tão alto patamar”, disse quando soube daquele reconhecimento, sentada à sombra de uma árvore, no quintal de sua casa, na periferia de Maputo. A autora de Niketche: Uma História de Poligamia – Prémio José Craveirinha de Literatura, em 2003 – tem como língua materna o chope, falado em Gaza, no sul de Moçambique, onde nasceu em 1955. Quando emigrou com a família para a capital do país, ganhou também o ronga. E o português, “aprendido de Portugal”, como muitas vezes diz, entrou na sua vida através da escola de uma missão católica. Usa-o para escrever sobre o amor, a mulher, a violência, as desigualdades sociais. São eles os protagonistas dos seus livros. 

Paulina Chiziane foi, ao fim de 33 edições, a primeira africana a vencer o Prémio Camões. Mas já tinha sido pioneira, quando, em 1990, o livro Balada de Amor ao Vento foi editado. Era o primeiro romance a ser publicado por uma mulher em Moçambique. E a esse seguiram-se outros, com histórias sempre fortemente marcadas pela intervenção social e pela preocupação com a situação da mulher africana.

Depois de sete dias de uma intensa tour literária, encontrei-me com a escritora. Ia apanhar o avião horas mais tarde, tinha as malas por fazer, mas nem por isso se apressou nas palavras. Afinal, partilhou, nunca imaginou que a voz de África pudesse ser ouvida com tamanho interesse por um público europeu. O Prémio Camões trouxe-lhe essa oportunidade. E, em nenhum momento, a quis desperdiçar. Foi uma conversa pautada pela sua típica gargalhada rouca e pela determinação das suas palavras.

Paulina tem, como diz, uma natureza selvagem, e usou a sua liberdade para fazer o que quis. Com o lugar de fala que alcançou, considera-se hoje “uma espécie de continuidade das lutas antigas”, por um mundo onde a humanidade das pessoas se sobrepõe a qualquer outra característica física ou social, e onde os povos africanos – ainda presos a autoconceitos coloniais – acabarão por, verdadeiramente, se libertar.

Começo por lhe perguntar, como sente que foi recebida e como foram estes encontros em Portugal?

Foi bom demais. Muita aprendizagem, muita viagem, muitos encontros. Tivemos a sorte de ser recebidos pelo Presidente da República também. Fizemos uma visita de cortesia. E foi interessante.

O que a marcou mais?

Tudo. Eu – africana que sou – nunca imaginei que a voz de África pudesse ser ouvida com muito interesse por um público europeu. Aliás, já tinha alguns indícios, mas desta vez foi a confirmação de que as pessoas reconhecem a importância da voz de África na construção deste mundo em que vivemos.

Porque achava que a voz de África não era ouvida?

É a História. A História sempre ditou isso, e nós sempre vivemos como aqueles seres marginais ou marginalizados. Foi preciso muita negociação para nos podermos sentar na mesma mesa, dialogar, e hoje sinto que isso está a acontecer. 

E sente que está a contribuir para mudar esse paradigma? 

Estou a continuar esse processo, que não fui eu que comecei. Houve gente que tanto lutou, até que morreu. Então, a alegria que me dá é que, no meio disso tudo, sou uma espécie de continuidade das lutas antigas, e espero que a geração nova também lute para construir um mundo mais equilibrado. 

Foi a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique. Qual é o espaço hoje ocupado pelas mulheres na literatura moçambicana?

Há muita gente jovem, muita mulher jovem escrevendo de tudo, romance, drama, poesia, e fazendo arte e sendo reconhecida. Foi difícil no meu tempo, porque fomos pioneiros. Neste caso, fui pioneira.

Agora é mais fácil para as mulheres? 

É muito mais fácil. Felizmente, a história das mulheres em Moçambique evolui positivamente. A primeira medalha olímpica foi de uma mulher. Os primeiros grandes prémios na área musical, na área artística foram de mulheres. Isso incentiva mais jovens, inspira e elas hoje trabalham com um pouco mais de segurança. 

Quando recebeu o Prémio Camões disse, e passo a citar, que, “afinal, a mulher tem uma alma grande e tem uma grande mensagem para dar ao mundo”. Que mensagem é essa?

As minhas mensagens são essas que vêm descritas nos diferentes livros que fiz. O mundo tem de ser equilibrado. Os homens e as mulheres têm a sua razão de existir e não deve haver motivos para a guerra dos sexos. Uma mulher é uma mulher e tem de ser respeitada e ter direitos como mulher. O homem é o homem. Portanto, há esses papéis naturais que não mudam, que são naturais. Mas não se pode classificar seres humanos como maiores ou menores, como submissos e senhores, por causa da natureza. Isso é inconcebível. Essa é a grande mensagem. 

Que mulher é a Paulina?

Sei lá. Sou eu [risos]. Não sei.

Sente que tem aberto caminho para outras mulheres, principalmente, em Moçambique?

Sinceramente, tenho muita dificuldade em falar de mim. Acho que não abri coisa nenhuma para ninguém. Fiz aquilo que me deu na cabeça e, no fim, começo a perceber que, afinal, o que fiz é valorizado. E a sociedade sente que, de facto, é um caminho aberto. Isso é muito gratificante. 

O Prémio Camões pretende estreitar os laços culturais entre os vários países lusófonos e enriquecer o património literário e cultural da Língua Portuguesa. Para si, o que significa isto da lusofonia?

Para mim, é um grupo, é um nome. Acima de tudo, o que conta é a humanidade, mais nada. Agora se é a lusofonia, se é a francofonia… Somos diferentes. São as diferentes pessoas com os diferentes patrimónios, mas o denominador comum é apenas um, humanidade, mais nada. 

Paulina Chiziane, na Fundação Calouste Gulbenkian | Maio 200 | ©Flávia Brito

[Na Gulbenkian] Dizia que há muitos escritores que escrevem para agradar. Porque pensa isso? 

Porque escrevem mesmo para agradar. A literatura moçambicana. Precisa de profundidade. E os escritores – incluindo-me – ainda não desceram a essa profundidade do ser africano, do ser moçambicano. É um exercício que precisa de ser feito. 

E como acha que isso vai acontecer? A Paulina é extremamente crítica em relação à maneira como os africanos olham para o continente africano e em relação àquilo que pode ser o futuro do continente… 

Eu faço crítica no sentido de despertar para o diálogo e para se olhar. Todo o sistema colonial teve, como missão, o desenraizamento do povo africano. Cinco séculos de política, de repressão e de desenraizamento criou este fenómeno africano de autonegação. Então precisamos de tempo para nos libertarmos disso. Aquilo que digo sempre: sou assim, preta africana, porque Deus quis. Quem são os outros para dizer que tenho de mudar? A mulher africana tem de desfrisar o cabelo para ficar como o dos brancos. Tem de usar aqueles cremes cáusticos para ficar com a pele mais clara, como a dos brancos. Tem de se vestir como os brancos. O que é isso? Querem mudar a minha natureza? Querem substituir Deus na criação de África? Calma aí. 

De vez em quando, faço essas provocações apenas para criar um momento de reflexão e autoaceitação. Lavar a cabeça e voltar a sentir o prazer de ser. Porque nós temos tantas coisas boas, como qualquer povo tem. Porque é que nos temos de colocar numa posição de inferioridade? Isso não é justo. 

Sente que os povos africanos ainda não se libertaram verdadeiramente? 

Não é possível se libertar em tão pouco tempo. É um processo. Já é muito bom eu estar aqui e falar destas coisas. Já consegui criar alguma liberdade. Quando falo, é no sentido de partilhar esta necessidade de libertação interior. O nosso ser tem de ser livre, e o africano tem de sentir a alegria e o orgulho de ser o que é, e não alguma coisa imposta por valores de um outro povo.

E a Paulina é muito orgulhosa daquelas que são as suas heranças… 

Absolutamente. E não vou deitar fora nenhuma, porque que são minhas. 

Relembre-me que línguas é que fala, para além do português língua, que já aprendeu na escola. 

A minha língua materna é o chope. É uma língua muito pequenina na província de Gaza, num ambiente em que a língua maior é o changana. Os meus pais emigram… emigramos todos para Maputo, onde se fala o ronga, e também aprendi a falar essa língua. E também o português.

É uma defensora das línguas nacionais?

Defensora, não. Não sei o que é isso de defensora. Se ela é minha, tenho de usá-la. Língua é o património de uma cultura. Então, vou usar a minha língua. Não vou deixar de usá-la. 

Como é que olha para Moçambique hoje?

Tem os seus problemas, os seus conflitos, os seus desafios. Às vezes parece estar a retroceder com tantas guerras que assolam o nosso país. Às vezes parece estar a crescer. Mas Moçambique é aquela terra linda. É a minha terra, com problemas, ou sem eles, mas que está a caminhar. E o seu povo luta, cada dia mais, por um ambiente de paz, por um ambiente de progresso.

Na sua opinião, quais são os principais obstáculos a essa paz e a esse progresso? 

O problema de África, o azar de África é a riqueza. África é rica, tem muitos recursos. No mundo de hoje, qualquer continente, quando desperta, pensa em África, pelos recursos que África tem. Esse é o nosso azar. A maior parte das guerras que temos não são nossas. São guerras criadas com o objetivo de ir buscar recursos. Foi assim com a invasão colonial, que depois gerou a escravatura e a colonização. Os nossos recursos são a nossa maldição. O mundo está de olhos por cima das nossas terras. 

Sente que o resto do mundo que quer tanto, ou que diz querer tanto ajudar África e os povos africanos, também é o primeiro a dificultar que o povo africano possa usufruir da sua riqueza, do seu património, e crescer? 

Quando a invasão colonial se deu, o argumento era de que iriam tirar África das trevas, cristianizar, civilizar e levar os povos africanos ao paraíso. Pergunto hoje qual é o preto que conheceu o paraíso? Nenhum. Todos conhecemos o inferno da escravatura, colonização e alienação cultural. Portanto, a minha resposta é essa. 

A obra da Paulina parte quase sempre da realidade, daquilo que observa, daquilo que é o mundo à sua volta. Quando olha para essa realidade, procura alguma coisa ou simplesmente as coisas vêm ter consigo? 

Nunca procurei nada. Estou a caminhar pela rua e encontro um acontecimento, que corre aos meus olhos, que às vezes me emociona negativamente ou positivamente. E passado um tempo, estou a refletir sobre o que aconteceu e dou por mim já a escrever. Nunca fui exatamente uma pessoa que vai à procura. As coisas vêm ter [comigo], vêm ter aos meus olhos.

Para si, há um certo ou um errado nas tradições? 

O que posso dizer é que a beleza da humanidade é a sua diversidade. Cada um é o que é, e vive como é. E há coisas que, às vezes, a gente olha e diz “Deus do Céu. Mas que história é essa?” Gostaria de falar um pouco da poligamia, que é um assunto que muita gente quer questionar ou normar. Eu gosto muito de falar de poligamia e li um pouco sobre poligamia. Há coisas muito curiosas e muito interessantes. 

Li a história do Xá da Pérsia e do Xá do Irão, indivíduos que viveram nos anos 800 a.C., segundo alguns livros islâmicos. O Xá da Pérsia chegou a autointitular-se marido nacional, isto é, ele tornou-se marido de todas as mulheres do país, por decreto – de todas as mulheres que existiam e daquelas que haviam de nascer. Então, qualquer menina que nascesse já era a princesa, a esposa do rei e, consequentemente, todo o homem que quisesse casar tinha de pagar tributo ao rei. Esse indivíduo tornou-se o Xá mais rico da história, porque o dinheiro que ele cobrava do pobre rapaz que se apaixonava, que se queria casar, era tanto dinheiro… Mas, finalmente, teve de enfrentar uma guerra e foi deposto, porque os homens fizeram a rebelião para ter direito a casar sem pagar. Portanto, essa é uma história de poligamia, para mim, extremamente interessante e curiosa. 

Também se fala do Rei Salomão, bíblico, que teve cerca de trezentas mulheres, entre esposas e concubinas – não sei o que é que um homem faz com trezentas mulheres –, e uma série de outros exemplos que encontramos no continente africano. Em Moçambique, lembro-me do Rei Mataka I, que teve trezentas esposas. E, se o ano tem 365 dias, tiramos os 65 para doença, para repouso do senhor, e deixamos os trezentos dias para ele agraciar as suas mulheres, o que fazendo as contas dá direito, a cada mulher, a um dia por ano, com o seu marido. 

São essas histórias curiosas e interessantes em que gosto de mexer. E reconhecer também que o planeta Terra tem várias culturas. Há culturas, há religiões e há tradições onde a poligamia é a base da vida. Então, gosto de falar das coisas, não apontar porque é melhor, porque é pior. Falo delas, porque me apetece falar delas. 

Significa a oportunidade de me afirmar diante do mundo. Dizer sou negra, sou mulher, e Deus é negra e é mulher

Paulina Chiziane

A Paulina é uma mulher religiosa? 

Sou, por excelência. Mas agora quero perguntar-lhe a si, o que significa a religião?

Acreditar em algo?

Não. Para mim, religião é ter certeza de algo e fazer algo. Tenho a certeza de que estou viva. Tenho a certeza de que alguém me deu a vida e tenho a certeza de que, se eu fizer algo por alguém, estarei a contribuir para uma vida melhor. Essa é a minha religião. E como essa religião não se entende com as religiões dos outros, fico sempre no meu canto e na minha religião, porque sou eu.

Um Deus que é mulher e é negra, não é?

Enfim, é uma maneira de ver o mundo. Porque não?

A Paulina já esteve ligada à Frelimo. Depois acabou por se afastar da vida política. Houve um desencanto?

Sim e não. A minha natureza é selvagem. Gosto de liberdade, e estar numa religião ou numa igreja, ou estar numa sociedade, num sistema social, num grupo político, significa seguir as normas criadas por outros. Não gosto disso. Gosto de estar comigo mesma. Então, como movimento de libertação, estive perto. Mas depois disso, disse “Não quero saber nada dessas normas, desses princípios. Quero fazer a minha vida tranquila, e é o que estou a fazer agora.”

Disse-se impressionada quando recebeu o Prémio Camões. Esta tour que está a fazer agora por Portugal, só é possível graças a esta distinção?

O Prémio Camões significa muita coisa. Para mim, esta tour também tem outro significado. Significa a oportunidade de me afirmar diante do mundo. Dizer sou negra, sou mulher, e Deus é negra e é mulher. É uma oportunidade para afirmar o nosso ser como africanos. Tem esta vantagem, e é muito importante que isso aconteça. A afirmação é no sentido de abrir um espaço para o mútuo conhecimento, para um diálogo cada vez mais profundo. Nesse aspeto, o Prémio Camões é muito importante, porque está mais do que claro que existe muita gente com ideias boas, com muita sabedoria, mas que não tem um espaço para poder falar. Não têm um canal e muitas pessoas, até mesmo reconhecendo a sabedoria da pessoa, podem não escutar com a devida atenção. Tive a sorte de ter este prémio que me permite falar alto e ser ouvida, e isso é um mérito que tenho que dar e reconhecer do Prémio Camões. 

Sente que abre caminho desta forma para outras pessoas que vêm seguir a si? Até lhe pergunto se gosta de pensar em si como uma inspiração…

Da mesma forma que me inspirei nos feitos de outras pessoas, acredito que este prémio dará certamente segurança e inspiração a outras mulheres negras para escreverem e publicarem. Tem esse lado muito importante que é inspirar os outros.

Quem são as suas inspirações?

Tudo. Inspiro-me em tudo. Não sei porquê, mas sou assim. Tanto me inspiro naquilo que vejo na rua, como na paisagem, nas pessoas. A minha inspiração só surge quando algo me emociona. É na natureza, é nas pessoas, é na convivência, nos conflitos, aquilo que me emociona, seja positiva ou negativamente. Isso dá, assim, um toque na minha consciência. E, de repente, estou a trabalhar nisso. 

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